| Disfunção Executiva, meritocracia e políticas públicas: qual o impacto das propostas de governo na vida dos neurodivergentes? |
Estamos diante de uma das maiores encruzilhadas da história do Brasil. Duas opções antagônicas se confrontam com pouca proposição e muita agressão.
No nosso caso específico, TDAH, ambas as propostas são vagas e genéricas. Suporte ao diagnóstico precoce, ampliação da abrangência do CAPS/RAPS para incluir os neurodivergentes, apoio escolar... Enfim, nada específico, o que denota pouca ou nenhuma preocupação com o transtorno em si.
Dirão os "idiotas da objetividade": Mas os governos têm coisas mais importantes com que se preocupar. Não, não têm. O que muda um país, o que mudou a humanidade foi saúde e educação. Um povo bem educado (no sentido amplo do termo) adoece menos, pois se cuida melhor. Um povo saudável produz mais e melhor. Educação e saúde deveriam receber atenção das elites até mesmo por interesse. Os grandes bilionários do mundo são os que lidam com alta tecnologia, com o saber, com pessoas saudáveis e altamente produtivas. Quem vive, como nós, de plantar e esburacar a terra ainda engatinha nas benesses do capitalismo e produz apenas bilionários locais e regionais.
Tá, e o que o TDAH tem a ver com isso? Tudo! Somos fruto imediato da falta de suporte ao transtorno. Quantos de nós — e eu me incluo aqui sem nenhuma modéstia ou orgulho — desperdiçamos uma alta inteligência por não conseguir transformá-la em vida prática? Quantos de nós estivemos tão próximos do sucesso profissional, acadêmico, artístico e simplesmente nos boicotamos, tivemos medo, insegurança e afundamos na mediocridade?
As propostas de governo se chocam frontalmente: uma é considerada assistencialista e a outra liberal. Uma é atacada por oferecer esmolas à população, impedindo-a de crescer e se independer. A outra é acusada de abandonar justamente aqueles que são mais frágeis e que, consequentemente, não terão os atributos ou as ferramentas necessárias para conquistar essa independência sozinhos.
Da minha parte, sou de um tempo em que o TDAH sequer existia no Brasil e cresci absolutamente sozinho, ao livre comando do transtorno. O resultado todos vocês que leem o blog conhecem: uma vida recheada de "quases"... Quase advogado, quase filósofo, quase saxofonista, quase escritor, quase empresário bem-sucedido, quase, quase e quase... Até este blog já foi um enorme sucesso e eu simplesmente o abandonei anos atrás, fazendo com que caísse no ostracismo.
Não sei se pessoas com TDAH conseguem alcançar a independência por méritos próprios ou apenas com um apoio mínimo. E isso também é investimento com retorno garantido. Somos alguns milhões que, com o apoio precoce, o tratamento adequado e o direcionamento correto, seremos muito mais produtivos, equilibrados e previsíveis, ao mesmo tempo em que poderemos contribuir para todas aquelas "qualidades" inerentes à nossa personalidade e que hoje são desperdiçadas pela chamada Disfunção Executiva.
Tancredo Neves dizia que uma proposta de governo deve ser genérica, mas falamos de outros tempos. Hoje as demandas e as cobranças são muito maiores e o acesso à informação é quase ilimitado. Lógico que não li todo o plano de governo de Flávio Bolsonaro, assim como não li o de Lula, mas busquei exatamente o que me interessava. Ambos são superficiais, mas a filosofia do Flávio é a de Estado Mínimo e uma vida calcada puramente na meritocracia dificulta muito para quem, como o neurodivergente, tem que sair para lutar em campo aberto.
Pode ser que um dia, com educação de qualidade e universal, nossos descendentes possam se equilibrar com as próprias pernas, dispensando o suporte do Estado. Por enquanto, creio que não dá. Por experiência própria.
💬 E para você? Como a falta de suporte ou diagnóstico tardio afetou a sua trajetória profissional e pessoal? Você acredita que a meritocracia funciona para o neurodivergente ou o apoio do Estado é indispensável? Deixe seu relato nos comentários!