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Tive a ilusão de que se o TDAH ficasse mais conhecido da população em geral teríamos mais empatia, mais solidariedade e menos preconceito. Coitado de mim. Como tudo, ou quase tudo, que viraliza na Internet o TDAH passou de desconhecido a meme, de desconfiança a autodiagnósticos, e agora estamos em nova fase: golpes em nome do TDAH. Exatamente, já temos os golpistas de Internet usando o TDAH como isca.
Já tenho acompanhado meio irritado o surgimento de vários planners milagrosos, que vão mudar a nossa vida em minutos. É um golpe tão infantil, tão primário, que me impressiona como TDAHs de verdade ainda caem nisso. A probabilidade de um planner genérico resolver o TDAH é tão baixa que o que se vende é esperança, não ferramenta. Um planner exige que você escreva, anote, se lembre, priorize... Um planner, pra funcionar, exige que você não seja TDAH. No primeiro mês você vai vibrar: achei a solução. Esse é o primeiro passo pro abandono. Ao acreditar que funcione, o seu cérebro desliga da necessidade de focar naquilo: já funcionou. Está resolvido. Nenhum TDAH anota nada recorrentemente. Se anotar, não vai se lembrar de consultar. Se consultar e encontrar erros de planejamento, descarta pra sempre. E você nunca mais se lembrará de que comprou um planner.
Ah, mas o meu planner é diferente, ele me lembra, me cobra, me notifica. Ótimo. Só que o planner é igual ao papel: aceita tudo o que ali for escrito. Se eu quero uma determinada prioridade, eu a coloco ali em primeiro lugar. Não a prioridade mais importante, mas aquela que me interessa como portador de TDAH. O cérebro com TDAH não prioriza por relevância — prioriza por interesse. E, a partir de uma premissa errada, tudo vai por água abaixo. Quando o plano desmorona — e vai desmoronar — a culpa será do planner? Não. A culpa será sua. Mais uma vez. E esse ciclo de culpa é tão prejudicial quanto o transtorno em si.
Os planners já me incomodavam, mas ontem apareceu no meu feed uma alimentação especial para melhorar o desempenho do TDAH. Ahhhh, aí já é demais. Isso se chama estelionato. Não há nada científico que embase um golpe desses. Você come abobrinha e sua mente muda. A berinjela é capaz de alterar estruturas cerebrais mal formadas. Ora, tenha a santa paciência, isso é golpe. Ahhhh, mas essa alimentação aumenta a dopamina. Primeiro de tudo: me mostre o estudo científico que prova que esse ou aquele alimento é capaz de aumentar significativamente a produção de dopamina no cérebro ao ponto de alterar o comportamento de um portador de TDAH. Não há milagres. Se esse ou aquele alimento realmente fizesse efeito já existiriam estudos sérios comprovando isso. Claro que dirão que tudo é um complô das indústrias farmacêuticas malvadas... Não, não é. Existem milhares de médicos, cientistas e pesquisadores honestos, sérios, que trabalham em instituições públicas isentas, que já teriam publicado alguns estudos honestos sobre o assunto. Em qualquer área, a qualquer momento, em qualquer lugar do mundo, se a conversa vier com existência de complô internacional, te ensinar algo que ninguém sabe, fuja que é cilada. Ou golpe. Estamos na era da informação, nada fica escondido por muito tempo. Até informações secretas do governo estadunidense já foram vazadas. Imagina algo assim. Claro que já teriam estudos sobre isso. A Ritalina já teve sua patente quebrada, com certeza já não tem o mesmo impacto financeiro para o laboratório que a produz como antigamente. Esse é um mercado que vive de novidades, de grandes lançamentos. Se existisse algum benefício significativo em algum alimento os laboratórios já estariam sintetizando essa substância para transformá-la em comprimido. Eu sou um que prefere tomar um comprimido do que ser obrigado a comer pepino ou abóbora. Mas, se tem placa tem história. Se tem alguém pagando publicidade no Instagram é porque tem quem compre seus alimentos milagrosos.
O iludido aqui pensava: com o tempo os falsos médicos que falam bobagens sobre o TDAH desaparecerão. Ledo engano! Estão aí borbulhando e falando asneiras aos quatro ventos. Vi outro dia uma psicanalista, que tem sete milhões de seguidores no Instagram e que criou uma IA de psicanálise, dizer em um podcast que TDAH é comportamental! Ainda usa o exemplo do apresentador, que não sei quem é, como caso de sucesso ao mudar seu pensamento. Como assim? No século XXI uma psicanalista aparentemente séria e dona de saber específico vem a público falar uma asneira dessas? Poucos meses após a revista Molecular Psychiatry publicar um estudo chinês com mais de duas mil crianças, usando ressonância magnética, que encontrou diferenças estruturais claras em regiões cerebrais ligadas à atenção e ao controle de impulsos em crianças com TDAH. Ou seja: não é pensamento, não é comportamento, é cérebro. É neurologia.
É de desanimar. E o pior, todo mundo ouve e acredita nela, é melhor ouvir que posso mudar meu pensamento e estancar o transtorno do que passar o resto da vida me tratando, nem sempre com resultados significativos. E o número de seguidores só vai aumentando e propagando a desinformação e o preconceito.
No fim, o ingênuo fui eu mesmo de acreditar que popularidade e conscientização são a mesma coisa. Não são. E enquanto não aprendermos a diferença, o TDAH vai continuar sendo lucrativo — menos para nós, que temos o transtorno.
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Informe-se correta e honestamente sobre TDAH na ABDA: Associação Brasileira Do Déficit De Atenção.
FAQ - Perguntas Frequentes:
1. Por que planners não funcionam para quem tem TDAH?
Planners exigem que a pessoa anote, priorize, lembre e consulte de forma consistente — habilidades que o TDAH compromete diretamente. Além disso, o cérebro com TDAH prioriza por interesse, não por relevância. Isso significa que, mesmo com lembretes e notificações, a pessoa vai colocar no planner aquilo que a interessa naquele momento, e não aquilo que realmente deveria ser prioridade. O resultado é um plano com a premissa errada desde o início, seguido de culpa quando ele desmorona.
2. Existe alguma comprovação científica de que alimentos podem tratar o TDAH?
Não. Até o momento, não há estudos científicos sérios que comprovem que algum alimento isolado seja capaz de aumentar a produção de dopamina no cérebro ao ponto de alterar o comportamento de uma pessoa com TDAH. O TDAH é um transtorno neurobiológico, com evidências de alterações estruturais cerebrais documentadas em exames de imagem — como demonstrou um estudo chinês publicado na revista Molecular Psychiatry com mais de duas mil crianças. Alimentação saudável é importante para qualquer pessoa, mas não substitui tratamento clínico adequado.
3. O TDAH é um transtorno de comportamento ou uma condição neurológica?
O TDAH é uma condição neurobiológica. Estudos de neuroimagem, como o publicado na revista Molecular Psychiatry, demonstram diferenças estruturais claras em regiões cerebrais ligadas à atenção e ao controle de impulsos. Dizer que TDAH é "comportamental" e pode ser superado apenas com mudança de pensamento contradiz a evidência científica disponível e contribui para a desinformação e o preconceito.
4. Qual é a diferença entre popularidade do TDAH e conscientização real?
Popularidade significa que o tema está em alta, gerando conteúdo, memes, autodiagnósticos e produtos comerciais. Conscientização significa que a população entende o que o TDAH realmente é — um transtorno neurobiológico com impacto real na vida das pessoas — e responde com empatia, informação correta e respeito. A popularidade, sem filtro, abre espaço para golpes, desinformação e falsos especialistas. Conscientização exige rigor. As duas coisas não são a mesma coisa.
5. O Planner então é picaretagem?
Não, planner não é picaretagem e pode até ser útil, o que é desonesto é a forma que anunciam e tentam vender: uma ferramenta fácil de usar e que vai mudar sua vida. A base do TDAH é a dificuldade com as funções executivas, e isso serve para absolutamente todas as áreas da vida, inclusive preencher e acompanhar planner.
