domingo, 3 de abril de 2022

10 COISAS QUE NÃO SE DEVE DIZER AO TDAH


1) BASTA ANOTAR - essa afirmação é uma das maiores provas de desconhecimento do que é o TDAH. Não anotamos. Se anotarmos, esquecemos de consultar. Se consultarmos, não enxergaremos todos os itens ou tópicos, ou nossa mente só se importará com aquilo que é importante para ela e o restante cairá no limbo.
2)TENHA UMA AGENDA, PROGRAME SEU DIA - Essa é uma variação da anterior e demonstra a ignorância completa em relação ao TDAH. Tive um sem número de agendas (físicas e virtuais), todas foram abandonadas. Nos primeiros dias é perfeito, tudo anotado com riqueza de detalhes, à medida que o tempo passa, as anotações vão ficando mais vagas e espaçadas. Até que um dia acabam. Em geral, dura, no máximo, um ou dois meses.
3) FAÇA UMA LISTA DE PRIORIDADES - Não sabemos elencar prioridades. Simples assim. Nosso cérebro prioriza o que lhe é interessante, o que ele quer. Entenda, é um transtorno, uma doença, nosso cérebro funciona diferentemente do seu, ele tem uma lógica própria que, para nós portadores, é a correta pois não conhecemos outra. Se conseguimos fazer uma lista de prioridades razoável, as intercorrências do dia a dia subverterão essa ordem e ela será abandonada.
4) SE TEM QUE SER FEITO, FAÇA NA HORA - Uma das características do TDAH é a PROCRASTINAÇÃO, ou o adiar indefinidamente aquilo que deve ser feito. Na visão dos trouxas (os não portadores) isso é apenas irresponsabilidade ou preguiça. Nada mais enganoso. Sabemos o que deve ser feito, sabemos quando deve ser feito, sabemos porque deve ser feito. Mas não CONSEGUIMOS fazer. E o pior, sofremos por não conseguir fazer. A paralisia é sofrida, é incômoda, mas, na maioria das vezes, é insuperável. Só conseguimos reagir quando o desastre é iminente ou inevitável. Em geral tarde demais.
5) PENSE NO AMANHÃ, NO SEU FUTURO -
O cérebro humano funciona através de recompensas, o cérebro sem TDAH consegue projetar recompensas futuras, mais ou menos assim: vou fazer esse sacrifício hoje para no mês que vem ou ano que vem eu colha os frutos. O cérebro do TDAH não, ele só reconhece recompensas imediatas. Semana que vem já um futuro distante. Imagine ano que vem. Precisamos da recompensa AGORA.
6) PRESTE ATENÇÃO - Somos desatentos porque queremos? Pelo amor de Deus, ninguém é desatento por opção, principalmente ao ponto da desatenção tornar-se um problema, um dano. A DESATENÇÃO É PARTE DO TRANSTORNO. Eu posso estar olhando pra você, reagindo ao seu diálogo e não estar mentalmente presente. Meu cérebro 'reserva' uma pequena parcela de atenção ao seu diálogo desinteressante ou desagradável, o restante, a grande maioria na verdade, pode estar em Nárnia, na Terra Média ou em Hogwarts. Ou simplesmente num diálogo mais interessante na mesa ao lado, ou numa música que toca ao longe, ou na TV ligada...
No dia seguinte aquele diálogo foi deletado de nossas mentes e se você se referir a ele, para nós será uma absoluta surpresa. 
7) DEIXE DE SER PREGUIÇOSO/PREGUIÇOSA - Obviamente que o que vou dizer vai parecer uma mera defesa da preguiça, mas não é preguiça, é inércia. Podemos ter preguiça de dar uma resposta e ter que continuar uma conversa. Mesmo que isso possa prejudicar nossa situação naquele diálogo. Podemos fingir que não lemos aquela mensagem por preguiça de ter que se explicar porque não quer sair, encontrar os amigos, beber... Podemos ficar quietinhos em casa e não atender à campainha insistente por preguiça de ver gente. Mesmo pessoas que gostamos. Podemos escolher não entrar na piscina de casa em um dia de forte calor, simplesmente por preguiça de trocar de roupa, andar alguns metros até a piscina e entrar na água fria. Podemos, e temos, ter preguiça para coisas e situações que nos beneficiem, que dê prazer, que nos dê lucro, simplesmente porque o que queremos é manter a inércia, manter aquele momento de... sei lá, tenho preguiça de pensar nisso.
8) SAIA MAIS CEDO, COLOQUE O DESPERTADOR... A noção de tempo é uma das maiores aberrações do cérebro TDAH. Trinta dias pra mim, é quase uma eternidade. E sempre sou surpreendido pela rapidez com que um mês chega diante de mim. Uma semana? Ixiiii, é muito tempo. Seis meses? Nem sei o que é isso...
Quantas vezes saí em direção a um compromisso com meia hora de antecedência sem considerar que o trânsito intenso daquele horário tornava a meia hora impossível de ser cumprida. Aí eu dirigia como um louco, fazendo ultrapassagens Irresponsáveis, xingando e brigando com todos as 'lesmas' que se arrastavam na minha frente.
Quantas vezes na infância ouvi minha mãe perguntar: Você não viu que estava escuro, que já tinha lua no céu? Não, não tinha percebido. Na verdade tinha, mas na minha cabeça haviam passado poucos minutos desde que ela surgiu. Talvez fossem seis e meia e não nove da noite.
9) VOCÊ SÓ SE LEMBRA DO QUE TE INTERESSA - Sim e não. Em geral essa frase é dita num tom de crítica a uma pessoa desonesta, que diz se lembrar apenas do que lhe interessa. Não é bem assim, o cérebro TDAH 'não ouve' o que não lhe interessa, o que não desperta sua atenção ou desejo. Não é proposital, é uma doença, um transtorno que nos impede de 'arquivar' parte do que ouvimos, falamos ou vivenciamos. Não é escolha.
10) VOCÊ É FRIO/FRIA, INDIFERENTE, SÓ SE IMPORTA COM VOCÊ. Sinceramente, não nos importamos nem com a gente mesmo. Se só nós importássemos com a gente não nos sabotaríamos tanto, não passaríamos por tantos empregos, por tantos relacionamentos, por tantos constrangimentos, por tantas perdas. Muitas vezes não respondemos porque não estamos presentes, embora nosso corpo esteja ali. Parecemos indiferentes porque passamos por cima dos detalhes, esquecemos as datas, perdemos a hora, erramos o caminho, repetimos os mesmos erros...
Claro, temos consciência de que não é fácil conviver com pessoas como nós. Claro que nada do que disse acima cura feridas abertas ou apaga falhas graves. As feridas continuarão doendo, as consequências das falhas ainda estarão presentes. Mas se você souber de antemão com quem está lidando poderá julgar de maneira mais isenta a personalidade do TDAH com quem convive.
TDAH não é falta de inteligência, não confunda, TDAH é um transtorno de execução. Sei o que fazer, como fazer, quando fazer, mas não consigo fazer a tempo, de maneira perfeita ou simplesmente me esqueço de fazer. 
Pode parecer um monte de coisas: irresponsabilidade, inconsequência, preguiça, desrespeito, indiferença...
Mas é TDAH. 

sábado, 22 de janeiro de 2022

O TDAH E A EXAUSTÃO DA PANDEMIA


Estamos entrando no terceiro ano de pandemia e a maioria de nós está cansado, esgotado de tanta tensão, tantas medidas de prevenção, tantas más notícias, enfim...
E nós, TDAHs, como estamos?
Minha mulher acha que passo incólume por tudo isso. Não é verdade. Talvez eu passe de maneira diferente, mas nunca incólume.
A exaustão mental que todos estamos sentindo faz parte da rotina diária do TDAH adulto. A tensão que vivemos para tentar evitar a próxima falha, o próximo esquecimento. O terror quase diário ao descobrirmos que erramos novamente, esquecemos novamente, seremos advertidos novamente, seremos demitidos novamente... Essa expectativa não nos abandona e, em grande parte dos TDAHs, toda essa história de vida ‘evolui’ para ansiedade crônica, pânico e afins. Vivemos aos sobressaltos. Ninguém imagina o que é ‘achar’ que errou ou esqueceu de algo importante para lembrar-se segundos depois que fez o que deveria. Uma descarga de adrenalina atravessa todo o corpo, uma sensação de pânico assalta a alma, um filme dos piores erros já cometidos passam num flash na mente seguido das possíveis consequências advindas dessa nova falha. De repente lembramos que sim, fizemos a tal tarefa, ou não nos esquecemos do que não deveríamos nos esquecer. Em geral, um leve sorriso de alívio surge no rosto. O corpo relaxa imediatamente e uma sensação de paz toma conta da alma. Mas por quanto tempo? Dias? Semanas? Meses? Doce ilusão... Podemos ter esse conflito interno várias vezes por dia. Diariamente é praticamente garantido. Somos programados pela cultura atual a sermos máquinas de produtividade infalíveis. Devemos ser perfeitos em todas as áreas: pessoal, profissional, afetiva... Existe uma propaganda do analgésico Advil cujo slogan eu odeio: para você fazer mais por mais tempo. Isso é insuportável. Ninguém deveria ser submetido a isso. Mas somos, e essa nova cultura do fazer mais por mais tempo nos desmascara, praticamente não temos tempo para apagar os rastros dos nossos erros. Ou de simplesmente consertá-los antes que sejam descobertos. Ou, no mínimo, conseguirmos boas desculpas para o enésimo esquecimento. Não há tempo. Tudo é em tempo real. Tudo é agora, on line e com dezenas, centenas de pessoas com acesso ao que deveríamos ter feito.
A exaustão da pandemia nos é familiar. É nossa companheira, nossa irmã siamesa. Carregamos o inimigo dentro de nós mesmos e o combatemos vinte e quatro horas por dia, sem descanso, sem pausa... Mesmo nas férias, nos fins de semana, quando o aspecto profissional descansa precisamos estar atentos ao lado pessoal, precisamos medir o que falamos aos nossos parceiros, precisamos parecer interessados nos assuntos alheios, interagir socialmente... Não há pausa quando tudo que se quer é que o mundo pare e nos deixe respirar, pensar e agir no nosso tempo, do nosso modo.
Conviver com a exaustão não é novidade para o TDAH, a novidade é que agora podemos externá-la sem medo de sermos apontados como fracos ou anormais. Não sei quanto tempo isso vai durar. A pandemia, que no início parecia que iria revelar o melhor lado do ser humano, está revelando o que há de pior na humanidade, quem pode explora os mais frágeis da forma mais despudorada imaginável. Não há solidariedade, empatia ou complacência. Como diz o ditado: farinha pouca, meu pirão primeiro.
Quem, como os TDAHs, vieram com menos armas, ou armas inaptas para essa batalha, que se dane. Viva às turras com suas próprias deficiências e fracassos. Por isso são tão importantes as políticas públicas afirmativas. As políticas públicas visam dar a todos senão as mesmas armas, dotar os mercados de regras que igualem o jogo. Mas isso é pedir demais do ser humano, que ao longo da história se notabilizou por explorar os fracos, legislar em causa própria e expoliar seus pares. 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O TDAH EM BUSCA DA PAZ



   
                                Do filme Blade Runner


Onde encontraremos a paz?
A paz descansa dentro de cada um de nós.
A que se rasgar o peito, rasgar a alma, prospectar o coração; ali encontraremos nossa paz.
"A vida é um rasgar-se e remendar-se"
Rasgamo-nos quando quebramos o silêncio necessário.
Rasgamo-nos quando atiramo-nos de abismos.
Rasgamo-nos quando explodimos sem motivo.
Rasgamo-nos quando esquecemos...
Rasgamo-nos quando trilhamos, de novo, o caminho errado.
Mas, quando conseguimos calar a palavra ferina; remendamo-nos. 
Quando namoramos com o abismo e damos um passo atrás, remendamo-nos.
Quando conseguimos divisar o outro através da cortina rubra de nossa ira, remendamo-nos.
Quando vislumbramos o caminho errado e retornamos, remendamo-nos.
Rasgar-se e remendar-se, duas faces do TDAH que a sensibilidade do genial Guimarães Rosa sintetizou nessa frase. 
Rasgamo-nos e remendamo-nos diariamente em nossa infinita busca da paz.
Que essa colcha de retalhos que criamos com nossos remendos, desenhe a face definitiva da paz interior que sonhamos e buscamos incessantemente.
Mas jamais nos esqueçamos; de nada vale procurar a paz nos outros o no mundo exterior. 
A paz somos nós.

Obs.: Inspirado no comentário de Emily Silva

terça-feira, 28 de setembro de 2021

TDAH, UMA BATALHA PARA A VIDA TODA...

O título desse post é uma frase que tirei de um comentário feito no blog pelo leitor Alam e define com perfeição o que é o TDAH.
Tenho 60 anos de idade e fui diagnosticado há dez anos. Quando soube que meus inexplicáveis comportamentos auto destrutivos tinham nome, sobrenome e tratamento, senti um enorme alívio. Imaginei que em alguns meses, ou na pior das hipóteses, uns poucos anos eu seria uma nova pessoa. 
Ai, ai, nada mais enganoso...
Dez anos depois, centenas, talvez milhares, de comprimidos de Ritalina, dezenas de comprimidos de Ritalina L.A. e pouco mais de uma centena de cápsulas de Venvanse, o que posso dizer é que me debato com os mesmos problemas de antes. Memória péssima, desatenção, impulsividade, procrastinação, dificuldade com regras...
Mas, afinal de contas, o que mudou?
Quase tudo.
Em primeiríssimo lugar: hoje eu tenho consciência de tudo. Se não ajo para minorar ou sanar completamente o problema é por culpa minha. Claro que me perdoo se tento e sou derrotado.
A consciência do diagnóstico e sua aceitação são libertadores, mas aumenta nossa responsabilidade. 
No que melhorei?
Procrastinação. Já não procrastino como antes, pelo menos em relação ao trabalho e coisas importantes. Me arrasto até a loja, me obrigo a fazer a tempo e a hora. Depois que quebra a inércia é fácil. O que fiz pra mudar? Me conscientizei de que se eu me forçar eu pego no tranco. E forço.
Variação de humor e ataques de fúria. Isso eu diminuí muito. Eu tinha crises súbitas de fúria que metia medo em quem estivesse ao redor. Algumas vezes estive à beira de fazer uma grande merda. Hoje me controlo muito mais. Essas crises graves são parte do passado. O que fiz? Comecei a me controlar quando percebia a crise chegando. Dizia pra mim mesmo: esse não é você, é o TDAH agindo em seu nome. Isso bastava para o ódio diminuir. Eu tinha momentos de um abatimento inexplicável. De repente uma tristeza profunda me abatia de tal forma que meus braços e pernas pareciam de chumbo. Isso acabou completamente. Quando as crises tentam me abordar eu penso:
Vade retro TDAH!!! Aqui não! Claro que isso só funciona se a crise não é provocada por motivos reais. Essa tristeza a que me refiro surge do nada, sem motivo ou explicação. Isso é do TDAH e, se não é meu, não preciso conviver com ele. 
Organização. Sou outra pessoa hoje em dia. Meu lado do guarda roupas é bastante organizado, as gavetas idem... Minha mesa de trabalho ainda não alcançou o ideal, mas quem me conheceu antes do diagnóstico jamais imaginaria esse nível de organização que atingi. Mudei convivendo com pessoas organizadas e percebendo que a vida é muito mais fácil e melhor quando somos organizados. Assim como a procrastinação, me obrigo a fazer e pronto.
Impulsividade. Digamos que foi um pequeno ganho. Muitas das vezes consigo controlar, mas nem sempre. Ainda ajo por impulso e pago por isso. 
Me lembro de participar de grupos de apoio aos portadores de TDAH em Juiz de Fora, organizados pela minha médica Dra Valéria Modesto, e uma das coisas que dizíamos é calarmo-nos por 5 segundos antes de falar ou fazer algo. Esses 5 míseros segundos nos impediria de fazer grandes besteiras. 
É isso. Funciona. O diabo é que muitas vezes nos lembramos depois de acontecido. Mas seguimos na batalha. 
Memória, desatenção e tempo, creio ser meus maiores problemas. Ainda não consegui nenhum suporte, ideia, ajuda ou sei lá o que seja, que realmente funcione. 
Os idiotas da objetividade dizem: Anota!!!! Meu Deus, como não pensei nisso? Que ideia magnífica! Só uma pergunta: quem vai me lembrar de anotar? Desatenção! No meio de algo sério e importante voo para a estratosfera. Pode ser o que for, aonde for, com quem for. De repente escapo. 
E perco muito com isso. Muito mesmo.
E o tempo? Ah o tempo... Nada mais mágico e inexplicável... Como aqueles trinta dias que me pareciam tão distantes chegaram em apenas um mês? Ontem parecia tão distante... Uma das únicas coisas que aprendi e que me ajudam é colocar o despertador do celular para tocar de hora em hora no período do trabalho. Isso é ótimo, se estou viajando na maionese e toca o alarme das dez horas caio na real e volto ao trabalho. 
De resto, o TDAH é uma batalha para a vida toda. E não é uma batalha diária, é uma batalha a cada minuto, a cada segundo, sem trégua. Parece muito? 
E é muito, mas se não fizermos nada, acumularemos derrotas em sequência para o TDAH. E ele sabe deixar suas marcas em nossas vidas. 

sábado, 19 de junho de 2021

O QUE SENTE UM TDAH : 1- INSATISFAÇÃO

No princípio tudo são flores. Amor intenso, emprego perfeito, a casa dos sonhos, o curso imaginado, o carro desejado...
Os dias passam, passam-se semanas, correm os meses... 
Um pequeno desconforto em relação aquela vida. Nada de importante, só superficial. Mas vai aumentando. Aos poucos aquele sorriso cativante passa a parecer um pouco cínico. O chefe que apoiava seu crescimento vira um pequeno ditador. A casa sonhada tem alguns defeitinhos inconvenientes. Curso chato, professores incompetentes. E o carro? Não era exatamente o imaginado, mas...
A vida vai ficando pesada, difícil, transforma-se numa adversária implacável. Cobranças e mais cobranças e pouquíssimo retorno. 
Acordar com aquela voz... Enfrentar aquele banheiro apertado... Um carrinho bem chinfrim... E passar o dia sob o jugo daquele ditadorzinho infeliz. Ainda bem que abandonou aquele curso inútil. Estudar para trabalhar naquela empresinha maldita? Com aquele déspota semianalfabeto?
Aquela sensação de arrependimento por ter se endividado por aquele apartamento mequetrefe. Ouvir os outros e comprar aquela versão mais simples do carro. E o casamento? Meu Deus, pra quê?
Não adianta trocar o carro, o apartamento, o emprego, a mulher, o curso...
A insatisfação é sua. É minha. É nossa. É do TDAH.
Não sabemos porque nem como age. Somente sentimos, somos por ela apossados. Das pequenas às grandes coisas e situações. 
Nem uma Ferrari, nem a Giselle Bundchen, nem uma castelo na França, nem o Brad Pitt... 
A insatisfação é um sintoma do nosso transtorno. E não é aquela insatisfação criadora que move o mundo. É uma insatisfação demolidora, nefasta que nos faz abandonar tudo, de qualquer jeito, a qualquer hora, sem medir ou analisar as consequências. A Ritalina não cura, o Venvanse não cura. Aliás, nada cura.
A solução parece idiota, mas funciona. 
Conheça-se e conheça a sua doença.
E pra que serve isso?
Conhecendo sua doença e a você mesmo, você passará a saber o que é da sua personalidade e o que é do TDAH.
Ao ser assaltado pela eterna insatisfação você a reconhecerá e terá força e discernimento para agir contra ela. Deixará de ser um passageiro da insatisfação para assumir a sua direção e impedir que ela cresça e tome conta de sua vida.
Não estou pregando a estagnação, a submissão a qualquer circunstância, mas sabedor de que essa insatisfação pode ser fruto do TDAH você terá condições de analisar o contexto e agir dentro da realidade objetiva. Não será mais movido por um sentimento confuso que te empurra em direção à mudanças contínuas e infrutíferas pois o novo só será novo e atraente por um curto espaço de tempo. 
Em breve um pequeno desconforto nascerá dentro de você...

sexta-feira, 16 de abril de 2021

O QUE SENTE UM TDAH...





Temos em nós todos os sonhos do mundo... Ao mesmo tempo... E isso muitas vezes nos paralisa. 
Mas em nossas bocas boia o amargo sabor do fracasso...
Não o perseguimos, mas não o rejeitamos. Em alguns momentos da vida
ele é quase sedutor, muitas vezes somos atraídos por ele. 
Tem o medo... Ahhh, o medo... O medo de sermos descobertos cedo demais...
Somos fraudes, somos falsários em vias de sermos descobertos...
A esperança... Quando o tempo passa e não descobriram a fraude que somos, brota a esperança de que, dessa vez, conseguiremos manter a fachada. E relaxamos...
Ao relaxarmos a fachada desmorona... E somos descobertos...
O desânimo... As vezes, com ou sem motivo aparente um desânimo acachapante desaba sobre nossas vidas... Os membros pesam, a cabeça fica nublada a visão acinzentada...
Então, subitamente como começou, o desânimo se esvai dando lugar a uma leveza, quase uma alegria...
Uma alegria que pode ser atravessada por uma prostração, uma inércia, uma quase paralisia... Uma prostração capaz de nos manter no sofá por horas, zapeando sem sentido e sem objetivo. Apenas para deixar o tempo passar. E empurramos o tempo, empurramos o
emprego, empurramos a vida. Apenas para não enfrentar aquele problema ou pessoa que será inevitável enfrentar... A ciência médica chama isso de procrastinação, vivenciamos como uma fuga da realidade...
Inferioridade... Nossa fiel companheira. Às vezes traveste-se de medo, noutras vezes explode em crises de raiva. Mas no fundo são manifestações desse sentimento que nos apossa desde
a mais tenra infância calcado nas críticas às contínuas falhas, nos comportamentos hiperativos ou aéreos... Somos inadequados, inferiores, fraudes ambulantes... 
E ainda existem médicos(?) que não acreditam em TDAH, pedagogos(?) que ignoram o TDAH. 
Pais que são enganados por esses falsos profissionais, ou simplesmente preferem ignorar 
que seus filhos, ou filhas, têm um transtorno mental. E deixam que todos esses sentimentos cresçam e se multipliquem ao ponto de quase amputar as chances profissionais e afetivas 
de seus filhos. 
Esse post ficaria muito grande se eu narrasse tudo o que me povoa a mente e a mente de todos os TDAHs. 
A solução?
Conheça-se e conheça o TDAH.
Siga este blog, todas as páginas sérias sobre o assunto, todos os canais sérios do YouTube, Instagram, Facebook... Viva o TDAH, pratique o TDAH, mas não se esconda sob o TDAH. 
Informar-se sobre o TDAH nos deixa mais atentos, mais alertas e portanto, mais aptos a corrigir nossos próprios rumos. Após este virão vários posts sobre cada sentimento separadamente.
Cuide-se. Procure um bom médico. Se possível, pague a consulta, sua vida vai ser mais feliz e produtiva. Vale o investimento. Tome remédio, faça terapia e informe-se. 
Faça até onde for possível lembrando-se  de que você é o principal beneficiário e em consequência todos os que estão à sua volta. 

quarta-feira, 31 de março de 2021

O TDAH E O REVERSO DO HIPERFOCO

Em dezembro de 2018 publiquei um post sobre a beleza de se observar uma TDAH trabalhando hiperfocada. 
Pois bem, a pandemia, a ganância e a obtusidade da elite brasileira usurparam o hiperfoco desta TDAH. Iniciou-se ali um processo que ainda não terminou, mas que desnudou toda a riqueza, complexidade e dificuldade que um portador - neste caso portadora - tem em libertar-se do hiperfoco.
Passada a perplexidade inicial, todos os sentimentos estão exacerbados nesse período de caos em que vivemos, esta portadora deparou-se com situações inusitadas em sua vida: eu sou alguém além daquele hiperfoco? Conseguirei desempenhar outra função em outro ramo de trabalho, em outra empresa, em outra realidade além do meu hiperfoco?
Assaltada pelo sentimento de inferioridade típico do TDAH e com as perspectivas reduzidas pela pandemia, o processo de renascimento parecia mais difícil e doloroso. E foi.
Todas as tentativas iniciais pareciam limitadas por aquela armadura de mais de uma década de hiperfoco. Qualquer dificuldade, qualquer pequeno revés típico dos iniciantes em qualquer área profissional era visto como incapacidade de viver fora daquele ambiente de hiperfoco. O que parece ser um benefício do TDAH se transforma em pesadelo e tortura quando se tem tolhido o direito de a ele se dedicar.
Mas TDAH que é TDAH não se entrega. Chora, sofre, se descabela, mas segue em frente. Muitas vezes parece inerte, mas borbulha freneticamente interiormente. Em meio à pendemia e à quarentena, essa TDAH começou a vislumbrar a verdadeira razão de seu hiperfoco: sua mente, sua inteligência, sua perspicácia, sua sensibilidade. Ainda que de uma maneira aparentemente tímida e titubeante essa portadora experimenta novos caminhos, se abre a novas experiências e todas se mostram frutíferas e bem sucedidas. Claro que os primeiros passos jamais são estrondosos, mas são sólidos e significativos. Descortina-se diante dessa TDAH a infinidade de possibilidades a que sua mente brilhante esta apta a exercer e, ao mesmo tempo, prova a ela que o hiperfoco de que tanto se orgulhava só era possível porque era ela. Centenas de outras pessoas antes e depois passaram pelos mesmos cargos, nenhuma delas com a mesma ascensão meteórica e o mesmo desempenho. Não é o hiperfoco que forma o TDAH, muito pelo contrário, o TDAH por suas características é que se hiperfoca naquilo que particularmente o interessa.
Ao se confrontar com sua capacidade de ser eficiente, eficaz e produtiva em qualquer área, nossa portadora descobriu que é muito maior que seu hiperfoco, pois se este gera produtividade, limita e restringe seu desempenho e suas possibilidades. Agora não, livre das amarras do hiperfoco ela está pronta para alçar voos jamais imaginados pela hiperfocada. Sem o hiperfoco ela está apta a experimentar novas facetas de seu TDAH: a criatividade, a infinita capacidade de se reinventar, de renascer e de reagir.
Os longos anos de hiperfoco toldaram-lhe a visão de um passado profissional rico e diverso e do qual ela mal se lembrava, assim como o futuro que se abre para uma mente brilhante e liberta.