segunda-feira, 21 de setembro de 2020

TDAH - NÃO IMPONHA UM FUTURO A SEUS FILHOS

Qualquer pai ou mãe que se preze sonha com um filho de sucesso.

Sucesso profissional, sucesso social, sucesso financeiro...

Mas poucos destes pais e mães se lembram de perguntar aos filhos se é este sucesso que ele, filho, deseja pra sua própria vida. Nada de novo, há dezenas de gerações os pais querem interferir no 'futuro' de seus filhos. Há dezenas de gerações um bom percentual de vidas é estragada pela prepotência e arrogância dos pais. Claro, tudo isto mudou. Mudou nada. Mudou a forma de agir dos pais; ficaram mais espertos, mais sutis. Nada é imposto. Desde os três anos os filhos estão nas aulas de balé, inglês, informática, futebol e outro sem números de tarefas que vão dirigindo a vida das crianças para onde querem os pais.

E aí o menino que começou o inglês super animado quer abandonar com dois meses de aula...

Como pode uma menina tão talentosa largar o balé com menos de seis meses...

_ O que esse menino vai ser sem falar inglês?, pergunta a mãe preocupada.

O pai, não menos preocupado, exige que a filha escolha um outro esporte. E a garota vai para a natação.

Parece até um peixinho... Três meses depois foge das aulas, finge doente, fala mal da professora...

E ninguém consegue convencer aquele menino a largar o violão e fazer algo de útil, que lhe dê futuro.

De experiências impostas em experiências impostas, os pais e os filhos se estressam, gastam dinheiro, brigam e nada vai pra frente. 

Empurrados entram na faculdade que não queriam e se arrastam (quando conseguem) até a formatura. Uma formatura de que só se lembrarão da festa de arromba e da bebedeira lendária. A partir daí um novo martírio começa: ele um advogado que perde as datas de audiências e recursos, que viaja mentalmente em meio às audiências a que consegue comparecer. Ela, uma administradora de sucesso, implacável, eficiente, que aos 40 anos terá, além do TDAH, depressão e síndrome do pânico.

Ele, ajudado pelo sobrenome de seu pai, um grande advogado, arrasta-se pela vida perdendo clientes e casos, e ninguém entende como um cara tão inteligente não consegue deslanchar na vida.

Nas horas vagas ele toca seu violão e sua guitarra, sonhando com a vida que poderia ter levado.

Ela, aos finais de semana, tenta se reconectar ao seu eu interior, pensando na terapeuta holística que não conseguiu ter coragem de exercer.

O TDAH é isto, um mundo de possibilidades que não conseguimos exercer. Opções que nos dão tesão, mas não dão dinheiro, não dão sucesso, não dão satisfação aos pais. Hoje, prestes a chegar aos sessenta, grito aos pais: não façam isso com seus filhos! Deixe-os exercer o que amam, o que lhes desperta o hiperfoco. Ainda que isto seja fazer bijuteria na praia. Se não for o que realmente ama, ele vai abandonar em poucos meses...

Arrastar o TDAH ao longo de uma vida que não se escolheu é infernal, torturante e contraproducente. Desde a quinta série História é a matéria que mais amo. Meu pai tinha uma coleção de livros chamada Biblioteca Life; a série dedicada a História da Humanidade era minha paixão; passava horas lendo e relendo a saga do ser humano desde a era pré histórica até os dias mais próximos. Ali aprendi a amar a Grécia e Roma. Apaixonei-me perdidamente por Florença. Ainda hei de conhecê-la antes da morte. Estava certo de que seria um professor de História. Não consegui enfrentar as críticas à minha escolha e, por vários motivos acabei indo cursar Direito. Arrastei-me por infindáveis anos em duas faculdades para abandonar definitivamente ao fim do sexto período. Já casado, pai de família, tentei cursar Filosofia. Não consegui; questões pessoais e financeiras me impediram.

Tudo o que fiz a partir daí foi de má vontade ou sem vontade. Uma indiferença que jamais me permitiu alcançar todo o potencial que tenho. Claro que mesmo como professor de História eu teria de derrotar o TDAH diariamente. Mas o amor pela matéria me levaria a ser muito melhor profissionalmente do que consegui ser até hoje. Ontem ou antes de ontem me apareceu no Instagram um curso de História à distância. Confesso que me abalou. Mas quem contrataria um professor recém formado com quase 65 anos?

Será que o sucesso não é atingir aquilo que se deseja, se sonha, se ama?

Enriquecer é algo para um ou dois porcento da população. O resto é batalha diária, dura e difícil. Por isso afirmo com a mais absoluta certeza: não obrigue seu filho a ser infeliz! Não contribua conscientemente com a frustração de quem você ama. Aceite que os objetivos de seus filhos podem não ser os mesmos dos seus.

Deixe-os escolher os caminhos que amam...


domingo, 13 de setembro de 2020

O TDAH E O MEDO DO FRACASSO


 Está tudo certo, é o mesmo trabalho que é feito há dois anos e o chefe faz uma pergunta corriqueira sobre o trabalho: os lançamentos estão em dia ? Ou : Você encaminhou aquele e-mail ?

Nesse instante bate uma dúvida... Os batimentos aceleram, as borboletas se agitam no estômago e vem a resposta : Sim. Mas um sim sem convicção. Um sim que traz em seu bojo o medo de haver erros, um medo de faltar lançamentos, de o tal e-mail ter tido uma resposta que não foi percebida...

E assim , segue a vida.

Uma vida povoada de dúvidas ,de incertezas, de desconfiança em relação a nós mesmos .

Fiz mesmo?

E o pior, o contrário também é possível. Há muito tempo não retruco mais quando me dizem que fiz ou disse determinada coisa que não me lembro. Centenas de vezes eu  briguei e discuti alegando que estavam colocando palavras na minha boca, que eu jamais disse  aquilo. E havia dito. Ou feito. Depois que me descobri TDAH parei de discutir sobre isso. Claro que a princípio eu nego, mas se a pessoa começa a dar detalhes da conversa eu logo desisto.

Todos esses episódios povoam nosso dia a dia, nos transformando em pessoas inseguras, aprofundando ainda mais nosso sentimento de inferioridade.

Já disse isso num post antigo, no momento em que ergui as portas de aço da minha primeira loja de tintas eu pensei: quanto tempo isso vai durar? Foi algo tão negativamente forte que eu jamais me esqueci.

Eu sabia que iria fracassar. 

Imagine conviver com esse tipo de sentimento. E isso não é um sentimento ocasional, faz parte da nossa personalidade, faz parte do nosso acervo de cicatrizes. Desde a infância ouvimos críticas por não completarmos o que começamos, ou os elogios vêm acompanhados de um 'mas... ' Ele é um bom aluno, mas não para quieto. Ele é um garoto esforçado, mas não para de falar um segundo. Ele é bom aluno, mas os cadernos dele são muito bagunçados.

Assim vai se construindo a personalidade do TDAH. As conquistas sempre virão acompanhadas de um 'mas...'

Temos sim medo do fracasso. Muitas vezes superamos o temor e conseguimos vencer os desafios. Mas nosso maior sucesso é a sobrevivência. E até a isso devemos ao TDAH. A infinita capacidade de renascer vem de uma certa falta de noção da realidade. Temos quedas épicas, repletas de testemunhas, mas seguimos adiante aparentemente incólumes. E na maioria das vezes, saímos incólumes mesmo. E não é por mérito ou falta de caráter ou de sensibilidade, mas por um apagamento das sensações experimentadas por aquele revés. O mesmo apagamento responsável pela repetição dos erros anteriores. Como se não aprendêssemos com os erros. E não aprendemos mesmo. Exatamente porque o erro não nos marcou  ou marcou momentaneamente. Ao nos defrontarmos com uma situação semelhante àquela já vivenciada, não a reconhecemos e agimos exatamente igual agimos anteriormente. E somos punidos por algo que sequer lembramos, ou não temos consciência de haver errado. 

Muitos a esta altura dirão: mas então é melhor identificar-se portador de TDAH desde o princípio. AO que responderei com uma pergunta: Que princípio? Identifique-se TDAH numa entrevista de emprego e fatalmente será descartado. Objetivamente falando, ninguém vai contratar uma pessoa com dificuldade de manter a atenção, o foco, desorganizada, sujeita a ataques de fúria, impulsiva... Li recentemente que empresas do mercado financeiro estão procurando autistas para trabalharem com os complexos cálculos que a função exige; o autista é hiperfocado, tem uma memória absurda e, em grande parte, não é muito sociável, o que durante o expediente é ponto positivo. Então, se declarar TDAH é fora de questão.

O Dr Russel Barkley afirma que o mais eficaz é adaptar o ambiente de trabalho/estudo em que o TDAH exerce sua função. Sem se declarar TDAH, é importante que criemos rotinas e processos que devemos seguir rigidamente para evitar erros. Planilhas, post-it, agenda física ou de celular, todas são ferramentas importantes e úteis para diminuir o estresse de responder ao chefe as coisas mais banais e corriqueiras.

Mas para eliminar o medo do fracasso é preciso muita terapia, muito tratamento e muita mudança de vida. Para nós adultos é ainda mais complexo, ao longo da vida criamos instintivamente estratégias de sobrevivência que, na verdade, perpetuam os erros ou os agrava. mas que são extremamente difíceis de se livrar. Algo como pisar torto para evitar uma dor crônica na parte interna do pé, por exemplo. Ao longo dos anos você pode criar um desvio da coluna ou do quadril com piores consequências do que a dor que tentou evitar. 

Claro que não é impossível, mas também não é fácil. Exige muita disciplina, atenção, auto conhecimento e conhecimento da doença. Características que não nos são muito presentes, mas que nossa infinita capacidade de renascimento acaba por nos propiciar aprender e adquirir.


sábado, 5 de setembro de 2020

TDAH: SONHO e REALIDADE






Ganhar na mega sena.
Ser sorteado no bingo.
Encontrar um velho conhecido na rua procurando alguém exatamente com o seu perfil para contratar para um excelente emprego.
O acidente que o deixa quase à morte e leva as pessoas da família a o valorizarem e reconhecerem os próprios julgamentos a seu respeito.
O amor imortal que não se cansa, não se desgasta, não fenece.
O reconhecimento, ainda que tardio, da Academia Brasileira de Letras.
Um olheiro anônimo de uma grande gravadora que descobre seu desconhecido talento musical.
Ou simplesmente um fato que, inesperadamente, resolva os maiores problemas que enfrenta.
Não! Isso é fruto da inadaptação do TDAH ao mundo atual. Ou ao mundo de sempre. Se o sonho existe, é para ser sonhado. Todos sonhamos. Uns o sufocam em prol da realidade. Outros o alimentam e se descolam da realidade. O TDAH não o controla. Uma torrente de pensamentos assola nossa mente. Sonho e realidade se alternam e se misturam. Se sobrepõem e se substituem. Se completam e se destroem. No mesmo segundo, no mesmo assunto, no mesmo fato, nossa mente é capaz de forjar teorias concretas e factíveis que serão imediatamente sobrepostas por um desejo irracional de que a situação seja resolvida num passe de mágica.
Na era da informação e da racionalidade, o TDAH poderia ser representado por aquele que ainda acredita que dar três pulinhos e pedir a São Longuinho ajuda a encontrar um objeto perdido. No nosso caso que tudo perdemos, de três em três pulinhos acabaríamos dando a volta ao mundo ao fim de uma semana...
E quando a realidade começa a ser muito dura, damos asas a essa imaginação. Deixamo-la dominar nosso dia a dia. Basta que saiamos do foco, que nossa cabeça se descole da utilidade e um pensamento irreal toma seu lugar. Quantos de nós já perdeu o ponto de descer do ônibus... Quantas vezes chegamos dirigindo a um destino sem nos recordarmos do caminho percorrido... Quantas discussões poderiam ter sido evitadas se ouvíssemos o que diziam em lugar de estar viajando em outra estratosfera...
Antes que chovam as críticas, muitas pessoas passam por situações parecidas e não são TDAHs. A diferença é que no TDAH isso é rotineiro, é constante, se repete inúmeras vezes. TDAH é incontrolável! TDAH é inconsciente! TDAH é prejudicial! Isso diferencia o TDAH dos 'trouxas', como se dizia no Harry Potter.
Lembro-me, no começo do tratamento, de chegar ao fim do dia tendo resolvido e lembrado de várias coisas de pensar exatamente assim: Então é assim que as pessoas que se lembram agem... Era para mim uma novidade. E ainda é surpreendente.
TDAH não é sonhador por escolha. Sonha acordado porque tem imensa dificuldade de agir sob as pressões cotidianas; porque teme não saber resolver o que se apresenta; porque sonhar é um alento; porque é portador de TDAH.
E então, casa-se com um (uma) racionalista empedernido. Ahhhh, que maravilha de vida! Um cônjuge que tudo resolve, tudo soluciona, é tudo - e sempre - praticidade. E os choques começam; porque começam em qualquer relacionamento. E o jeito sonhador, romântico, aéreo, engraçado, dos tempos de namor, começam a irritar na vida prática. O esquecimento folclórico de antes vira proposital.
_ E essa mania insuportável que você tem de acreditar em histórias da carochinha já me encheram o saco!
Novas promessas e tentativas de ancoragem na realidade; remédios, terapias; tentativas... Ou então novos relacionamentos, novos sonhos, novas tentativas de viver no mundo da lua, a dois. As intermináveis tentativas...
A vida pede concretude, e pune os sonhadores.
Por isso rechaço quem afirma que a criatividade ou essa capacidade de sonhar do TDAH é benéfica. Não é, na medida em que esses atributos não são domáveis e não são concretizados. Nada mais são do que uma infindável cachoeira de imagens que se sucedem sem controle e sem fim.
E muitas vezes, essa tal cachoeira nos afoga...



domingo, 31 de maio de 2020

TDAH, ENFRENTE-SE OU NÃO MUDARÁ JAMAIS!






Onde quer que se reúnam mais de dois TDAHs
o tema é sempre o mesmo: os erros recorrentes,
as falhas intermináveis...
Indefectível também o tom lamuriento, como um refém absolutamente à mercê de seu carrasco. Nos grupos de TDAH das redes sociais é comum alguém postar possuir um dos sintomas do transtorno e receber de volta dezenas, centenas de comentários no mesmo tom de lamúria e desânimo.
Confesso que perdi um pouco o interesse por esses grupos, até mesmo pelo TDAH, doença incurável que é.
Cansei de me bater contra uma Rocha intransponível, um monólito do mais puro granito que eu sequer consegui infligir um sofrimento, uma dor. Pedra não sofre, pedra não sente dor. Assim como o TDAH. O TDAH não existe.
TDAH é uma sigla. Nada mais. Passamos a tratá-lo com se existisse; como uma entidade, quase como um amigo. E tentamos enfrentar o TDAH.
E perdemos. Perdemos como perdeu Dom Quixote ao se defrontar com os moinhos de vento.
Estamos enfrentando o inimigo errado!
O TDAH não existe!
TDAH é uma sigla criada por médicos para definir comportamentos que se repetem em um determinado grupo de seres humanos; eu,você, ele, ela...
Precisamos mudar de foco. Precisamos nos concentrar no verdadeiro inimigo: nós mesmos. Precisamos enfrentar todos os comportamentos que nos são prejudiciais, nos fazem sofrer,
nos ridicularizam. Não temos graça, somos risíveis. E isso não tema menor graça.
A maioria dirá: se fosse fácil ninguém teria TDAH. E tem razão.
Enfrentarmos a nós mesmos é dificílimo. Mas muito mais difícil é viver à mercê dos sintomas do TDAH. Essa vida mal vivida, essa vida farsesca, quase burlesca.
O fundamental é prestar atenção a si mesmo: está diante de um problema? Pense nos caminhos a seguir e compare-os aos sintomas do TDAH, se sua escolha fizer parte dos sintomas
do TDAH, abandone-a. Se em meio a uma discussão banal você for tomado de um ódio súbito e inexplicável, lembre-se de que
isso é o TDAH. Abandone a discussão ou o ambiente, respire, beba água, vá ao banheiro, mas não perca o foco de que toda essa raiva súbita é do transtorno, não sua. Se seu dia caminha
dentro da normalidade e do nada surge uma tristeza profunda, um desânimo enorme que pesa os músculos e derrota a alma, pare e reflita sobre o que te deixou nesse estado; se foi fruto de um
erro bobo no trabalho ou estudo, ou mesmo se surgiu sem nenhum gatilho específico está na hora de agir. Assim como os outros exemplos você está sofrendo de um sintoma típico
do TDAH; combata-o. Lembre-se de que está sob um sentimento artificial, desproporcional. E como num milagre sua tristeza se dissipará.
Tudo isso parece idiota, mas funciona. Eu era assaltado por esses ataques de fúria, quase não os tenho hoje em dia. Os episódios de tristeza paralisante também desapareceram.
Claro, as decisões, as escolhas, são mais complicadas pois muitas das vezes definem o futuro. Mas as tomo com muito mais confiança e tranquilidade. Mesmo que não tenha o resultado esperado tenho a tranquilidade de saber
que agi da maneira mais correta possível.
Muitas vezes cedi à tentação de optar pelo caminho apontadop elo TDAH; o que parecia impulsividade, o que parecia procrastinação, o que parecia a opção do imediato em troca
do benefício futuro. Mas quando cedi ao TDAH cedi com consciência, cedi por acreditar estar fazendo o que queria, e não tenho mais desculpa ou direito de responsabilizar oTDAH.
Pode parecer pesado, mas é libertador.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

ROMPENDO A CADEIA DO TDAH





Dia deste me submeti a uma terapia chamada TETHAHEALING, uma terapia energética em que a terapeuta entra num nível de meditação chamado de tetha e nós, pacientes, entramos também em consequência. Através de um diálogo que vai se aprofundando à medida que a terapia vai avançando o paciente vai tendo insights sobre aquilo que o incomoda ou atrapalha, e que o levou até ali.
Confesso que sempre fui muito cético em relação a estas terapias alternativas, mesmo aquelas praticadas por psicólogos, mas em algum momento da vida nos encontramos em uma encruzilhada e temos que tomar um caminho diferente do habitual.
Não sei se entrei em tetha ou se aquilo é conversa pra boi dormir, mas o que sei é que entrei em busca de uma ajuda para minha auto sabotagem que andava em alta e uma frase não me saía da cabeça:
                     
                            SERÁ QUE ME APRISIONEI NO CONCEITO DE TDAH?

Esta constatação me trouxe ao mesmo tempo alívio e apreensão.
Alívio porque me pareceu uma sacada inteligente e pertinente.
Apreensão porque terei que mudar meu pensamento dos últimos dez anos.
Uma semana após esta constatação posso dizer que nem uma coisa nem outra; encontrei sim um novo caminho, ou melhor, uma nova forma de enxergar e conviver com o TDAH.
Ao longo destes quase dez anos de diagnóstico conquistei muitas vitórias sobre o TDAH, mas ao mesmo tempo, e sem perceber, deixei-me aprisionar por alguns de seus conceitos básicos e mais evidentes em minha personalidade: DESATENÇÃO, ESQUECIMENTO E AUTO SABOTAGEM.
Resultado: mesmo com Ritalina eu caí nas mesmas armadilhas, afinal eu tinha que cumprir meu papel de TDAH. A melhor forma de derrotar a Ritalina é esquecer-se de tomá-la. Repeti ao longo de algum tempo esta 'estratégia', comprar a Ritalina, tomá-la regularmente até que abria a última caixa, a partir daí eu começava a 'economizar' o remédio. Em lugar de dois comprimidos por dia, apenas um. Ao entrar na última cartela, dia sim, dia não. Depois, semanas sem o remédio até que uma grande besteira me lembrasse de que estava sem medicamento.
E tome desatenção; e tome esquecimento; um primor de auto sabotagem.
Nesta Tethahealing me dei conta disto.
Não decepcionar ao meu TDAH e a mim mesmo, preciso cumprir meu papel. Manter-me dentro do padrão do transtorno.
Percebi o quão inteligente é nossa mente para burlar a ela mesma.
Saí da terapia imbuído de que tenho que romper esta cadeia a que me impus deliberadamente.
Já escrevi aqui, há muitos anos, que o TDAH não me define; mas permiti que ele me definisse.
Acordei novamente. Tive uma semana muito melhor, mais produtiva e atenta.
Como em tudo no TDAH, é um exercício diário de combate ao dogma do transtorno.
TDAH não tem cura, mas não é indomável. O TDAH é esperto, mas eu sou mais. Não me posso permitir me entregar docilmente a ele.
O TDAH não vai me derrubar.
Venho exercitando diariamente uma espécie de reprogramação mental que criei. Nenhuma novidade, nada de sensacional; apenas digo a mim mesmo que sou focado, atento e capaz.
Não sei se meu cérebro acredita nisto ou se isto o mantém alerta, o que sei é que tem funcionado.
Parei de participar daquelas discussões facebookianas do tipo: EU SOU ASSIM, QUEM É IGUAL?
Não vou cair na esparrela de achar que o TDAH não existe, sou sua maior vítima, mas não posso usá-lo como uma armadura.
Sou maior e melhor do que o meu TDAH !
Ao infinito e além!!!!

sábado, 16 de fevereiro de 2019

O TDAH EM BUSCA DA TRAGÉDIA






Nada mais fascinante para um TDAH do que um abismo. Quanto mais negro e mais profundo, mais sedutor. Se seu fundo for formado por rochas pontiagudas, aí sim, fica perfeito! 
A velha vontade de sentir a adrenalina inundando o cérebro. A qualquer custo, a qualquer preço. Mesmo sabendo que seu corpo se despedaçará, a emoção da queda é quase irresistível. Ademais, quantos abismos um TDAH adulto já experimentou? Quantas vezes  cada um de nós já reuniu seus próprios despojos, reuniu-os como num enorme quebra cabeças, e retomou a vida com a sensação de saciedade digna de um pós banquete. As horrendas cicatrizes dão a falsa sensação de que jamais semelhante loucura se repetirá. Ledo engano! As cicatrizes se suavizam, as dores desaparecem e um estranho sentimento de imortalidade emocional começa a se formar na confusa mente TDAH. Esse sentimento somado ao fastio provocado por uma vida normal e tranquila fazem com que, de tempos em tempos, o TDAH comece a sentir uma certa nostalgia do abismo. A dor e o sofrimento da queda são superados pelo imenso prazer do salto. Um gigantesco mergulho na adrenalina.  
Pouco importa se nesse salto algumas pessoas que estavam ligadas ao TDAH tenham caído juntas. Pouco importa se a queda dessas pessoas tenha sido mais grave ou dolorosa. Pouco importa se ao reunir seus despojos, essas pessoas não consigam se reunir completamente; e sigam incompletas e despedaçadas pelo resto da vida. 
O que importa é sentir toda aquela sensação novamente... 
E vivemos à mercê dessa necessidade recorrente?  
Não. Não precisamos viver. 
Precisamos sim estar atentos aos sinais que o TDAH emite. São repetitivos e reconhecíveis.  
Começam com a desqualificação da pessoa ou daquilo que proporciona a tranquilidade. Os defeitos e falhas são supervalorizados, enquanto as qualidades se transformam em incômodos e chateações. Um novo objetivo surge na vida, e esse sim, é perfeito. Em poucos dias o novo alvo assume o controle da mente e da vida do TDAH. E ele mergulha profundamente nessa nova vida. Agora sim, a vida perfeita! A vida sonhada e desejada. Abismos nunca mais... 
Até que um dia o novo e sonhado emprego fica velho e cansativo, sem desafios. Aquele sorriso que tanto cativara agora parece um esgar irônico e debochado. 
O vento frio do abismo se torna, de novo, sedutor.  


domingo, 23 de dezembro de 2018

TDAH; VOCÊ SE SENTE UMA FRAUDE?






Trabalho ao lado de uma pessoa brilhante. Sem nenhuma formação específica essa moça coordena toda a complexa linha de produção da empresa. Toma decisões de maneira rápida, segura e acertada que me enchem de admiração e inveja.
Seu conhecimento e capacidade são respeitados por todos os funcionários, alguns muito mais velhos, ou mais antigos de casa.
A algum tempo venho suspeitando de que ela seja portadora de TDAH. Sua vida pessoal louca e caótica, baseada sempre em atitudes impulsivas e inconsequentes, abuso de bebida, inquietação mental e física, a necessidade de expor-se e chocar as pessoas. Caos que só foi controlar-se após a gravidez de risco e a maternidade.
 Essa semana ela disse a frase que mais caracteriza um TDAH. Ao vê-la atender uma nova cliente potencial, com a desenvoltura e confiança costumeiras, não resisti à tentação de elogiá-la; sua resposta foi sintomática : " quando estou atendendo um cliente sempre penso que estou representando um papel.  SEMPRE ME SINTO UMA FRAUDE. "
Poucos sentimentos são tão fortes e representativos do TDAH quanto esse; por mais que o portador tenha noção de sua capacidade, e ela tem, ele não acredita nela. Todos os erros cometidos ao longo da vida deixam a sensação de que vai errar de novo e será descoberto, será desmascarado; sua verdadeira essência de incapaz será desnudada. Junte a esse sentimento de inferioridade outro sintoma  basilar do TDAH, a auto sabotagem, e teremos uma tragédia anunciada: um erro grave por negligência, irresponsabilidade ou inconsequência que, enfim, irá desmascarar o TDAH restituindo-o ao limbo que ele merece.
Felizmente não é o caso de minha companheira de trabalho, ela encontrou no trabalho seu hiperfoco, e ninguém supera um TDAH hiperfocado. Nem a carga de trabalho, nem a quantidade de trabalho, muito menos desafios; este sim, o verdadeiro combustível de um TDAH. Somos movidos por desafios, por superações, por transpor obstáculos; e quando eles não existem, nós os criamos. Em geral com funestas consequências.
Mas trabalhar ao lado de uma TDAH hiperfocada é mais que um prazer, é um privilégio. Fico  com a certeza de que, uma vez encontrado o hiperfoco, o que nos motiva, ninguém nos supera.
Obrigado por essa chance de vê-la em ação de maneira tão firme quanto brilhante, sem perder o humor ácido e o sorriso fácil.
Mais TDAH, impossível!