DISTOPIA TDAH: UM MUNDO NEURODIVERGENTE.


                                   
Escritório colorido e desorganizado com pessoas conversando, destacando um único funcionário de terno em uma mesa cinza e austera, parecendo deslocado.






O Ciclo da Incerteza Diária


​Cai a noite e, com ela, a expectativa de se haveria ou não energia elétrica naquela noite. O dia havia transcorrido normalmente, mas a troca de turno sempre gerava tensão: alguém esquecia de algum procedimento, parte da turma chegava atrasada... enfim, sempre pode surgir um contratempo. Não naquela noite; o horário de turno passou em absoluta normalidade.

A Fúria Impulsiva 

​Saí para ir à padaria, mas me deparei com ela fechada. Os funcionários saíam em silêncio, alguns cabisbaixos, outros com semblante tranquilo. Seu Antenor, num momento de raiva, fechou a padaria e demitiu todos os funcionários. Não era a primeira vez que fazia isso, mas era a primeira depois de começar a tomar o Venvanse. Por isso o semblante preocupado e entristecido de parte dos funcionários demitidos. A maioria sabia que, na manhã seguinte, tudo estaria normal. O pessoal da madrugada viria como se nada tivesse acontecido e seu Antenor agiria da mesma forma.
​O Esquecimento como Estilo de Vida
​Caminhei mais algumas quadras em busca da padaria da Fátima, que funcionava normalmente. Pão comprado, leite comprado, manteiga comprada. Estou saindo da padaria quando minha mulher me manda mensagem: "Consulte a lista!!!!!". Sorri com a certeza de que não esqueci nada. E volto para o interior da padaria: faltou açúcar e pó de café.
​Na saída, encontro-me com minha amiga Wanda! Ahhhh, quanto tempo não nos vemos. Abraços, beijos, algumas palavras básicas: como estão as coisas? Novidades? Os filhos e netos? O que anda fazendo? Meu telefone toca, minha mulher: "Amor, tem mais de uma hora que você saiu para comprar pão, estamos te esperando!". Meu Deus, quanto tempo estou conversando com minha amiga! Me despeço e vou quase correndo para casa.

​A Dinâmica de uma Família Neurodivergente

​Caímos na risada em casa. Minha mulher havia me recomendado: "Não pare para conversar". Essa recomendação eu me esqueci. Era sempre assim. Nos sentamos para lanchar e a luz apagou. Minha esposa corre para acender as velas, mas a luz volta antes. Mesmo assim, melhor as velas ficarem por perto.
​Nosso filho comenta, ao final do lanche, que tinha esquecido de um trabalho de História para entregar na primeira aula da manhã seguinte. Falsamente brava e irritada, minha esposa senta com ele para garantir que o tal trabalho ficasse pronto a tempo e a contento. Todos fizemos isso a vida inteira.
​A correria matinal rotineira estava mais elétrica naquela manhã; a esposa esqueceu-se dos remédios da noite e acordou uma pilha de nervos. Nos calamos para evitar choques desnecessários. As crianças vão para a porta esperar pela van, que jamais passa no horário, enquanto me troco para ir trabalhar. Ouço o barulho do carro de minha mulher saindo e um doce silêncio toma conta da casa. Sento-me na poltrona do quarto e acordo com meu celular tocando furiosamente. Era da empresa: "Onde você está, meu amigo?", pergunta o patrão. "Meu Deus, seu Augusto, cochilei". A estrondosa gargalhada do seu Augusto acabou de me despertar. Já estava pronto, apenas sentei por um minuto para curtir a paz da manhã e dormi por meia hora.

O Conflito com o "Neurotípico"

​Fui direto para a sala do seu Augusto; tínhamos uma reunião importante de avaliação do novo funcionário.
​— Preciso que você tenha uma conversa séria com ele. Você o indicou e me garantiu que daria certo. — Engoli em seco. — O pessoal do setor está reclamando muito dele. Fica apressando as pessoas, critica os esquecimentos, quer tudo na hora...
​— Não é possível, eu recomendei tanto a ele...
​— Mas parece que ele não te ouviu — retrucou o patrão. — É o terceiro neurotípico que contratamos e está caminhando exatamente como os outros: apressadinho, intolerante aos adiamentos, quer tudo para ontem...
​— Deixa comigo, seu Augusto, se ele não entrar nos eixos eu mesmo o dispenso.
​— Ótimo, mas não vai ficar enrolando igual da outra vez.
​— Imagina, seu Augusto, não vou repetir o mesmo erro.
​A gargalhada do chefe ecoou na empresa inteira. — Essa foi ótima, meu amigo, como se algum de nós pudesse dizer isso. — Rimos juntos e eu saí.

​Um Mundo de Sonhadores

​Bem, tenho sob minha responsabilidade um funcionário neurotípico que age como um neurotípico. Isso é intolerável. A gente quer ajudar, dar uma força, mas a pessoa não consegue se adaptar.
​Vivemos num mundo TDAH! Um mundo de desmemoriados, procrastinadores, impulsivos e sonhadores. Foi tão difícil chegar até aqui! Não será um neurotípico qualquer que vai por em risco tudo o que conquistamos. Se precisar, demito-o imediatamente. Tá quase na hora do almoço. Quando eu voltar, eu converso com ele...






​Leia Também

O Diagnóstico Tardio: Como entender o TDAH na vida adulta.

​Mitos sobre a Ritalina: O que é real e o que é ficção no tratamento.

​Neurodiversidade no Trabalho: Os riscos de revelar o diagnóstico na empresa. 

Para compreender a importância do diagnóstico e do suporte adequado para quem convive com o transtorno, acesse o portal da ABDA: Associação Brasileira do Déficit de Atenção 


​FAQ - Perguntas Frequentes
​1. O que é o conceito de "Distopia TDAH" no texto?
É uma inversão satírica onde as características do TDAH (procrastinação, esquecimento, impulsividade) formam a cultura dominante da sociedade.
​2. O que o termo "neurotípico" significa nesta crônica?
No texto, é usado para descrever pessoas que não possuem TDAH, sendo retratadas como impacientes e rígidas demais para aquele ambiente.
​3. Qual a crítica central do texto?
O texto questiona a rigidez do mundo corporativo tradicional ao inverter os papéis e mostrar o estranhamento de quem tenta ser "perfeito" em um mundo fluido.

























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