domingo, 13 de setembro de 2020

O TDAH E O MEDO DO FRACASSO


 Está tudo certo, é o mesmo trabalho que é feito há dois anos e o chefe faz uma pergunta corriqueira sobre o trabalho: os lançamentos estão em dia ? Ou : Você encaminhou aquele e-mail ?

Nesse instante bate uma dúvida... Os batimentos aceleram, as borboletas se agitam no estômago e vem a resposta : Sim. Mas um sim sem convicção. Um sim que traz em seu bojo o medo de haver erros, um medo de faltar lançamentos, de o tal e-mail ter tido uma resposta que não foi percebida...

E assim , segue a vida.

Uma vida povoada de dúvidas ,de incertezas, de desconfiança em relação a nós mesmos .

Fiz mesmo?

E o pior, o contrário também é possível. Há muito tempo não retruco mais quando me dizem que fiz ou disse determinada coisa que não me lembro. Centenas de vezes eu  briguei e discuti alegando que estavam colocando palavras na minha boca, que eu jamais disse  aquilo. E havia dito. Ou feito. Depois que me descobri TDAH parei de discutir sobre isso. Claro que a princípio eu nego, mas se a pessoa começa a dar detalhes da conversa eu logo desisto.

Todos esses episódios povoam nosso dia a dia, nos transformando em pessoas inseguras, aprofundando ainda mais nosso sentimento de inferioridade.

Já disse isso num post antigo, no momento em que ergui as portas de aço da minha primeira loja de tintas eu pensei: quanto tempo isso vai durar? Foi algo tão negativamente forte que eu jamais me esqueci.

Eu sabia que iria fracassar. 

Imagine conviver com esse tipo de sentimento. E isso não é um sentimento ocasional, faz parte da nossa personalidade, faz parte do nosso acervo de cicatrizes. Desde a infância ouvimos críticas por não completarmos o que começamos, ou os elogios vêm acompanhados de um 'mas... ' Ele é um bom aluno, mas não para quieto. Ele é um garoto esforçado, mas não para de falar um segundo. Ele é bom aluno, mas os cadernos dele são muito bagunçados.

Assim vai se construindo a personalidade do TDAH. As conquistas sempre virão acompanhadas de um 'mas...'

Temos sim medo do fracasso. Muitas vezes superamos o temor e conseguimos vencer os desafios. Mas nosso maior sucesso é a sobrevivência. E até a isso devemos ao TDAH. A infinita capacidade de renascer vem de uma certa falta de noção da realidade. Temos quedas épicas, repletas de testemunhas, mas seguimos adiante aparentemente incólumes. E na maioria das vezes, saímos incólumes mesmo. E não é por mérito ou falta de caráter ou de sensibilidade, mas por um apagamento das sensações experimentadas por aquele revés. O mesmo apagamento responsável pela repetição dos erros anteriores. Como se não aprendêssemos com os erros. E não aprendemos mesmo. Exatamente porque o erro não nos marcou  ou marcou momentaneamente. Ao nos defrontarmos com uma situação semelhante àquela já vivenciada, não a reconhecemos e agimos exatamente igual agimos anteriormente. E somos punidos por algo que sequer lembramos, ou não temos consciência de haver errado. 

Muitos a esta altura dirão: mas então é melhor identificar-se portador de TDAH desde o princípio. AO que responderei com uma pergunta: Que princípio? Identifique-se TDAH numa entrevista de emprego e fatalmente será descartado. Objetivamente falando, ninguém vai contratar uma pessoa com dificuldade de manter a atenção, o foco, desorganizada, sujeita a ataques de fúria, impulsiva... Li recentemente que empresas do mercado financeiro estão procurando autistas para trabalharem com os complexos cálculos que a função exige; o autista é hiperfocado, tem uma memória absurda e, em grande parte, não é muito sociável, o que durante o expediente é ponto positivo. Então, se declarar TDAH é fora de questão.

O Dr Russel Barkley afirma que o mais eficaz é adaptar o ambiente de trabalho/estudo em que o TDAH exerce sua função. Sem se declarar TDAH, é importante que criemos rotinas e processos que devemos seguir rigidamente para evitar erros. Planilhas, post-it, agenda física ou de celular, todas são ferramentas importantes e úteis para diminuir o estresse de responder ao chefe as coisas mais banais e corriqueiras.

Mas para eliminar o medo do fracasso é preciso muita terapia, muito tratamento e muita mudança de vida. Para nós adultos é ainda mais complexo, ao longo da vida criamos instintivamente estratégias de sobrevivência que, na verdade, perpetuam os erros ou os agrava. mas que são extremamente difíceis de se livrar. Algo como pisar torto para evitar uma dor crônica na parte interna do pé, por exemplo. Ao longo dos anos você pode criar um desvio da coluna ou do quadril com piores consequências do que a dor que tentou evitar. 

Claro que não é impossível, mas também não é fácil. Exige muita disciplina, atenção, auto conhecimento e conhecimento da doença. Características que não nos são muito presentes, mas que nossa infinita capacidade de renascimento acaba por nos propiciar aprender e adquirir.


sábado, 5 de setembro de 2020

TDAH: SONHO e REALIDADE






Ganhar na mega sena.
Ser sorteado no bingo.
Encontrar um velho conhecido na rua procurando alguém exatamente com o seu perfil para contratar para um excelente emprego.
O acidente que o deixa quase à morte e leva as pessoas da família a o valorizarem e reconhecerem os próprios julgamentos a seu respeito.
O amor imortal que não se cansa, não se desgasta, não fenece.
O reconhecimento, ainda que tardio, da Academia Brasileira de Letras.
Um olheiro anônimo de uma grande gravadora que descobre seu desconhecido talento musical.
Ou simplesmente um fato que, inesperadamente, resolva os maiores problemas que enfrenta.
Não! Isso é fruto da inadaptação do TDAH ao mundo atual. Ou ao mundo de sempre. Se o sonho existe, é para ser sonhado. Todos sonhamos. Uns o sufocam em prol da realidade. Outros o alimentam e se descolam da realidade. O TDAH não o controla. Uma torrente de pensamentos assola nossa mente. Sonho e realidade se alternam e se misturam. Se sobrepõem e se substituem. Se completam e se destroem. No mesmo segundo, no mesmo assunto, no mesmo fato, nossa mente é capaz de forjar teorias concretas e factíveis que serão imediatamente sobrepostas por um desejo irracional de que a situação seja resolvida num passe de mágica.
Na era da informação e da racionalidade, o TDAH poderia ser representado por aquele que ainda acredita que dar três pulinhos e pedir a São Longuinho ajuda a encontrar um objeto perdido. No nosso caso que tudo perdemos, de três em três pulinhos acabaríamos dando a volta ao mundo ao fim de uma semana...
E quando a realidade começa a ser muito dura, damos asas a essa imaginação. Deixamo-la dominar nosso dia a dia. Basta que saiamos do foco, que nossa cabeça se descole da utilidade e um pensamento irreal toma seu lugar. Quantos de nós já perdeu o ponto de descer do ônibus... Quantas vezes chegamos dirigindo a um destino sem nos recordarmos do caminho percorrido... Quantas discussões poderiam ter sido evitadas se ouvíssemos o que diziam em lugar de estar viajando em outra estratosfera...
Antes que chovam as críticas, muitas pessoas passam por situações parecidas e não são TDAHs. A diferença é que no TDAH isso é rotineiro, é constante, se repete inúmeras vezes. TDAH é incontrolável! TDAH é inconsciente! TDAH é prejudicial! Isso diferencia o TDAH dos 'trouxas', como se dizia no Harry Potter.
Lembro-me, no começo do tratamento, de chegar ao fim do dia tendo resolvido e lembrado de várias coisas de pensar exatamente assim: Então é assim que as pessoas que se lembram agem... Era para mim uma novidade. E ainda é surpreendente.
TDAH não é sonhador por escolha. Sonha acordado porque tem imensa dificuldade de agir sob as pressões cotidianas; porque teme não saber resolver o que se apresenta; porque sonhar é um alento; porque é portador de TDAH.
E então, casa-se com um (uma) racionalista empedernido. Ahhhh, que maravilha de vida! Um cônjuge que tudo resolve, tudo soluciona, é tudo - e sempre - praticidade. E os choques começam; porque começam em qualquer relacionamento. E o jeito sonhador, romântico, aéreo, engraçado, dos tempos de namor, começam a irritar na vida prática. O esquecimento folclórico de antes vira proposital.
_ E essa mania insuportável que você tem de acreditar em histórias da carochinha já me encheram o saco!
Novas promessas e tentativas de ancoragem na realidade; remédios, terapias; tentativas... Ou então novos relacionamentos, novos sonhos, novas tentativas de viver no mundo da lua, a dois. As intermináveis tentativas...
A vida pede concretude, e pune os sonhadores.
Por isso rechaço quem afirma que a criatividade ou essa capacidade de sonhar do TDAH é benéfica. Não é, na medida em que esses atributos não são domáveis e não são concretizados. Nada mais são do que uma infindável cachoeira de imagens que se sucedem sem controle e sem fim.
E muitas vezes, essa tal cachoeira nos afoga...



domingo, 31 de maio de 2020

TDAH, ENFRENTE-SE OU NÃO MUDARÁ JAMAIS!






Onde quer que se reúnam mais de dois TDAHs
o tema é sempre o mesmo: os erros recorrentes,
as falhas intermináveis...
Indefectível também o tom lamuriento, como um refém absolutamente à mercê de seu carrasco. Nos grupos de TDAH das redes sociais é comum alguém postar possuir um dos sintomas do transtorno e receber de volta dezenas, centenas de comentários no mesmo tom de lamúria e desânimo.
Confesso que perdi um pouco o interesse por esses grupos, até mesmo pelo TDAH, doença incurável que é.
Cansei de me bater contra uma Rocha intransponível, um monólito do mais puro granito que eu sequer consegui infligir um sofrimento, uma dor. Pedra não sofre, pedra não sente dor. Assim como o TDAH. O TDAH não existe.
TDAH é uma sigla. Nada mais. Passamos a tratá-lo com se existisse; como uma entidade, quase como um amigo. E tentamos enfrentar o TDAH.
E perdemos. Perdemos como perdeu Dom Quixote ao se defrontar com os moinhos de vento.
Estamos enfrentando o inimigo errado!
O TDAH não existe!
TDAH é uma sigla criada por médicos para definir comportamentos que se repetem em um determinado grupo de seres humanos; eu,você, ele, ela...
Precisamos mudar de foco. Precisamos nos concentrar no verdadeiro inimigo: nós mesmos. Precisamos enfrentar todos os comportamentos que nos são prejudiciais, nos fazem sofrer,
nos ridicularizam. Não temos graça, somos risíveis. E isso não tema menor graça.
A maioria dirá: se fosse fácil ninguém teria TDAH. E tem razão.
Enfrentarmos a nós mesmos é dificílimo. Mas muito mais difícil é viver à mercê dos sintomas do TDAH. Essa vida mal vivida, essa vida farsesca, quase burlesca.
O fundamental é prestar atenção a si mesmo: está diante de um problema? Pense nos caminhos a seguir e compare-os aos sintomas do TDAH, se sua escolha fizer parte dos sintomas
do TDAH, abandone-a. Se em meio a uma discussão banal você for tomado de um ódio súbito e inexplicável, lembre-se de que
isso é o TDAH. Abandone a discussão ou o ambiente, respire, beba água, vá ao banheiro, mas não perca o foco de que toda essa raiva súbita é do transtorno, não sua. Se seu dia caminha
dentro da normalidade e do nada surge uma tristeza profunda, um desânimo enorme que pesa os músculos e derrota a alma, pare e reflita sobre o que te deixou nesse estado; se foi fruto de um
erro bobo no trabalho ou estudo, ou mesmo se surgiu sem nenhum gatilho específico está na hora de agir. Assim como os outros exemplos você está sofrendo de um sintoma típico
do TDAH; combata-o. Lembre-se de que está sob um sentimento artificial, desproporcional. E como num milagre sua tristeza se dissipará.
Tudo isso parece idiota, mas funciona. Eu era assaltado por esses ataques de fúria, quase não os tenho hoje em dia. Os episódios de tristeza paralisante também desapareceram.
Claro, as decisões, as escolhas, são mais complicadas pois muitas das vezes definem o futuro. Mas as tomo com muito mais confiança e tranquilidade. Mesmo que não tenha o resultado esperado tenho a tranquilidade de saber
que agi da maneira mais correta possível.
Muitas vezes cedi à tentação de optar pelo caminho apontadop elo TDAH; o que parecia impulsividade, o que parecia procrastinação, o que parecia a opção do imediato em troca
do benefício futuro. Mas quando cedi ao TDAH cedi com consciência, cedi por acreditar estar fazendo o que queria, e não tenho mais desculpa ou direito de responsabilizar oTDAH.
Pode parecer pesado, mas é libertador.