domingo, 25 de outubro de 2020

O TDAH E A BATALHA MENTAL COM A PREGUIÇA

 



Ouça agora mesmo:

Me esforço muito para manter minhas roupas organizadas no guarda roupas. Me esforço mesmo! Outro dia separei algumas calças mais velhas e as coloquei em baixo das bermudas. São calças que uso pouco, ou quase nada e achei que ficariam bem ali. Ontem resolvi usar uma delas e descobri que está muito apertada. Engordei ultimamente. Usei-a por alguns minutos e voltei pro guarda roupas. Como guardei?Em cima das bermudas. E não vou mentir, percebi na hora que deveria colocar embaixo das bermudas, mas ignorei. Hoje, ao lembrar da batalha do arroz lembrei-me da calça e fui colocá-la em seu devido lugar. Outra vitória!

Muitos podem achar ridículo cantar vitória por duas atitudes tão simples e básicas, mas quando se luta contra a própria mente, qualquer vitória é importante e merece ser comemorada. Mas sabe porque eu consegui vencer a preguiça? Porque estou mais atento ao meu TDAH. Voltei a dar importância a ele e enfrentá-lo. Falo isso há dez anos, desde que comecei a escrever este blog, e no entanto, eu mesmo havia me descuidado do TDAH. Ando tentando me lembrar de cabeça coisas que deveriam estar anotadas e revisadas. TDAH nenhum pode fazer nada sem ser checado e conferido. Trazemos a semente do erro, do esquecimento e da negligência. Não podemos descuidar um único segundo e o TDAH nos atropela e apronta das suas. Estando absolutamente atento ao TDAH evitamos situações vergonhosas e constrangedoras.

A fórmula mais eficaz de evitar, ou reduzir, os danos provocados pelo TDAH é a conscientização e a aceitação de que o transtorno é incurável e perigoso. Basta uma única oportunidade e ele pode destruir nossos relacionamentos, nossos empregos, nossa moral.

Como fazer? Em primeiro lugar, pratique seu TDAH. Jamais se deixe esquecer de que é portador de um transtorno incurável. Como uma oração, introduza no seu dia a dia o hábito de ler uma página sobre o assunto, assistir a um vídeo, ou conversar com alguém que conheça o TDAH. Isso mantém viva na sua memória a existência e a malignidade do transtorno. A partir daí, torne um hábito confrontar suas atitudes com os sintomas do TDAH. Por exemplo: se no trabalho você precisa entregar algo a seu chefe ou colega, por mais simples que seja, pense antes: vou revisar o que escrevi pois se tiver alguma falha evito novas críticas e ironias a meu respeito. É uma defesa. Uma auto defesa. Claro que sei que nesse momento você está pensando: esse cara acha que é fácil fazer isso... Pode ter certeza, eu sei que não é fácil. Adotei isso há cerca de dez anos e vinha funcionando super bem. Tão bem que me senti livre da necessidade de me manter alerta e tenho cometido um monte de erros. Se eu consegui, você consegue. Pouca gente nesse mundo é tão desatenta como eu. Você não tem nada a perder. Experimente! Tente!

Imagine o seguinte cenário: Você entra numa discussão com seu marido/mulher; ela(e) diz algo mais forte. Se eu nos conheço um turbilhão de agressões chegam à ponta da língua. Numa fração de segundos sua mente conecta fatos presentes com outros antigos, aparentemente desconexos. Mas sua mente brilhante foi capaz de, naquele instante de raiva, encontrar uma conexão entre esses fatos tão distantes. Agora é a hora de despejar todo o seu dicionário de ofensas e agressões. Que em dez minutos você se arrependerá de ter dito... Nessa hora você vai dizer para si mesmo: TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO COM HIPERATIVIDADE. Mas não vale pensar na sigla, tem que pensar no nome completo. Nisso, uns cinco segundos se passaram. Miraculosamente o ódio diminuiu. Você vai se lembrar desse post ou de outras histórias de portadores, ou mesmo suas, em que foi preciso implorar por desculpas para não destruir o relacionamento. Isso, claro, em flashes de frações de segundos. Mais cinco segundos se passaram nesses flashes. A temperatura da fúria diminuiu mais um pouco. Se possível, vá beber água, vá ao banheiro. Mas sempre lembrando do seu TDAH. Pense: esse sou eu ou é o TDAH agindo em meu lugar? Se o acesso de fúria lhe parecer, ou lhe recordar, um momento de impulsividade já vivido, engula a raiva. Cale-se! Calar-se é melhor do que pedir desculpas depois e ter de ouvir um monte de coisas desagradáveis sobre você, mas que são verdadeiras e incontestáveis.

Não será fácil! Mas já não é fácil. Tente! Vale à pena! Você não vai vencer todas, não vai se controlar em todas as vezes, mas nas vezes em que conseguir sentirá um prazer incomensurável; um prazer inenarrável. Tente, é possível. E viável! 

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