sexta-feira, 16 de abril de 2021

O QUE SENTE UM TDAH...





Temos em nós todos os sonhos do mundo... Ao mesmo tempo... E isso muitas vezes nos paralisa. 
Mas em nossas bocas boia o amargo sabor do fracasso...
Não o perseguimos, mas não o rejeitamos. Em alguns momentos da vida
ele é quase sedutor, muitas vezes somos atraídos por ele. 
Tem o medo... Ahhh, o medo... O medo de sermos descobertos cedo demais...
Somos fraudes, somos falsários em vias de sermos descobertos...
A esperança... Quando o tempo passa e não descobriram a fraude que somos, brota a esperança de que, dessa vez, conseguiremos manter a fachada. E relaxamos...
Ao relaxarmos a fachada desmorona... E somos descobertos...
O desânimo... As vezes, com ou sem motivo aparente um desânimo acachapante desaba sobre nossas vidas... Os membros pesam, a cabeça fica nublada a visão acinzentada...
Então, subitamente como começou, o desânimo se esvai dando lugar a uma leveza, quase uma alegria...
Uma alegria que pode ser atravessada por uma prostração, uma inércia, uma quase paralisia... Uma prostração capaz de nos manter no sofá por horas, zapeando sem sentido e sem objetivo. Apenas para deixar o tempo passar. E empurramos o tempo, empurramos o
emprego, empurramos a vida. Apenas para não enfrentar aquele problema ou pessoa que será inevitável enfrentar... A ciência médica chama isso de procrastinação, vivenciamos como uma fuga da realidade...
Inferioridade... Nossa fiel companheira. Às vezes traveste-se de medo, noutras vezes explode em crises de raiva. Mas no fundo são manifestações desse sentimento que nos apossa desde
a mais tenra infância calcado nas críticas às contínuas falhas, nos comportamentos hiperativos ou aéreos... Somos inadequados, inferiores, fraudes ambulantes... 
E ainda existem médicos(?) que não acreditam em TDAH, pedagogos(?) que ignoram o TDAH. 
Pais que são enganados por esses falsos profissionais, ou simplesmente preferem ignorar 
que seus filhos, ou filhas, têm um transtorno mental. E deixam que todos esses sentimentos cresçam e se multipliquem ao ponto de quase amputar as chances profissionais e afetivas 
de seus filhos. 
Esse post ficaria muito grande se eu narrasse tudo o que me povoa a mente e a mente de todos os TDAHs. 
A solução?
Conheça-se e conheça o TDAH.
Siga este blog, todas as páginas sérias sobre o assunto, todos os canais sérios do YouTube, Instagram, Facebook... Viva o TDAH, pratique o TDAH, mas não se esconda sob o TDAH. 
Informar-se sobre o TDAH nos deixa mais atentos, mais alertas e portanto, mais aptos a corrigir nossos próprios rumos. Após este virão vários posts sobre cada sentimento separadamente.
Cuide-se. Procure um bom médico. Se possível, pague a consulta, sua vida vai ser mais feliz e produtiva. Vale o investimento. Tome remédio, faça terapia e informe-se. 
Faça até onde for possível lembrando-se  de que você é o principal beneficiário e em consequência todos os que estão à sua volta. 

quarta-feira, 31 de março de 2021

O TDAH E O REVERSO DO HIPERFOCO

Em dezembro de 2018 publiquei um post sobre a beleza de se observar uma TDAH trabalhando hiperfocada. 
Pois bem, a pandemia, a ganância e a obtusidade da elite brasileira usurparam o hiperfoco desta TDAH. Iniciou-se ali um processo que ainda não terminou, mas que desnudou toda a riqueza, complexidade e dificuldade que um portador - neste caso portadora - tem em libertar-se do hiperfoco.
Passada a perplexidade inicial, todos os sentimentos estão exacerbados nesse período de caos em que vivemos, esta portadora deparou-se com situações inusitadas em sua vida: eu sou alguém além daquele hiperfoco? Conseguirei desempenhar outra função em outro ramo de trabalho, em outra empresa, em outra realidade além do meu hiperfoco?
Assaltada pelo sentimento de inferioridade típico do TDAH e com as perspectivas reduzidas pela pandemia, o processo de renascimento parecia mais difícil e doloroso. E foi.
Todas as tentativas iniciais pareciam limitadas por aquela armadura de mais de uma década de hiperfoco. Qualquer dificuldade, qualquer pequeno revés típico dos iniciantes em qualquer área profissional era visto como incapacidade de viver fora daquele ambiente de hiperfoco. O que parece ser um benefício do TDAH se transforma em pesadelo e tortura quando se tem tolhido o direito de a ele se dedicar.
Mas TDAH que é TDAH não se entrega. Chora, sofre, se descabela, mas segue em frente. Muitas vezes parece inerte, mas borbulha freneticamente interiormente. Em meio à pendemia e à quarentena, essa TDAH começou a vislumbrar a verdadeira razão de seu hiperfoco: sua mente, sua inteligência, sua perspicácia, sua sensibilidade. Ainda que de uma maneira aparentemente tímida e titubeante essa portadora experimenta novos caminhos, se abre a novas experiências e todas se mostram frutíferas e bem sucedidas. Claro que os primeiros passos jamais são estrondosos, mas são sólidos e significativos. Descortina-se diante dessa TDAH a infinidade de possibilidades a que sua mente brilhante esta apta a exercer e, ao mesmo tempo, prova a ela que o hiperfoco de que tanto se orgulhava só era possível porque era ela. Centenas de outras pessoas antes e depois passaram pelos mesmos cargos, nenhuma delas com a mesma ascensão meteórica e o mesmo desempenho. Não é o hiperfoco que forma o TDAH, muito pelo contrário, o TDAH por suas características é que se hiperfoca naquilo que particularmente o interessa.
Ao se confrontar com sua capacidade de ser eficiente, eficaz e produtiva em qualquer área, nossa portadora descobriu que é muito maior que seu hiperfoco, pois se este gera produtividade, limita e restringe seu desempenho e suas possibilidades. Agora não, livre das amarras do hiperfoco ela está pronta para alçar voos jamais imaginados pela hiperfocada. Sem o hiperfoco ela está apta a experimentar novas facetas de seu TDAH: a criatividade, a infinita capacidade de se reinventar, de renascer e de reagir.
Os longos anos de hiperfoco toldaram-lhe a visão de um passado profissional rico e diverso e do qual ela mal se lembrava, assim como o futuro que se abre para uma mente brilhante e liberta.