terça-feira, 28 de setembro de 2021

TDAH, UMA BATALHA PARA A VIDA TODA...

O título desse post é uma frase que tirei de um comentário feito no blog pelo leitor Alam e define com perfeição o que é o TDAH.
Tenho 60 anos de idade e fui diagnosticado há dez anos. Quando soube que meus inexplicáveis comportamentos auto destrutivos tinham nome, sobrenome e tratamento, senti um enorme alívio. Imaginei que em alguns meses, ou na pior das hipóteses, uns poucos anos eu seria uma nova pessoa. 
Ai, ai, nada mais enganoso...
Dez anos depois, centenas, talvez milhares, de comprimidos de Ritalina, dezenas de comprimidos de Ritalina L.A. e pouco mais de uma centena de cápsulas de Venvanse, o que posso dizer é que me debato com os mesmos problemas de antes. Memória péssima, desatenção, impulsividade, procrastinação, dificuldade com regras...
Mas, afinal de contas, o que mudou?
Quase tudo.
Em primeiríssimo lugar: hoje eu tenho consciência de tudo. Se não ajo para minorar ou sanar completamente o problema é por culpa minha. Claro que me perdoo se tento e sou derrotado.
A consciência do diagnóstico e sua aceitação são libertadores, mas aumenta nossa responsabilidade. 
No que melhorei?
Procrastinação. Já não procrastino como antes, pelo menos em relação ao trabalho e coisas importantes. Me arrasto até a loja, me obrigo a fazer a tempo e a hora. Depois que quebra a inércia é fácil. O que fiz pra mudar? Me conscientizei de que se eu me forçar eu pego no tranco. E forço.
Variação de humor e ataques de fúria. Isso eu diminuí muito. Eu tinha crises súbitas de fúria que metia medo em quem estivesse ao redor. Algumas vezes estive à beira de fazer uma grande merda. Hoje me controlo muito mais. Essas crises graves são parte do passado. O que fiz? Comecei a me controlar quando percebia a crise chegando. Dizia pra mim mesmo: esse não é você, é o TDAH agindo em seu nome. Isso bastava para o ódio diminuir. Eu tinha momentos de um abatimento inexplicável. De repente uma tristeza profunda me abatia de tal forma que meus braços e pernas pareciam de chumbo. Isso acabou completamente. Quando as crises tentam me abordar eu penso:
Vade retro TDAH!!! Aqui não! Claro que isso só funciona se a crise não é provocada por motivos reais. Essa tristeza a que me refiro surge do nada, sem motivo ou explicação. Isso é do TDAH e, se não é meu, não preciso conviver com ele. 
Organização. Sou outra pessoa hoje em dia. Meu lado do guarda roupas é bastante organizado, as gavetas idem... Minha mesa de trabalho ainda não alcançou o ideal, mas quem me conheceu antes do diagnóstico jamais imaginaria esse nível de organização que atingi. Mudei convivendo com pessoas organizadas e percebendo que a vida é muito mais fácil e melhor quando somos organizados. Assim como a procrastinação, me obrigo a fazer e pronto.
Impulsividade. Digamos que foi um pequeno ganho. Muitas das vezes consigo controlar, mas nem sempre. Ainda ajo por impulso e pago por isso. 
Me lembro de participar de grupos de apoio aos portadores de TDAH em Juiz de Fora, organizados pela minha médica Dra Valéria Modesto, e uma das coisas que dizíamos é calarmo-nos por 5 segundos antes de falar ou fazer algo. Esses 5 míseros segundos nos impediria de fazer grandes besteiras. 
É isso. Funciona. O diabo é que muitas vezes nos lembramos depois de acontecido. Mas seguimos na batalha. 
Memória, desatenção e tempo, creio ser meus maiores problemas. Ainda não consegui nenhum suporte, ideia, ajuda ou sei lá o que seja, que realmente funcione. 
Os idiotas da objetividade dizem: Anota!!!! Meu Deus, como não pensei nisso? Que ideia magnífica! Só uma pergunta: quem vai me lembrar de anotar? Desatenção! No meio de algo sério e importante voo para a estratosfera. Pode ser o que for, aonde for, com quem for. De repente escapo. 
E perco muito com isso. Muito mesmo.
E o tempo? Ah o tempo... Nada mais mágico e inexplicável... Como aqueles trinta dias que me pareciam tão distantes chegaram em apenas um mês? Ontem parecia tão distante... Uma das únicas coisas que aprendi e que me ajudam é colocar o despertador do celular para tocar de hora em hora no período do trabalho. Isso é ótimo, se estou viajando na maionese e toca o alarme das dez horas caio na real e volto ao trabalho. 
De resto, o TDAH é uma batalha para a vida toda. E não é uma batalha diária, é uma batalha a cada minuto, a cada segundo, sem trégua. Parece muito? 
E é muito, mas se não fizermos nada, acumularemos derrotas em sequência para o TDAH. E ele sabe deixar suas marcas em nossas vidas. 

sábado, 19 de junho de 2021

O QUE SENTE UM TDAH : 1- INSATISFAÇÃO

No princípio tudo são flores. Amor intenso, emprego perfeito, a casa dos sonhos, o curso imaginado, o carro desejado...
Os dias passam, passam-se semanas, correm os meses... 
Um pequeno desconforto em relação aquela vida. Nada de importante, só superficial. Mas vai aumentando. Aos poucos aquele sorriso cativante passa a parecer um pouco cínico. O chefe que apoiava seu crescimento vira um pequeno ditador. A casa sonhada tem alguns defeitinhos inconvenientes. Curso chato, professores incompetentes. E o carro? Não era exatamente o imaginado, mas...
A vida vai ficando pesada, difícil, transforma-se numa adversária implacável. Cobranças e mais cobranças e pouquíssimo retorno. 
Acordar com aquela voz... Enfrentar aquele banheiro apertado... Um carrinho bem chinfrim... E passar o dia sob o jugo daquele ditadorzinho infeliz. Ainda bem que abandonou aquele curso inútil. Estudar para trabalhar naquela empresinha maldita? Com aquele déspota semianalfabeto?
Aquela sensação de arrependimento por ter se endividado por aquele apartamento mequetrefe. Ouvir os outros e comprar aquela versão mais simples do carro. E o casamento? Meu Deus, pra quê?
Não adianta trocar o carro, o apartamento, o emprego, a mulher, o curso...
A insatisfação é sua. É minha. É nossa. É do TDAH.
Não sabemos porque nem como age. Somente sentimos, somos por ela apossados. Das pequenas às grandes coisas e situações. 
Nem uma Ferrari, nem a Giselle Bundchen, nem uma castelo na França, nem o Brad Pitt... 
A insatisfação é um sintoma do nosso transtorno. E não é aquela insatisfação criadora que move o mundo. É uma insatisfação demolidora, nefasta que nos faz abandonar tudo, de qualquer jeito, a qualquer hora, sem medir ou analisar as consequências. A Ritalina não cura, o Venvanse não cura. Aliás, nada cura.
A solução parece idiota, mas funciona. 
Conheça-se e conheça a sua doença.
E pra que serve isso?
Conhecendo sua doença e a você mesmo, você passará a saber o que é da sua personalidade e o que é do TDAH.
Ao ser assaltado pela eterna insatisfação você a reconhecerá e terá força e discernimento para agir contra ela. Deixará de ser um passageiro da insatisfação para assumir a sua direção e impedir que ela cresça e tome conta de sua vida.
Não estou pregando a estagnação, a submissão a qualquer circunstância, mas sabedor de que essa insatisfação pode ser fruto do TDAH você terá condições de analisar o contexto e agir dentro da realidade objetiva. Não será mais movido por um sentimento confuso que te empurra em direção à mudanças contínuas e infrutíferas pois o novo só será novo e atraente por um curto espaço de tempo. 
Em breve um pequeno desconforto nascerá dentro de você...

sexta-feira, 16 de abril de 2021

O QUE SENTE UM TDAH...





Temos em nós todos os sonhos do mundo... Ao mesmo tempo... E isso muitas vezes nos paralisa. 
Mas em nossas bocas boia o amargo sabor do fracasso...
Não o perseguimos, mas não o rejeitamos. Em alguns momentos da vida
ele é quase sedutor, muitas vezes somos atraídos por ele. 
Tem o medo... Ahhh, o medo... O medo de sermos descobertos cedo demais...
Somos fraudes, somos falsários em vias de sermos descobertos...
A esperança... Quando o tempo passa e não descobriram a fraude que somos, brota a esperança de que, dessa vez, conseguiremos manter a fachada. E relaxamos...
Ao relaxarmos a fachada desmorona... E somos descobertos...
O desânimo... As vezes, com ou sem motivo aparente um desânimo acachapante desaba sobre nossas vidas... Os membros pesam, a cabeça fica nublada a visão acinzentada...
Então, subitamente como começou, o desânimo se esvai dando lugar a uma leveza, quase uma alegria...
Uma alegria que pode ser atravessada por uma prostração, uma inércia, uma quase paralisia... Uma prostração capaz de nos manter no sofá por horas, zapeando sem sentido e sem objetivo. Apenas para deixar o tempo passar. E empurramos o tempo, empurramos o
emprego, empurramos a vida. Apenas para não enfrentar aquele problema ou pessoa que será inevitável enfrentar... A ciência médica chama isso de procrastinação, vivenciamos como uma fuga da realidade...
Inferioridade... Nossa fiel companheira. Às vezes traveste-se de medo, noutras vezes explode em crises de raiva. Mas no fundo são manifestações desse sentimento que nos apossa desde
a mais tenra infância calcado nas críticas às contínuas falhas, nos comportamentos hiperativos ou aéreos... Somos inadequados, inferiores, fraudes ambulantes... 
E ainda existem médicos(?) que não acreditam em TDAH, pedagogos(?) que ignoram o TDAH. 
Pais que são enganados por esses falsos profissionais, ou simplesmente preferem ignorar 
que seus filhos, ou filhas, têm um transtorno mental. E deixam que todos esses sentimentos cresçam e se multipliquem ao ponto de quase amputar as chances profissionais e afetivas 
de seus filhos. 
Esse post ficaria muito grande se eu narrasse tudo o que me povoa a mente e a mente de todos os TDAHs. 
A solução?
Conheça-se e conheça o TDAH.
Siga este blog, todas as páginas sérias sobre o assunto, todos os canais sérios do YouTube, Instagram, Facebook... Viva o TDAH, pratique o TDAH, mas não se esconda sob o TDAH. 
Informar-se sobre o TDAH nos deixa mais atentos, mais alertas e portanto, mais aptos a corrigir nossos próprios rumos. Após este virão vários posts sobre cada sentimento separadamente.
Cuide-se. Procure um bom médico. Se possível, pague a consulta, sua vida vai ser mais feliz e produtiva. Vale o investimento. Tome remédio, faça terapia e informe-se. 
Faça até onde for possível lembrando-se  de que você é o principal beneficiário e em consequência todos os que estão à sua volta. 

quarta-feira, 31 de março de 2021

O TDAH E O REVERSO DO HIPERFOCO

Em dezembro de 2018 publiquei um post sobre a beleza de se observar uma TDAH trabalhando hiperfocada. 
Pois bem, a pandemia, a ganância e a obtusidade da elite brasileira usurparam o hiperfoco desta TDAH. Iniciou-se ali um processo que ainda não terminou, mas que desnudou toda a riqueza, complexidade e dificuldade que um portador - neste caso portadora - tem em libertar-se do hiperfoco.
Passada a perplexidade inicial, todos os sentimentos estão exacerbados nesse período de caos em que vivemos, esta portadora deparou-se com situações inusitadas em sua vida: eu sou alguém além daquele hiperfoco? Conseguirei desempenhar outra função em outro ramo de trabalho, em outra empresa, em outra realidade além do meu hiperfoco?
Assaltada pelo sentimento de inferioridade típico do TDAH e com as perspectivas reduzidas pela pandemia, o processo de renascimento parecia mais difícil e doloroso. E foi.
Todas as tentativas iniciais pareciam limitadas por aquela armadura de mais de uma década de hiperfoco. Qualquer dificuldade, qualquer pequeno revés típico dos iniciantes em qualquer área profissional era visto como incapacidade de viver fora daquele ambiente de hiperfoco. O que parece ser um benefício do TDAH se transforma em pesadelo e tortura quando se tem tolhido o direito de a ele se dedicar.
Mas TDAH que é TDAH não se entrega. Chora, sofre, se descabela, mas segue em frente. Muitas vezes parece inerte, mas borbulha freneticamente interiormente. Em meio à pendemia e à quarentena, essa TDAH começou a vislumbrar a verdadeira razão de seu hiperfoco: sua mente, sua inteligência, sua perspicácia, sua sensibilidade. Ainda que de uma maneira aparentemente tímida e titubeante essa portadora experimenta novos caminhos, se abre a novas experiências e todas se mostram frutíferas e bem sucedidas. Claro que os primeiros passos jamais são estrondosos, mas são sólidos e significativos. Descortina-se diante dessa TDAH a infinidade de possibilidades a que sua mente brilhante esta apta a exercer e, ao mesmo tempo, prova a ela que o hiperfoco de que tanto se orgulhava só era possível porque era ela. Centenas de outras pessoas antes e depois passaram pelos mesmos cargos, nenhuma delas com a mesma ascensão meteórica e o mesmo desempenho. Não é o hiperfoco que forma o TDAH, muito pelo contrário, o TDAH por suas características é que se hiperfoca naquilo que particularmente o interessa.
Ao se confrontar com sua capacidade de ser eficiente, eficaz e produtiva em qualquer área, nossa portadora descobriu que é muito maior que seu hiperfoco, pois se este gera produtividade, limita e restringe seu desempenho e suas possibilidades. Agora não, livre das amarras do hiperfoco ela está pronta para alçar voos jamais imaginados pela hiperfocada. Sem o hiperfoco ela está apta a experimentar novas facetas de seu TDAH: a criatividade, a infinita capacidade de se reinventar, de renascer e de reagir.
Os longos anos de hiperfoco toldaram-lhe a visão de um passado profissional rico e diverso e do qual ela mal se lembrava, assim como o futuro que se abre para uma mente brilhante e liberta.