quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O TDAH QUE SE ACOSTUMA


                        


A gente se acostuma, mas não deveria...
A gente se acostuma a esquecer...
E porque esquece, se acostuma a ser criticado...
E porque é criticado, começa a se fechar...
E por se fechar, começa a evitar as pessoas...
E por evitar as pessoas, prefere o isolamento...
A gente se acostuma a procrastinar, a adiar o que teme,
depois o que é complexo, depois o que é simples, depois...
A gente se acostuma a perder... Perdemos o emprego,
perdemos a pessoa amada, perdemos o rumo,
perdemos a auto estima, perdemo-nos de nós mesmos...
A gente se acostuma ao tratamento; ou a falta dele...
A gente se acostuma a cair e a levantar infinitas vezes...
E por levantar, acostumamos à crença de que cair é normal...
E por acreditar  que cair é normal, a gente se acostuma ao TDAH...
E ao acostumar com o TDAH, a gente se acostuma a falhar...
E porque falha, a gente se acostuma a ser criticado...
E porque é criticado, a gente se acostuma a ser menos;
mas não merecia...

Inspirado no poema ' A gente se acostuma' de Marina Colassanti.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

TDAH, A VIDA À DERIVA





O primeiro título que dei ao blog foi esse: A VIDA À DERIVA. Era assim que eu me sentia na época, e é assim que todos nós já nos sentimos em alguns momentos da vida. 
Em vários momentos pensei em desistir... Mas como desistir? Não existe essa possibilidade na vida... 
Sempre recebo e-mails com esse sentimento. As pessoas se sentem perdidas, sem saber que rumo tomar, ou melhor, que rumo dar à vida. Exatamente como na foto acima, um barco sem remos perdido no meio do nada. 
E o que provoca essa sensação? 
A sucessão de falhas. Ao descobrir que cometeu o mesmo erro, por desatenção, por inobservância das regras, por não se ater aos detalhes, por não se lembrar de já ter vivenciado situação análoga, por ter adiado pela enésima vez... 
Ninguém avalia a sensação de mortificação. A enorme vontade de fugir para não encarar as pessoas. 
Mas a vida segue. Mesmo que não queiramos, ela segue. E estranhamente o último episódio não deixa cicatrizes. Certa vez um médico disse que a mulher tem mais de um filho porque ela esquece a dor do parto. É isso que vivemos; nos esquecemos da dor que sofremos na última falha. E por esquecermos, cometemos falhas semelhantes outra vez, e outra, e outra, e outra... 
E a vida escapa de nossas mãos. De longe observamos amigos e familiares que sabem conduzir suas vidas com tranquilidade e linearidade; com tamanha tranquilidade que estão preparados para possíveis reveses. Não nós! Jamais estamos preparados para nada. Nem para as situações mais previsíveis da vida. E somos surpreendidos pelo óbvio. 
E estamos desprotegidos, no meio do nada. Sem saber para onde ir; ou com que meios ir. 
Mas, mais um dia amanhece. De alguma forma aquela chaga aberta ontem amanheceu cicatrizada. Uma sensação de um sonho ruim pesa em nossa mente. Mas e a vida destroçada de ontem? Uma névoa cobre nossa memória e o ontem toma ares de um passado distante. Tão distante que não deixou marcas ou lembranças. E estamos prontos novamente. Prontos para repetir os erros; vivenciar o sabor amargo das derrotas; sentir a sensação de estar à deriva; e acordar como novo. Para errar de novo. 
E dirão os idiotas da objetividade: Todo mundo erra! Sim, mas as pessoas aprendem com os erros. Não os TDAHs, nossa vida se repete como naquele filme que a moça perdeu a memória em um acidente e a família repetia incessantemente o fragmento de vida de que ela se recordava. Mas, em geral, não temos uma família de filme, e sim pessoas que cobram e criticam a cada erro, jogando-nos no rosto tudo o que já fizemos de errado ao longo da vida. 
E vida que segue! E nela embarcados seguimos. Mas carregamos o singular sentimento de que ela também esta à deriva... 
Em tempo: Mudei o nome do blog por sugestão de minha médica, Dra Valéria Modesto, que não concordava com um título tão depressivo numa fase da minha vida que deveria ser positiva, de reconstrução. Rebatizei o blog por concordar com ela, mas ainda acho que A VIDA À DERIVA é muito mais fiel ao que vivemos. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O TDAH E A TRISTEZA ARTIFICIAL





Ela vem silenciosa e repentinamente... Os primeiros sintomas são os membros pesados... Um tipo de fraqueza muscular nos apossa que os gestos mais banais parecem um enorme esforço. A vida se torna uma inimiga cinza, densa e pesada. Até as pálpebras pesam. Tudo parece maior e mais difícil de se realizar.  
Esse torpor, esse desânimo, essa sensação de ter sido derrotado pela vida instala-se a partir do nada. Uma frase desconexa, uma lembrança, uma falha... Não existe um gatilho específico. Apenas algo desperta aquela sombra densa que recobre, repentinamente, nossas vidas. E o mais estranho é que, do mesmo jeito que surge, desaparece sem deixar vestígios. De um momento para o outro, aquela sensação de que você é o pior ser humano da terra desaparece. Sim, D E S A P A R E C E. 
E você não sabe como.  
Escrevendo esse texto, lembrei-me de ter essas crises de 'melancolia' na adolescência, e que passavam misteriosamente ao som de um samba de João Bosco e Aldir Blanc. Sim, um samba -tratamento.  
Cheguei a tomar remédio por isso. Inutilmente, diga-se de passagem. Depois que descobri que fazia parte do pacote do TDAH resolvi mudar minha convivência com esse torpor. Passei a reconhecê-lo e confrontá-lo. Por isso é tão importante o auto conhecimento. Você, de tanto prestar atenção ao seu próprio comportamento, começa a reconhecer onde termina sua personalidade e onde começa o TDAH. E aí você pode combatê-lo. E foi o que fiz. E faço. Basta que eu comece a sentir o gosto da derrota na boca, a semiparalisia do sentimento de inferioridade, que eu começo a me questionar: aconteceu algo objetivo para me deixar nesse estado? Se não aconteceu, o que é verdade na enorme maioria dos casos, eu entro na fase dois; o combate. Procuro pensar em coisas boas que eu tenha feito, músicas, coisas que li e gostei... Bobinho, né? E é mesmo. Mas funciona como um milagre. Esse estado, é um estado artificial, imotivado, não é seu, é do transtorno. E ele desaparece. Como por encanto...  
Claro, existem momentos concretos, provocados por problemas reais. Mas são minorias. 
O que faço é isso : 
Auto conhecimento. A cada reação, a cada sentimento, a cada decisão, pense e analise aquilo que viveu. Se você leu e se informou sobre o TDAH, vai começar a reconhecer onde e como ele age na sua vida.  
Enfrentamento. É tentar mudar aquele comportamento influenciado pelo TDAH. Não vai ser fácil, não vai ser sempre. Mas vai ser possível.  
Se não der certo hoje, vai dar amanhã ou depois. Só não pode é desistir. Aliás, lembrei-me de uma frase do meu amigo de TDAH Frank Slade - que sumiu como todo bom TDAH - O TDAH que nos derruba é o mesmo que nos dá força para nos reerguermos.  

PS.: Agradeço à amiga Fabíola, de Recife, pela sugestão do tema e do título.

sábado, 9 de setembro de 2017

TDAH NÃO É BRINCADEIRA!







Parece estar havendo uma nova e disfarçada campanha de desmoralização do TDAH. Pessoas bem intencionadas (ou não), andam divulgando possíveis características benéficas da doença para os portadores do Transtorno do Déficit de Atenção com (ou sem) Hiperatividade. Ora, isso é no mínimo desinformação; beirando muitas vezes a crueldade. TDAH é doença! Não existe nenhum tipo de benefício em doença nenhuma. O fato de existirem TDAHs de sucesso nada significa, essas pessoas alcançaram o sucesso APESAR do TDAH. E não graças a ele. Seria o mesmo que creditarmos à Esclerose Lateral Amiotrófica o brilhante trabalho científico de Stephen Hawking. Como o TDAH não causa alterações aparentes, nem físicas, nem comportamentais, uma grande parcela da população desacredita de sua existência ou de sua capacidade de causar danos em seus portadores.
Carregamos nosso inimigo dentro de nós mesmos, dentro de nossas mentes. Passamos a vida nos auto sabotando, abandonando projetos e pessoas, malbaratando o que ganhamos, vendo a vida escorrer entre nossos dedos enquanto colegas com muito menos capacidade intelectual constroem carreiras sólidas e vidas estáveis. Nossa criatividade e impulsividade são muito legais aos dezoito anos, aos quarenta começamos a nos dar conta do quanto estragamos nossa vida. Nessa idade enxergamos que nada fizemos com aquele dom ou habilidade que trazemos de berço. Faltou disciplina, faltou persistência, faltou coragem, faltou ânimo, faltou força para quebrar a inércia. Invertemos as prioridades da vida, aos quarenta ainda valorizamos o que outras pessoas abandonaram aos vinte.
 Nossas características podem parecer engraçadas, divertidas; mas não são! Sofremos ao constatar que perdemos a chave, ou o compromisso, ou a hora, pela enésima vez. Sofremos enormes sobressaltos quando algo sai errado no trabalho ou na escola; teríamos sido nós os culpados? E falamos ou fazemos sem pensar; e para consertar depois? Isso quando tem conserto; senão, arrastaremos a culpa por toda a vida.
A falha pode ser engraçada de tão grotesca. Ou seria se fosse ocasional. Mas não no nosso caso. Esquecemos porque nosso cérebro nos boicotou. Dissemos o que não deveria pois nosso cérebro não tem freios. Invertemos as prioridades porque nosso cérebro não sabe agir de outra maneira.
É engraçado para quem está de fora, nós sofremos genuinamente.
Nosso transtorno é muito sério e não podemos aceitar esse ridículo papel de bobo da corte que querem nos impingir.

domingo, 3 de setembro de 2017

TDAH:DESATENÇÃO, MEMÓRIA E DISCIPLINA.






Acabei de ver um post no Facebook indicando sete aplicativos para auxiliar a vida dos portadores de TDAH.
Uma iniciativa interessante, louvável, se não fosse por um detalhe: quem criou o post não é TDAH!
Quem é TDAH pleno, aquele de carteirinha, não consegue usar aplicativos com essa regularidade. Isso exige disciplina, determinação, memória... Nada disso nós temos.
Vamos lá:
Evernote: Conheço há anos, instalei umas três ou quatro vezes. Desisti. Você tem que pegar o celular, abrir a tela (pronto, já foi pro Face) , abrir o programa (se lembrar depois que sair do Face) , criar uma nova nota (se conseguir lembrar pra que diabos pegou o celular)... Chega! Já esqueci o que iria anotar. É chato, cheio de regrinhas...
Any. do: Lista de tarefas... Bem, para listar as tarefas eu preciso de lembrá-las. Segundo, eu preciso me lembrar de consultar o aplicativo. Terceiro, tenho que ter disciplina para a abastecer sempre que surgirem novas tarefas. Quarto, tenho que ter uma vontade férrea de não entrar no Face, Twitter...
Mobillis: Guia financeiro. Já instalei dezenas deles. Alguns cheguei a usar por semanas... Depois esquecia, retomava, esquecia de novo... Desinstalei. São complexos, chatos e exigentes. É inimaginável pedir a um TDAH que lance todas as suas despesas num aplicativo. Isso é anti TDAH por excelência!
Color Note: Até agora o mais útil. É um programa simples e direto. Sem muitas frescuras e exigências de páginas, colunas... Mas como todos os outros, só funciona se você se lembrar de usá-lo. Já o tive no Windows Phone; mudei de plataforma e esqueci dele.
Peak: jogos que aumentam a habilidade cerebral. Nunca usei, nem sabia que existia. Pode ser ótimo, mas não costumo ter saco pra jogar nada. Não posso dar palpite.
Wunderlist: Um super mega hiper aplicativo para listar tarefas. O melhor do mundo! Permite criar listas individuais ou em grupo, pessoais ou profissionais... Perfeito! Se você lançar os dados, se você lembrar de consultá-los, se você tiver disciplina para abrir o celular, o programa, nova lista...
Focus at will: Talvez o mais interessante, segundo a matéria são músicas desenvolvidas para aumentar a concentração. Muito legal! Aí no meio da música soa a notificação do Facebook... Já era... Ou do WhatsApp, pior ainda...
Veja bem, não estou dizendo que nada disso serve como ajuda ao TDAH, ou que nós não tenhamos solução ou ajuda. Nada disso, apenas quem elaborou essa lista não é, ou não conhece bem como funciona o TDAH.
Ao abrir o celular, abrimos a porta da desatenção. Face, Twitter, Instagram, WhatsApp... Tem que ser mega disciplinado pra não mergulhar nesse mundo e esquecer da vida. Nossa mente salta de um tema para outro, e para outro, e para outro, em fração de segundos. A desatenção é nossa companheira inseparável, não dá pra imaginar um TDAH com esse nível de organização e disciplina. Inclusive no post há um comentário que ilustra bem nosso comportamento :
A menina oferece uma alternativa gratuita ao Mobillis, ela comprou esse último para, só depois, descobrir que a versão pro permitia privilégios temporários. Ou seja, por desatenção ela não percebeu o que estava comprando.
Aplicativo para TDAH só vai funcionar assim: não precisamos de escrever nada, nem de lembrar. O aplicativo toma a iniciativa, a cada intervalo de tempo pergunta: fulano você já fez isso? Ou te cobra: fulano, você ainda não foi a tal lugar...
E os lançamentos feitos por voz. Lembrou no trânsito, grava que ele se vira para arquivar e te cobrar depois.
Deveria se chamar Memória de Mãe, ou de esposa, ou algo do gênero.
Existiu na plataforma WP, um programa de tarefas que cobrava sua execução. Se a pessoa não desse baixa na tarefa ele ficava triste, nervoso; cobrava inclusive por não estar sendo usado. Muito útil, mas desapareceu. Além do defeito de ter que escrever.
Volto a dizer, não quero detonar o post, muito menos os aplicativos, só acho que ajudam muito menos do que parece, pois exige que o abasteçamos de dados. E isto é muito difícil para um TDAH.



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

TDAH: DESATENÇÃO É MAIS QUE ESQUECIMENTO!




Desatenção é muito mais que esquecimento. Desatenção é olhar sem ver, escutar sem ouvir, ler sem entender...  
Escrevi um post semana passada sobre um novo sintoma que descobri sobre o TDAH. Até descobrir que foi desatenção minha, e não um novo sintoma.  
Eu tinha que entregar o celular de uma cliente e o coloquei na mala. Chegando ao destino não encontrei o celular entre as minhas coisas. Fiquei arrasado, na minha mente eu me via colocando o aparelho entre roupas macias para protegê-lo. Pensei, minha mente está criando situações. E escrevi sobre isso. Horas depois a namorada encontrou o celular dentro da mala, preso num canto. O nome disso? Desatenção!  
Certa vez, nos tempos de inflação alta, comprei um terreno; ao elaborar o contrato de compra e venda a vendedora alterou a cláusula de reajuste, eu li e não percebi. Devo ter lido pensando em outra coisa. Acabamos num desgaste danado, desisti do negócio até que ela voltasse atrás. E a alegação dela era de que eu havia lido o contrato.  
Quantas vezes ouvimos parcialmente, respondemos ao que ouvimos e o interlocutor entende a resposta ao todo que ele disse... E novo desgaste... Novas brigas... Novas discussões...  
Só me descobri TDAH aos cinquenta anos de idade, imaginem tudo o que passei por não saber o que tinha. Apenas era um sujeito absurdamente desatento, folcloricamente esquecido, irresponsavelmente impulsivo, incrivelmente egoísta, e outros desairosos adjetivos que prefiro omitir.  
Sempre digo que não se deve sair dizendo aos quatro cantos que é portador de TDAH. Principalmente no trabalho, afinal pode ser usado como arma contra a pessoa. Mas num relacionamento é fundamental a verdade. Eu falo na lata. Empolguei com a pessoa já aviso. Isso economiza bons desgastes. E ajuda a avaliar aonde estamos entrando. Se a reação da pessoa for negativa, pulo fora. TDAH não tem cura, conviver com quem não entende, ou não aceita é auto flagelação.  
Não se atentar aos detalhes é outra característica do TDAH. Pra mim faz parte, ou está intimamente ligada à desatenção. Falta paciência de ler aquilo tudo... Falta atenção para olhar em todos os desvãos... Falta ânimo para cobrar todos aqueles detalhes que ficaram para trás... Uma vida generalista, sem detalhes. A solução é se aliar a alguém oposto. Desde que este alguém goste de controlar e corrigir e aceite bem esse papel. Estando consciente de que a desatenção é fruto de um transtorno e não de negligência ou preguiça, é menos difícil de conviver.  
Estamos vivendo a época de respeito às diferenças. A mídia cobra novos comportamentos, mas venhamos e convenhamos, na maioria das vezes, é mais fácil conviver com o macro, do que com as micro diferenças do dia a dia.  
Desatenção, falta de memória, Impulsividade, fazem parte do nosso pacote de diferenças e devem ser reconhecidas e respeitadas. E devemos exigir isso. Como devemos fazer a nossa parte: o tratamento. TDAH não é muleta para continuarmos fazendo o que queremos. Não, é um transtorno tratável; e por amor e respeito a nós mesmos e aos que nos amam e convivem conosco, devemos tratá-lo.  
TDAH sem tratamento, em geral, quer salvo conduto para agir impunemente.  


sábado, 12 de agosto de 2017

O TDAH E A INSEGURANÇA MENTAL CRIATIVA



Oliviero Toscani, genial fotógrafo italiano revolucionou a publicidade mundial nas décadas de 1980/1990/2000, ao criar campanhas chocantes, instigantes e sensacionais. Toscani fotografou beijos entre negros e brancos, entre dois homens, duas mulheres, padre e freira; além de aidéticos terminais ao lado da família desesperada e vítimas das sangrentas guerras civis africanas. Se hoje muitas dessas fotos ainda provocam reações contrárias, que dirá há vinte e cinco anos. As campanhas de Toscani transformaram a marca de roupas Benetton em uma das cinco mais famosas do mundo, na época. Incansável, há cerca de sete anos criou uma campanha anti anorexia, em que fotos de mulheres anoréxicas nuas estavam em outdoors e revistas de toda a Itália,  e com isso,catapultou uma pequena empresa da região de Vêneto à fama mundial em poucos dias.
Mas isso é apenas uma introdução ao que ele disse; instigado pelo entrevistador, Toscani fala sobre criatividade e talento. Ao contrário do que se imagina, ele diz que talento nada tem a ver com ter ideias, o talento é intrínseco; a pessoa sente e faz. Não importa a crítica, a receptividade ou o sucesso; a manifestação é o mais importante.
Ainda segundo Toscani, a insegurança fomenta a criatividade; a segurança, o conforto, a estabilidade, ao contrário, é a geradora da mediocridade. E cita como exemplo as agências de publicidade, que segundo ele, são o paraíso da mediocridade e da falta de talento.
E daí? Daí tudo! Não seriamos criativos por que somos TDAH, mas por que o TDAH nos deixa mentalmente inseguros e instáveis, e nos propicia a incessante e quase inconsciente busca de novos caminhos, novas soluções, novas alternativas.
Seria o caos de nossas vidas o incubador de nossas mentes absurdamente irrequietas? Segundo esse gênio da fotografia sim. E faz sentido... No Brasil, nossa melhor música, nosso melhor teatro, nosso cinema mais revolucionário, surgiram no auge da ditadura. Tínhamos um monstro a combater, um medo a enfrentar, um futuro incerto a descortinar, um mundo desconhecido a desbravar...
E nós TDAHs? Temos a inquietude de uma mente que não para; temos a inconstância de sentimentos que nos assola; temos a impulsividade que nos impede de nos conformamos com nossos destinos...
A criatividade pode ser a válvula de escape dessa mente tortuosa, a fuga para mundos inexplorados, para soluções impensadas. Quem saberá?
Imagino nossa mente como um infindável redemoinho; pensamentos se misturam e se chocam, se sobrepõem e se complementam. Pulamos de um assunto a outro, de um tema a outro, sem nexo ou explicação. E de repente ela surge. Do meio daquele emaranhado de pensamentos surge uma ideia, uma inspiração... Mas, se não for anotada, esquematizada, salva de alguma maneira, instantaneamente, perder-se-á no redemoinho de pensamentos que não para de girar... E quantas vezes, inocentemente, não anotamos de imediato, confiantes de que nos lembraremos de algo tão impactante e genial? Qual nada, em poucas horas a ideia genial terá submergido no caótico redemoinho de pensamentos da mente TDAH.
Os não portadores imaginarão o desespero que ficaremos ao esquecermos de tão importante ideia. Claro, se nos lembrarmos do que pensamos podemos nos torturar, mas em geral ficamos com aquela sensação de havermos tido a grande sacada; mas uma névoa a encobriu e toldou; como um aroma que nos faz lembrar algo de que não sabemos ao certo do que se trata...
E o TDAH anestesia nossa culpa; afinal, essa ideia é apenas mais uma no armário repleto de esqueletos mentais que armazenamos em nossas existência.