sábado, 23 de maio de 2015

TDAH: QUE DIABO DE DOENÇA É ESSA?

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa (Guimarães Rosa)


Que diabo de doença é essa que me permite ter emoções fortíssimas, me leva às lágrimas; mas que não marcam minha alma?
Sou capaz de ir às lágrimas com um filme, uma notícia, um texto. Indigno-me da mesma forma. Mas estranhamente nada disso é duradouro. Esvai-se sem deixar vestígios. Nada fica. Nem a lembrança.
Que diabo de doença é essa que pode desaguar em explosões de ira diante de situações absolutamente pueris. Mas que desaparece sem deixar rastro. Não me serve de lição. Não me serve de aprendizado. Pode destruir pessoas. Pode destruir a minha vida. Mas se desvanece em minutos. Como nuvens...
Que diabo de doença é essa que me permite esquecer situações, pessoas, lições e vivências como se jamais as tivesse experimentado? Quantas vezes já me vi diante de aparelhos celulares abertos na minha bancada, olhando-os como se fossem novidades; mas sabendo já ter consertado mais de um daquele mesmo modelo. Criei um 'manual de instruções' por modelo para não ter de explorar tudo a partir do zero. Quantas pessoas repetiram diante de mim: Já nos conhecemos naquele local; naquele dia. E nada...
Que diabo de doença é essa que apaga da minha mente momentos inteiros da minha vida? Meu Deus, quantas vezes discuti negando veementemente ter dito ou feito isso ou aquilo. De nada valem os argumentos da outra parte: você estava sentado aqui; você usava tal roupa; você ainda falou isso sobre aquele fato. Nada! Absolutamente nada! Aquele trecho da minha vida eu não vivi!
Isso gera muita desconfiança das pessoas em relação ao meu comportamento; à minha honestidade; à minha credibilidade.
Nem sei quantas vezes fui taxado de egoísta; insensível... Certa vez, durante uma discussão em que eu negava peremptoriamente haver dito algo, minha ex esposa, desesperada, gritou: você está tentando me enlouquecer? É esse o seu objetivo?
Não era...
Mas eu tenho uma alma quase impermeável. Quase nada lembro... Quase nada aprendo... Quase nada guardo...
Em alguns casos, é positivo.
 Não odeio ninguém! Não guardo mágoa de ninguém!
Mas também não aprendo!
Repito os mesmos erros; sou enganado pelos mesmos argumentos; e me estrepo de novo... de novo... de novo... de novo...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

TDAH: NOVE PASSOS PARA VOCÊ FRACASSAR NA VIDA






Lembre-se, não deixe nenhum dos passos sem cumprir ou não poderei garantir que vá fracassar retumbantemente! Não posso ser responsabilizado se você, mesmo cumprindo o tutorial aqui descrito, ainda obtiver algum sucesso na vida. As vezes a sorte não está a nosso favor...

1) NÃO SE TRATE: Essa é a base de tudo! Ignore ser um TDAH, melhor ainda, não acredite que exista o TDAH. Acredite que a Ritalina é um veneno e que os médicos estão mancomunados com os grandes laboratórios para ganhar milhões à suas custas.

2) CONFIE NA SUA MEMÓRIA: Acredite piamente que anotar é besteira, você irá se lembrar. Some-se a isso o fato de você não tomar os remédios e estará dando um grande passo em direção ao buraco.

3) ISOLE-SE: Isso é ótimo! Aceite que você é anti social e abandone amigos, parentes e conhecidos. Rapidamente você não será lembrado para ser convidado a eventos sociais, promoções, novas oportunidades...

4) LIBERTE-SE DO RELÓGIO: Não fique conferindo as horas, nem se preocupe com possíveis atrasos; o brasileiro é assim mesmo. Não se esqueça: sempre dá tempo de ajeitar alguma coisa em casa antes de sair, não confira o endereço antes de sair (CONFIE NA SUA MEMÓRIA) e muito menos confira se você conhece mesmo o caminho. A surpresa é a graça da vida!

5) APREGOE SEU TDAH NO TRABALHO: Isso é muito importante, todos devem saber que você é TDAH. Principalmente seus superiores. Você passará por três estágios: NEGAÇÃO, ZOAÇÃO E DEMISSÃO. Seus colegas dirão: Que isso, você é um cara inteligente, não tem essa doença não. No segundo estágio vão começar a te zoar: Chegou atrasado hoje por que não tomou seu remédio? Esqueceu as planilhas né, TDAH? E no último seu chefe vai concluir que seu problema é doença e você jamais vai superar suas deficiências. Na primeira crisezinha demite o doidinho.

6) SOLTE SUA IMAGINAÇÃO: Empresas gostam de pessoas que pensam fora da caixinha, então, nada de se policiar. Viaje durante o expediente; diga coisas sem noção durante as reuniões; não faça um roteiro do que precisará dizer, improvise! Não se policie, deixe que o TDAH (que você não acredita que exista) aja por você.

7) ASSUMA SEU SENTIMENTO DE INFERIORIDADE: Deixe bem claro que você é um nada! Não sabe nada! Não entende nada! E, principalmente, não merece nada! Sempre que pedirem sua opinião - ainda que você saiba - titubeie, gagueje, engasgue. Não seja merecedor. Assuma, você é uma farsa!

8) SOLTE SUA IMPULSIVIDADE: Aqui é o oposto da anterior. Fale o que lhe vier à cabeça. Aponte as falhas e defeitos dos outros. Fale na cara! Seja O SINCERO!  Assuma riscos desnecessários e o principal: JAMAIS PENSE NAS CONSEQUÊNCIAS. Isso é fundamental!

9) ABANDONE SEUS PROJETOS: Esse item é típico. Esqueça aqueles projetos que já te consumiram tempo e dinheiro e mergulhe em algo novo, excitante!!!! Que claro, será também abandonado por outro ainda mais excitante... Que será abandon... Que será aban... Que será ab...
Este item me foi sugerido pela Bianca Tupinambá. Obrigado!

Eu poderia listar mais algumas atitudes aqui, mas acredito que essas sejam as principais. Se você sabe de outras que possam enriquecer nosso fracasso poste nos comentários; adorarei saber. Talvez até mesmo acrescento aqui e te dou o crédito.
Ahhhhh, já ia me esquecendo: siga rigorosamente esses passos e você terá como bônus um aumento exponencial do seu sentimento de culpa. Isso é um ganho extra que estou te proporcionando, portanto, cumpra.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

TDAH: O CONFRONTO DESNECESSÁRIO



Quer uma boa briga?
Confronte seu TDAH!  Marido, esposa, namorado, filha, filho...
Você terá um vulcão de volta.
Aqueles mais passivos podem até não responder no mesmo diapasão, mas se fecharão às suas palavras, aos seus sentimentos, à sua razão.
E mais, estarão mais um passo distante de você.
Todos nós odiamos o confronto, mas não sabemos reagir de outra forma.
Como na fábula do escorpião e do sapo, é da nossa natureza.
Uma boa briga, um enorme barraco, terá como efeito imediato um gigantesco desprezo por você. Não importa se a razão está ou não com você, odiamos essas demonstrações de fraqueza e desequilíbrio. E detestamos os fracos.
Ainda que a resposta do TDAH seja o silêncio, nunca fará o que você quer. Só de pirraça. Só pra te mostrar que sua fraqueza não tem efeito prático algum.
Pare agora!
Repense sua estratégia, seu modo de agir com seu TDAH favorito. Esse caminho até agora foi inútil, só gerou briga e desgaste,
Mas atenção, não confunda mudança de estratégia com passividade ou omissão. Não! Pare pra pensar em quando, como ou por que em alguns momentos seu TDAH favorito fez exatamente o que você queria ou aquilo que era correto. Qual foi a sua abordagem? Qual foi a motivação do seu TDAH?
Seu filho adolescente é um problema? Faz o oposto do que deveria?
Pense na vida que ele leva: É isso mesmo que ele queria fazer? Era essa vida que ele sonhava?
Obviamente algumas coisas são inegociáveis, mas ele ama natação, ou inglês, ou as aulas de reforço?
Sei lá, talvez ele prefira box, muay thai, balé, xadrez ou música. Negocie com ele. Tire uma tarefa em troca de algo que ele goste, desde que ele ofereça melhoras no estudo ou no comportamento.
Seu marido é instável? Irascível? Insuportável?
Pense também na vida que ele tem. Ele trabalha no que ama? Sua profissão é o seu sonho?
Sabemos que é dificílimo conviver com uma pessoa cheia de potencial na adolescência e que hoje, dez, quinze anos depois é um retumbante fracasso. Ele destruiu seus sonhos por burrice, infantilidade, ingenuidade... Mas imagine; como será que ele se sente? Imagine o gosto amargo que ele carrega na boca 24 horas por dia. Imagine o sentimento que ele tem ao passar diante daquela rua, daquela escola, daqueles símbolos de sua derrota. Dói muito! Mas muito mesmo. E você o taxa de insensível; mas sua alma sangra. Sangra diariamente...
Já não é dor demais? Ainda que não pareça, é.
Aprenda a comer pelas beiradas, sem confronto, sem brigas. A primeira reação do seu TDAH foi dizer não, aí você briga. Não! Cale-se e pareça concordar. Depois, em outro momento, tangencie o assunto, fale levemente sobre as opções e deixe a tortuosa cabeça dele concluir aquilo que você quer.
Mude! bater de frente é derrota na certa.
Para ambos os lados.

sábado, 25 de abril de 2015

PENSANDO COMO UM TDAH


O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.
Fernando Sabino


Li com muito interesse um texto sugerido pelo amigo Walter Nascimento sobre as dificuldades do TDAH com as funções executivas. Preciso e cirúrgico, o texto aponta essas 'disfunções executivas' como o cerne do TDAH, no que eu concordo plenamente.
Ao discorrer sobre cada uma dessas disfunções, o texto mostra ter sido escrito por um não TDAH ao incorrer num erro primário: não pensar como um TDAH.
Pra não ser longo e chato vou abordar o primeiro ponto:
INIBIÇÃO: aqui abordada como contraponto à impulsividade, a inibição é aquilo que faria com que pensássemos antes de agir. E essa é, na minha opinião, a falha do texto.
Os portadores de TDAH pensam antes de agir, sim. Só não sabemos qual caminho seguir.
Eu sou uma pessoa até mesmo lenta para me decidir, peso mil vezes, analiso cada caminho, e sigo o errado.
Por quê?
Por que, na verdade, minha mente já escolheu um caminho e todas as outras opções - ainda que mais racionais e inteligentes - passam a ser cinzentas, esquisitas e inexequíveis.
É falso acreditar que não pensamos antes de agir.
Pensamos, mas nossa capacidade de raciocínio é toldada pelo nosso desejo; isso faz com que nossas opções sejam incompletas ou que deixemos de considerar todas as possíveis.
Depois que tudo deu errado, que nada (ou quase nada) pode ser feito, surgem novas ideias, enxerga-se novas alternativas. Mas aí, é tarde demais...
Somos passionais no sentido nelsonrodriguiano da palavra. Nelson Rodrigues dizia que: " Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé".
Pois é, somos assim. Não existe um meio termo na mente de um TDAH; não somos imparciais nem com a gente mesmo. Burlamos a nós mesmos, enganamos o bom senso e o equilíbrio em prol daquilo que nossa mente quer.
Já distorci dados pra mim mesmo para que tomasse o caminho previamente escolhido. Como assim? Simples, minha mente desqualificou dados ou informações importantes para que eu seguisse o caminho que queria.
Por exemplo: essa informação é inútil;  isso aqui, depois de implantado vai acontecer; a pessoa vai entender o que eu queria depois de pronto...
Mas não! Desconsiderei fatos e variáveis importantes; ignorei o óbvio. E me dei mal.
Não pensei? Pensei sim, de maneira desfigurada, de maneira passional, mas pensei.
Novamente parafraseando Nelson Rodrigues: "E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos".
Sim, consciente ou inconscientemente, só fiz o que quis. E pensei muito antes de fazê-lo.
Pena que na maioria das vezes me dei mal.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

QUANDO DÓI O TDAH...



Minas Gerais teve um governador-  Hélio Garcia - cuja procrastinação era vista como esperteza política. Suas decisões eram adiadas até o último dia; o último minuto, do último dia do prazo.
Até o dia em que ele se deu mal.
Inesperadamente, aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo político; quando não havia mais tempo para mudanças,  o Governador Hélio Garcia surgiu diante das câmeras e anunciou seu candidato à própria sucessão. Além de estar visivelmente embriagado, o então Governador surpreendeu o mundo político estadual com o nome do candidato que anunciou: um obscuro e medíocre deputado estadual que ele pretendia transformar em governador.
O mundo político mineiro veio abaixo, o tal candidato naufragou e acabou desaguando na candidatura do famigerado Newton Cardoso, de triste lembrança para Minas Gerais.
Mas afinal, o que é a procrastinação?
Procrastinação é a arte de 'esquecer' um problema na esperança de que resolva-se sozinho.
Procrastinar consiste em evitar defrontar-se com coisas, pessoas e situações desagradáveis, como se isso fosse possível.
Procrastinar é atirar um bumerangue de olhos fechados e torcer para que não volte na própria cabeça.
Procrastinar é burrice! Procrastinar é estupidez! Procrastinar é infantilidade!
E por que procrastinamos?
Por que somos doentes.
Por que temos uma deficiência de neuro transmissores que faz com que tenhamos atitudes infantis, impulsivas e inconsequentes. Uma doença que faz com que nossos cérebros trabalhem de maneira diferente do cérebro dos 'trouxas'.
Um cérebro doente que compraz-se em destruir a vida daquele que o alimenta, que o mantém vivo; daquele que ele, cérebro, deveria premiar, gerir e manter. Enfim, uma estranha autoflagelaçao.
Posso dizer - por experiência própria - que a procrastinação é fruto de uma mistura explosiva de sentimentos: o medo de que aquilo que se deve enfrentar seja grande demais; o sentimento de inferioridade que faz com que nos sintamos incompetentes em solucionar; a infantilidade de acreditar que não enfrentar é uma forma de solução; a necessidade de se auto premiar, simplesmente dando um foda-se para tudo o que é desagradável. A tudo isso soma-se nossa incontrolável capacidade de fantasiar que nos leva a projetar situações desagradáveis e constrangedoras que jamais se concretizam. Ou que não se concretizariam se tivéssemos agido a tempo e a hora.
E daí, qual a solução?
Não tenho uma solução. Nem a Ritalina ou o Venvanse , ou o Concerta solucionam isso.
A única coisa que sei é que não podemos nos torturar; não podemos nos punir; não podemos nos acusar. Em geral, somos as nossas maiores vítimas. O resultado de nossa procrastinação recai sobre nós mesmos, portanto, poupemo-nos.
Outra coisa inútil que posso afirmar: aprendamos com nossos erros! Essa é uma das características mais marcantes da doença: a incapacidade de aprendermos com nossos os próprios erros.
Levante a cabeça, você já está doído demais pra se repreender.
Poupe-se! Perdoe-se!
E siga em frente!
Se os 'trouxas' erram, nós temos salvo conduto para errar infinitamente...

sexta-feira, 17 de abril de 2015

TDAH NO ADULTO, CULPA DOS PAIS







Ai, ai... Existem assuntos que eu juro que nunca mais vou abordar no blog, mas aí leio um texto que me provoca...
Recebi um hoje no Facebook que passou das medidas, o título: TDAH, DOENÇA OU DOM?
Que festival de asneiras!
A autora, que não tem o nome mencionado, afirma que em seu ' trabalho com crianças ' dividiu-as em 4 grupos:
O primeiro, das chamadas Hiperativas, ela renomeou para: Crianças Divertidas e Amorosas. Não é lindinho?
Pois bem, a brilhante articulista, afirma que esse grupo não se dá bem em escolas estruturadas e que, não devemos rotulá-las, mas sim oferecer-lhes uma escola menos estruturada. Acompanhadas e estimuladas essas crianças se  tornam brilhantes.
Aí eu fico pensando: Você tira seu filho de uma escola estruturada e o coloca numa outra com menos estrutura, menos cobrança, menos exigências. Seu filho será criado respeitando sua hiperatividade, sua falta de foco, sua impulsividade, sua desatenção...
Só que um dia ele vai crescer, e vai querer ter um carro, uma namorada, uma casa, viajar, casar, enfim, ter uma vida normal. 
Qual empresa aceita um hiperativo, desatento, impulsivo e sem foco?
Você simplesmente não deu ' armas' adequadas pra que ele enfrentasse a vida de igual pra igual. Falar inglês? Bobagem, esses cursos são muito estruturados...
Curso superior? Meu filho não precisa, essas faculdades são muito estruturadas...
Pós graduação? Deus me livre, isso é coisa estruturada demais pro meu filho Divertido e Amoroso...
E ele vai pra vida competir ombro a ombro com pessoas altamente estruturadas. E vai perder...
Se for uma criança de sorte, nascida em berço de ouro, sempre terá uma herança pra dilapidar no futuro.
Se não, pode seguir carreiras menos estruturadas, tipo hippie, que faz bijuterias na praça; andarilho; se tiver um dom, músico de rua, pintor de rua. Nada acadêmico, nada estruturado...
Nem mesmo músico profissional, artista plástico ou atleta profissional; são profissões que exigem disciplina e muito trabalho pra atingir o sucesso. Coisa dessa gente estruturada...
Mas não se esqueça, se ele se sentir prejudicado, se ele se sentir despreparado, a culpa será sua. 
Se ele descobrir que tem uma doença tratável, não tratada, a culpa será sua.
Não tratar do filho é uma escolha dos pais, arcar com as conseqüências dessa escolha é inexorável.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O TDAH COMO ESCUDO






Desculpe-me, eu não posso pegar peso; tenho hérnia de disco.
Não obrigado, sou diabético, não posso comer doce.
Perdoe-me, amigo velho, mas não frequento mais bares. Sou alcólico e já estou a dois anos sem beber, entrar em uma bar seria uma tentação desnecessária.
Desde que infartei não assisto mais jogos de futebol. Você se lembra de como eu ficava nervoso, gritava, esbravejava? Pois é, uma final de campeonato pode me matar...
Todos são argumentos válidos, sólidos, incontestáveis.
Por que os nossos não podem ser?
Perdoe-me, agi por impulso, o TDAH agiu em meu lugar.
Hoje tive um dia muito improdutivo; mesmo sob tratamento não consegui me concentrar...
Chefe, você poderia me transferir para um ambiente mais tranquilo, menos barulhento? Esse maldito TDAH; fico muito disperso nesses ambientes barulhentos...
São argumentos válidos, sólidos, incontestáveis.
Mas todos nos criticam por 'USAR O TDAH' como justificativa.
Mas é justificativa!
Se eu tenho uma doença que deixa meu cérebro inconstante, meu comportamento imprevisível, minha memória prejudicada,  EU TENHO O DIREITO DE USAR A MINHA DOENÇA COMO JUSTIFICATIVA SIM!
A verdade é que nos envergonhamos de sermos TDAH. Eu inclusive. Falo sobre minha doença abertamente aqui no blog; mas na empresa onde trabalho ninguém sabe. Ou quase ninguém.
Por que?
Por que ninguém quer ser taxado de doido!
Ninguém quer ser doente mental!
E todos nós temos medo de perdermos os empregos, os clientes, os pacientes, os amigos...
Nós enfrentamos a vida de igual pra igual, mas com menos armas para o combate.
Sou péssimo em memória, péssimo em atenção, tenho enormes dificuldades em manter-me motivado, minha atenção é facilmente dispersada por ruídos e imagens. E ainda não há remédio que cure isso tudo. Existem paliativos que minoram algumas dessas características, mas nada muito significativo.
Preciso do triplo de energia pra superar as decepções normais de um emprego, de um relacionamento, de uma escola, por exemplo. Do nada meu ânimo se derrete e tenho vontade de largar tudo e fugir pra casa, deitar e dormir ad eternum. Sabedor de que isso é proveniente da doença, preciso reunir forças que nem sei se tenho e me impulsionar pra fora do poço do desânimo sozinho.
E sozinho - E EM SILÊNCIO - tenho que enfrentar todas os desafios da minha vida com menos armas, com menos qualidades, com menos requisitos.
E nem posso usar minha doença como escudo pois vão me taxar de aproveitador, de espertalhão...
Nossos parentes, nossos médicos, nós mesmos, precisamos criar coragem e sair desse gueto em que nos enfiamos e esfregar na cara da sociedade a nossa doença e as deficiências que ela nos trás.
Sei que tudo o que escrevi aqui não terá efeito prático imediato, mas joguei uma semente que poderá florescer em algum lugar, alguma mente corajosa que enfrente a sociedade hipócrita que finge não nos enxergar.
Quem sabe um terrorista da felicidade sabote essa hipocrisia e a bandeira do TDAH possa ser desfraldada sem vergonha!