sexta-feira, 24 de julho de 2015

TDAH SEM PASSADO OU FUTURO





Não me apego ao passado.
As casas em que morei.
As mulheres que amei.
Os caminhos que percorri.
As fendas em que caí.
As trevas que rompi.
Tão pouco me importa o futuro.
Se radioso ou sombrio.
Se alegre ou triste.
Se farto ou parco.
A mim pouco importa.
Um dia ele há de chegar.
E eu o enfrentarei; seja ele qual for.
Os mais afoitos imaginarão: Ah, ele vive o presente...
Que presente é esse que num átimo vira passado?
Que presente é esse que num instante é atropelado pelo futuro?
Um futuro que insiste em ser o oposto daquilo que sempre imaginei?
Não!
Vivo no meu tempo. Na minha realidade.
Pairo sobre a realidade como numa aeronave.
Uma aeronave que jamais aterrissa;
Que jamais toca o solo.
Um solo em que jamais andei...
Serei aquele que quase aterrissou;
Que quase andou;
Que quase viveu...

domingo, 12 de julho de 2015

TDAH, A LIBERDADE É A MINHA MENTE




Não me torture!
Não me lembrarei da dor. Em minha mente estará gravada a gola puída de sua camisa; ou a falta que sinto de assistir mais um episódio de Julie Lescaut.
Não me prenda!
Não me lembrarei da prisão. Em minha mente estará gravado o tamborilar da chuva no telhado; ou os ladrilhos mal assentados da parede.
Não me ameace!
Não me lembrarei do medo. Em minha mente estará gravada a música que toca ao longe; ou a manchete de uma revista de fofoca que vi na banca.
Não me abandone!
Não me lembrarei da solidão. Em minha mente estará gravada aquela repetição da Sessão da Tarde; ou a incrível viagem de um motoqueiro solitário pela Cordilheira dos Andes.
Não me explique!
Não me lembrarei de suas palavras repetitivas. Em minha mente estará gravada a teia de aranha no canto da parede; ou a necessidade que tenho de comprar carne moída.
Não me limite.
Não me lembrarei de suas muralhas. Em minha mente estará gravado o por do sol daquele entardecer; ou o receio de ver meu time jogar com apenas um volante.
Não me liberte!
Não me lembrarei da gratidão. Em minha mente estará gravada a graminha que brota na fissura da calçada; o em quão grande é a muralha da China.
Esqueça!
De nada vale me prender, me agredir, me torturar, me ferir...
Minha mente TDAH é:
Indomável;
Invencível;
Incontrolável;
Intratável;
Infelizmente...

domingo, 28 de junho de 2015

TDAH: VOCÊ ACREDITA NA SUA DOENÇA?






Acabei de ver no Esporte Espetacular a uma reportagem sobre uma atleta acometida por uma doença rara, fatal e incurável. O médico lhe deu dois anos de vida; há dez anos...
A repórter disse que a atleta luta diariamente contra sua doença, e tem dias que ela perde...
Imediatamente associei ao nosso TDAH. E fiquei a pensar: A moça não se culpa pelas derrotas; a moça não fica com raiva de si própria quando tem uma recaída. Porque conosco é diferente?
Simples, não acreditamos em nossa doença.
Menosprezamos nossa doença.
Esquecemos  por querer?
Procrastinamos por opção?
Não. Por algum curto circuito em nosso cérebro o que deveríamos lembrar é substituído por outra coisa; ou simplesmente desaparece de nossa mente. Que culpa temos disso? Nenhuma, somos vítima de nossos cérebros imperfeitos como os cardíacos são de seus corações doentes; ou os diabéticos de seus pâncreas que não produzem insulina.
Nosso cérebro falha; e ponto final! Não é distração, desimportância, irresponsabilidade, cretinice, infantilidade... Nada disso, nosso cérebro é doente e falha. Não temos culpa.
- Ah, mas você podia ter anotado, dirá um trouxa.
- É só você sair mais cedo, dirá um outro detrator qualquer.
- Isso é por que você é uma moça inteligente e aí relaxa; palavras que um pseudo psiquiatra disse à Letícia para duvidar de seu TDAH.
Mentiras! Melhor ainda, Sofismas!
Sofismas são mentiras formadas a partir de verdades.
Não anotamos por que somos TDAHs e nosso cérebro funciona de maneira diferente.
Não saímos mais cedo por que nosso cérebro tem sua própria maneira de processar o tempo, e não nos permite sair mais cedo.
Nós não relaxamos, nós somos doentes e pensamos e agimos sob o efeito dessa doença.
Não procrastinamos por prazer. Procrastinamos por medo. Medo do que pode acontecer ao enfrentarmos essa ou aquela situação.
- Mas é algo tão simples, dirão os idiotas da objetividade.
Simples pra você, oh cretino de concreto armado. Somos feitos de emoções, sentimentos e muitas das vezes eles nos paralisam. Mesmo sabendo que pode ser fruto da doença, haverá dia que não teremos forças para combatê-la. Nossa mente ficará avisando de que aquilo pode ser perigoso, que podemos sofrer, que pode ser arriscado. E nos paralisamos. E os dias vão passando. E o mesmo cérebro que nos avisou dos possíveis riscos agora nos tortura por que não efetivamos aquela ação.
E ficamos entre a cruz e a espada. E nos torturamos. E nos criticamos. E ainda contamos com as críticas daqueles que deveriam nos apoiar, estar ao nosso lado.
Mas não. Estamos sós. Portadores de uma doença invisível, sorrateira e incurável.
Uma doença que nos desclassifica, nos diminui, nos ridiculariza.
E o que fazer?
A atleta do Esporte Espetacular, Suzana creio ser seu nome, descobriu na natação em doses maciças uma maneira de paralisar, ou retardar os efeitos de sua doença.
A nossa eu não sei. Ritalina, TCC, Coaching, Auto conhecimento..
Não sei, e estou aberto a sugestões.
Ando ouvindo falar maravilhas da meditação. Será esse o caminho?
Pode ser, mas só chegaremos a esse caminho se pararmos de nos criticar a e a dar ouvidos aos idiotas da objetividade e aos trouxas que pululam a nossa volta.
Somos doentes, e como todos os outros doentes do planeta, não escolhemos essa doença; somos suas vítimas.

terça-feira, 9 de junho de 2015

O TDAH E NOSSAS VITÓRIAS




Temos o costume de nos apequenar diante do TDAH.
Sentirmos pena de nós mesmos. 
Valorizarmos nossas falhas e nossos erros. 
Nos jogamos no fundo do poço e por lá ficamos.
Mas isso é justo com a gente?
Estamos mesmo tão à mercê do TDAH?
Hoje conversando sobre isso comecei a pensar:
Quantas vezes ao longo da vida derrotei o TDAH?
Sim, derrotei-o inúmeras vezes...
Quando cheguei na hora...
Quando retornei aquela ligação...
Quando cumpri o que combinei...
Quando paguei minhas contas em dia...
Quando passei um bom dia com minha esposa...
Sim, são vitórias e vitórias significativas.
A cada dia de trabalho cumprido, a cada aparelho entregue no prazo ao cliente, funcionando perfeitamente é um nocaute que apliquei no TDAH. Ele se levantará novamente, mas estarei sempre ali esperando para enfrentá-lo. De igual pra igual.
Ao ser diagnosticado, o TDAH perdeu a grande vantagem que tinha sobre mim: minha ignorância!
Eu era sua vítima sem saber. Me deixava dominar sem luta, sem opor a menor resistência.
Hoje não, sabedor de sua existência o enfrento, duvido de sua verdadeira força e o derroto conscientemente várias vezes por dia.
Para um TDAH cada dia conquistado, imagino, seja como cada passo na recuperação de um acidentado que não conseguia andar.
Um dia de trabalho completo, em que cumpri o horário, produzi, entreguei aparelhos, estudei sobre outros que estão surgindo, lidei com clientes e fornecedores. Nossa, foi um grande passo, uma enorme vitória.
Claro, vou atrasar, esquecer, procrastinar, desfocar... Mas isso é o normal de um portador de TDAH. O resto, o que fiz de bom e produtivo foi vitória, vitória sobre o TDAH e ninguém pode me tirar isso. Ou desvalorizar essa conquista.
Ao infinito e além!

sábado, 30 de maio de 2015

O TDAH E A RESILIÊNCIA



Muito se diz hoje sobre a resiliência.
A resiliência no trabalho, a resiliência no ambiente acadêmico, a resiliência na vida...
Mas o que é resiliência?
Resiliência é ser TDAH.
É a capacidade de adaptar-se às novas situações; aos imprevistos; às surpresas.
E quem mais resiliente que um TDAH?
Somos construídos por uma sucessão de fracassos não compreendidos e por isso superados.
Isso mesmo: não compreendidos.
Por que superamos tantos fracassos sem nos entregarmos? Sem jamais desistirmos?
Simples, somos impermeáveis.
Na verdade nós não assimilamos os fracassos; não enxergamos a verdadeira gravidade da situação e a doença nos dá um olhar infantil sobre o futuro. Toda novidade é boa. Mudar sempre é legal e emocionante.
E seguimos impávidos diante da vida.
Muitos se impressionam com tamanha capacidade de superação.
Estão errados!
Não se supera aquilo que não se sente. Aquilo que não se tem consciência.
Nossa alma adolescente não se abate. Vinte, trinta, ou como eu, cinquenta e quatro anos, nunca é tarde pra recomeçar.
Lindo isso, né?
Não, isso é muito triste!
Não se aprende com aquilo que não se sente, que não se vive.
O TDAH segue impávido, mas repetirá exatamente os mesmos erros e fracassará novamente.
A alma adolescente tolda a visão do futuro e dificulta a compreensão de que todos precisamos preparar esse futuro. Ainda que a alma seja adolescente, o corpo envelhece, as forças declinam e em algum momento da vida elas se exaurem e não conseguiremos mais recomeçar. Aí sim, surgirá diante de nós o verdadeiro estrago da vida. A verdadeira tragédia para nós que não tivemos passado e por isso não construímos um futuro. E acabamos atropelados por ele.
Sem dinheiro, sem patrimônio, sem uma aposentadoria digna...
Restará cuidarmos de nossas mazelas nas filas do SUS contando as migalhas que caem das mãos mesquinhas da Previdência Social.
Ah, nesse momento a resiliência do TDAH mostrar-se-á invencível!
Caminhando nas frias madrugadas das filas do SUS, a alma adolescente continuará a vagar pelos campos ensolarados do TDAH, criando vidas perfeitas, momentos de glória e reconhecimento; inexpugnável à maldade governamental ou à vilania do ser humano e  só poderá ser derrotada ao extinguir-se definitivo da vida.
Isso sim é resiliência! O resto é adaptação...

terça-feira, 26 de maio de 2015

TDAH: EU QUERO ME CURAR?





Calma... Eu sei que TDAH não tem cura.
Ainda que tivesse, eu fico pensando: Será que quero abandonar meus devaneios? Minhas viagens à lua? 
Vou trocar meu refúgio pelo quê? 
Sei que ando com a cabeça nas nuvens e que isso é responsável por muitos dos meus erros. Mas como será viver sem isso? Como será encarar de frente todos os meus erros, tombos e falhas? 
Quero isso mesmo? 
A cada 'viagem' salvo a humanidade, salvo minha vida, escrevo livros e critico sábios e boçais. Como vou viver na mediocridade dos ' trouxas ' ? Como vou me ater a esse mundinho vil da realidade mesquinha dos pobres mortais? 
Como vou me conformar com a jaula mental daqueles que não almejam o prêmio Nobel; não almejam sequer um Oscar ou um Grammy? 
Não sei se suportarei tal quitinete mental. 
Como domar pensamentos e sentimentos de tal magnitude? 
Dirão os trouxas que isso é infantilidade. E é verdade. Dirão também que isso prejudica minha vida. E isso também é verdade. Dirão ainda que fujo da realidade. E ainda direi que é verdade. 
Mas essa força infinita do TDAH não virá daí? Desse sonho sem fim que nos alimenta? Não será esse o lenitivo de nossas feridas?  
Uma frase da amiga Ana Paula chamou minha atenção: A gente chora, distrai e esquece. 
Sim! Distrai é a  palavra chave! 
Enquanto os trouxas ficam remoendo a derrota, cultivando a dor, criando salvaguardas pra não cair na mesma esparrela, o TDAH não; distrai e esquece. 
E recomeça de novo. É, com pleonasmo mesmo. Recomeçamos tanto, mas tanto, mas tanto, que só o pleonasmo pra representar com exatidão. 
Sim, já sei o que dirão os idiotas da objetividade: Claro, você recomeça porque não aprende com os erros. 
Tem razão, mas a vida do Harry Potter rendeu seis ou sete filmes baseados em seis livros e arrastaram multidões aos cinemas e livrarias do mundo inteiro. 
A vida dos trouxas daria um livro de umas oitenta páginas e, no máximo,  um curta metragem. Que só a família iria assistir... 
Sei lá, acho que prefiro ter duas ou três lápides no meu túmulo a abrir mão das vidas que levo em minha mente. 

sábado, 23 de maio de 2015

TDAH: QUE DIABO DE DOENÇA É ESSA?

Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa (Guimarães Rosa)


Que diabo de doença é essa que me permite ter emoções fortíssimas, me leva às lágrimas; mas que não marcam minha alma?
Sou capaz de ir às lágrimas com um filme, uma notícia, um texto. Indigno-me da mesma forma. Mas estranhamente nada disso é duradouro. Esvai-se sem deixar vestígios. Nada fica. Nem a lembrança.
Que diabo de doença é essa que pode desaguar em explosões de ira diante de situações absolutamente pueris. Mas que desaparece sem deixar rastro. Não me serve de lição. Não me serve de aprendizado. Pode destruir pessoas. Pode destruir a minha vida. Mas se desvanece em minutos. Como nuvens...
Que diabo de doença é essa que me permite esquecer situações, pessoas, lições e vivências como se jamais as tivesse experimentado? Quantas vezes já me vi diante de aparelhos celulares abertos na minha bancada, olhando-os como se fossem novidades; mas sabendo já ter consertado mais de um daquele mesmo modelo. Criei um 'manual de instruções' por modelo para não ter de explorar tudo a partir do zero. Quantas pessoas repetiram diante de mim: Já nos conhecemos naquele local; naquele dia. E nada...
Que diabo de doença é essa que apaga da minha mente momentos inteiros da minha vida? Meu Deus, quantas vezes discuti negando veementemente ter dito ou feito isso ou aquilo. De nada valem os argumentos da outra parte: você estava sentado aqui; você usava tal roupa; você ainda falou isso sobre aquele fato. Nada! Absolutamente nada! Aquele trecho da minha vida eu não vivi!
Isso gera muita desconfiança das pessoas em relação ao meu comportamento; à minha honestidade; à minha credibilidade.
Nem sei quantas vezes fui taxado de egoísta; insensível... Certa vez, durante uma discussão em que eu negava peremptoriamente haver dito algo, minha ex esposa, desesperada, gritou: você está tentando me enlouquecer? É esse o seu objetivo?
Não era...
Mas eu tenho uma alma quase impermeável. Quase nada lembro... Quase nada aprendo... Quase nada guardo...
Em alguns casos, é positivo.
 Não odeio ninguém! Não guardo mágoa de ninguém!
Mas também não aprendo!
Repito os mesmos erros; sou enganado pelos mesmos argumentos; e me estrepo de novo... de novo... de novo... de novo...