domingo, 21 de dezembro de 2014

TDAH EM EBULIÇÃO







Já perdi a conta de quantas vezes assisti ao filme 'O Senhor dos Anéis'. Gosto tanto que me dei um box com os três filmes de presente num natal desses atrás. Volta e meia assisto novamente.
Ontem assisti aos dois primeiros filmes. E sempre descubro novidades - afinal são nove horas de filme e um bom TDAH não se mantém atento por tantas horas - e ontem não foi diferente.
Num diálogo entre Éowyn e Aragorn em que ela afirma não temer a dor e a morte, ele a questiona sobre o que teme:
- Uma gaiola - responde Éowyn
- Ficar atrás de grades até que o hábito e a velhice as aceitem. E a oportunidade de grandes feitos esteja além da lembrança e desejo.          
Um pérola do TDAH!
Mas sou assim, e odeio pensar em me conformar.
Sou uma metamorfose ambulante, e essa metamorfose me construiu.
Construiu uma personalidade complexa, mas riquíssima.
Uma vida recheada de dores, mas transbordante de emoções, prazeres e vivências.
Uma personalidade auto destrutiva, mas com um poder de renascimento infinito e cada vez mais forte.
Uma personalidade inquieta, mas inconformada. E essa talvez seja - na minha opinião - a melhor faceta do TDAH.
Explorei quase todas as possibilidades de uma vida. Já me meti em quase tudo, e não falo aqui de esportes radicais. Falo de vidas radicais.
Você se atira de bungee jump? Eu me atiro de empregos estáveis; mudo de cidade, de estado, mudo de emprego, mudo...
Irresponsabilidade?
Pode ser, mas afinal; o que é viver?
Acumular dinheiro?
Ou acumular experiências e sensações?
Ter uma velhice tranquila e estável, enquanto aguarda placidamente a morte?
Ou deixar que a morte me leve em meio à luta, ao desbravamento, ao descobrimento?
Já disse aqui que invejo as vidas tranquilas e lineares.
Só que não. Isso dura pouco. Minha alma inconformada, meu cérebro TDAH inquieto me impelem a arriscar, a sair do marasmo, da mediocridade, da linearidade.
Minha boca sente falta do sabor do desconhecido...
Minha alma anseia pelo temor do risco...
A sensação do novo, do imponderável, do inesperado...
Gaiolas jamais...
Anseio por novos ares... Novos mares...Novos lugares...
Vocês estão vendo um TDAH em plena efervescência, um TDAH sendo arrebatado por sua doença, refém dos seus piores sentimentos.
Cabe a mim domá-lo; devolver à minha mente a quietude e a tranquilidade que requer a vida de um senhor de 54 anos. Não sou mais um jovem adolescente que pode se dar ao luxo de chutar tudo pro alto e sair por aí.
Chega de ser refém dessa doença.
Minha aposentadoria está próxima. Pouquíssimos anos...
Posso esperá-la e depois vejo o que faço da minha vida...
Mas não!
Eu quero viver! E viver é risco!
Abraçado ao meu TDAH me atiro em mais um penhasco!
Dores sei que terei; mas já as tenho hoje, em plena imobilidade.
Arrependimento? Pode ser que um dia... Mas já tenho tantos outros pelos mais diversos motivos...
Mas e a descoberta? E a possibilidade?
Viver é isso, encarar as possibilidades.
Se existir uma única possibilidade, eu e meu TDAH estaremos aí.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O TDAH PARA O NOVO ANO





Sabe o que eu quero pra 2015?
Ser eu mesmo!
Com TDAH e tudo!
Quero dar de cara comigo em primeiro de janeiro próximo, e prometo não me deixar escapar.
Olharei em meus olhos e reconhecerei meus sonhos adiados ou abandonados. Verei em seu brilho as grandes coisas com que sonhei e permiti que a realidade as enterrasse vivas. Mas não permitirei que morram sufocadas. Sonhos são para serem perseguidos a vida inteira. A realidade não tem o direito de matá-los. 
Certamente o velho eu abraçará aquele que chega, mas em silêncio. O velho Alexandre não poderá contaminar o novo com sua dor, suas decepções e frustrações. Já basta o olhar sofrido e apagado com que fitará o recém chegado. Não! Não permitirei que fale, mas no abraço, aquele velho que parte levará no peito o calor da empolgação do novo eu. Seu calor cicatrizará feridas que ganhei ao longo desse penoso e interminável 2014. O velho eu caminhará sem sorrisos para o paraíso dos anos esquecidos; ou de triste lembrança. 
Mas o que muda com a simples mudança de um dia para o outro?
Nada!
Mas muda tudo!
Misteriosamente, inexplicavelmente nosso peito enche-se de esperança de mudanças e conquistas. Almejamos, sonhamos, planejamos, novas conquistas, novas atitudes, novos ganhos.
Eu não quero nada novo. Quero recuperar sonhos que permiti que a realidade esmagasse. Quero as cores da minha vida apagadas pelas dores desse ano insensível. Quero poder encarar a mim mesmo e me reconhecer.
Isso implica ser mais ou menos TDAH? Não, mas implica permitir que minha natureza TDAH seja mais respeitada, mais aceita, mais valorizada. Não falo aqui em abandonar tratamento ou mudar meu foco. Absolutamente... Apenas quero saltar da engrenagem que me esmaga e me pasteuriza. 
Continuarei meu tratamento, mas respeitarei mais minha natureza. Perseguirei incessantemente esse objetivo: deixar de ser aplainado; robotizado; esmagado; uniformizado.
Tenho de me reencontrar sob pena de perenizar a melancolia que paira sobre mim a algum tempo.
É isso!
Prometo ser eu em 2015!
Esquecido, sim; mas lembrando do que me é caro. Procrastinador, sim; mas não adiando minhas crenças, meus sonhos, minha vida. Sem completar projetos, sim; mas apenas aqueles não verdadeiros, aqueles sonhados por outrem pra minha vida. Falta de foco, sim; deixarei de focar no que me infelicita, ainda que escondido sob a capa de segurança ou recompensa futura. Alterações de humor, sim; mas de alegre para feliz; de triste para feliz; momentos tristes sempre existirão, mas ano triste nunca mais. Dificuldade de rotina, sim; mas dessa rotina massacrante da vida hodierna. Impulsividade, sim; muita impulsividade pra atirar pra bem longe as amarras da camisa de força da pseudo estabilidade. Pseudo estabilidade cujo preço é a alma cinza; cinza chumbo.
2015 surge como o sol que rompe dias de nuvens pesadas como chumbo; a noite que enfim começa a ser derrotada pelo amanhecer...
Seja bem vindo, ano novo! Te recebo de alma aberta!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O TDAH NÃO É PARA ESSE MUNDO






Os portadores de TDAH seriam diferentes num mundo diferente?
Os críticos do TDAH alegam - entre outras idiotices - que está havendo um excesso de diagnósticos, uma explosão de receituários de Ritalina, blá, blá, blá...
Essa tal 'explosão' não seria um mero reflexo do 'novo' mundo em que vivemos?
Sou péssimo sob pressão, nem um pouco competitivo e me descontrolo facilmente se preciso agir e pensar muito rapidamente...
E esse é o mundo de hoje; alta pressão, alta velocidade e altíssima competitividade.
Não é de se estranhar que os diagnósticos de TDAH tenham aumentado tanto. Uma doença que compromete a memória, o foco, dificulta o cumprimento de metas, a conclusão de cursos, a estabilidade dos relacionamentos, é absolutamente inadequada - quase incapacitante mesmo - numa época onde essas características são altamente exigidas e valorizadas,
Não basta ser formado, é preciso ter mestrado, especialização e ser fluente em, pelo menos, um idioma. Abandonei duas faculdades, me matriculei e abandonei  sei lá quantos cursos de inglês. E um de italiano que nem fui na primeira aula. Mas paguei a matrícula e uma mensalidade.  Ao bom profissional ainda é recomendado fazer uma atividade física, relacionar-se bem ( o tal de networking), bombar no Facebook (sim, isso também é considerado nas entrevista de emprego hoje em dia) e ser pró ativo, trabalhar bem em equipe. Todas,  características que não possuo. Odeio atividade física, sou muiiiiito preguiçoso; tenho tendência a ermitão, odeio networking; enchi o saco de Facebook e sou péssimo pra trabalhar em equipe. Pró ativo eu sou nos primeiros quinze dias, depois começo a procrastinar e tudo vai por água abaixo.
Num mundo mais light, minhas características típicas da doença seriam bem toleradas ou nem percebidas.
Como disfarçar a procrastinação num mundo onde tudo é pra ontem?
Como ser 'desmemoriado' num mundo onde devemos fazer mais a cada dia? Mais no trabalho, mais em casa ( como cônjuge e como pai/mãe), até como amigo temos que ser melhores, mais ativos, mais presentes. Como lembrar-se de aniversários, mimos, compras, compromissos... Aja Ritalina!
Os detratores do TDAH desconsideram tudo isso; o importante é nos agredir.
Mas a verdade, é que sem pressão a criatividade floresce mais facilmente. Esse blog, por exemplo, minha exigência de trabalho aumentou muito e acabei sacrificando os posts aqui nesse espaço. Até penso em escrever novos posts, mas me dá uma preguiçaaaaaaa....
Esse post que estou escrevendo, comecei ontem, e só surgiu por sugestão do Gabriel Valandro que comentou sobre o assunto no último post.
Acho que não somos dessa época. Somos de um tempo mais lento, mais tranquilo e mais humano. Um tempo onde o ser humano  era mais importante do que as empresas e a economia servia ao ser humano, e não o contrário.
A um enorme custo, vamos tentando nos adaptar a essa época de pressões descabidas. Ganhamos umas, perdemos outras; mas perdemos todos a possibilidade de sermos mais úteis ao nosso mundo, às pessoas e, principalmente, de levarmos uma vida mais plena e feliz.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O TDAH INQUEBRANTÁVEL








Não sei quem sou, nunca soube...
Não sou futuro; nem presente. Sou ausência...
Não sou coragem; medo muito menos. Sou liberdade...
Memória sei que não sou; nem tampouco esquecimento. Sou incômodo...
Sim, incômodo. Incomodo a você, incomodo a mim mesmo, incomodo à sociedade em geral. Essa sociedade que me ignora, que finge não me enxergar, que não quer me ouvir.
Mas eu grito, me debato, me imponho.
Me imponho com meu silêncio, minha reclusão, minha rebeldia, minha inconstância, minha volatilidade.
Quem não me engole, tem de me aspirar; quem não me tolera, tem de me carregar.
Estou aí, à volta de quem não me quer, não me acredita, não me respeita.
Minha vida errante, minha memória claudicante, minha impulsividade incontrolável, até agridem. Mas o que mais incomoda, é essa capacidade TDAHDIANA  de se restaurar, se reerguer, de renascer. A infinita - e talvez infantil - capacidade de sacudir a poeira, ignorar as feridas e os andrajos, e de cabeça erguida e sorriso no rosto, seguir o caminho.
Ao nos reerguermos com esse sorriso e de cabeça erguida, damos a eles o argumento de que, na verdade, somos um bando de cretinos.
Mas não, somos sobreviventes de nós mesmos, da nossa doença, da nossa auto destruição.
Ergo-me agora pela enésima vez; o coração que ontem sangrava, cicatrizou. A dor lancinante, desapareceu. O medo, dissipou-se. Uma nova vida nasceu. Sem exagero, cada amanhecer é uma nova vida para o TDAH.
Quem pode suportar tamanha visão?
Onde está aquele farrapo humano de ontem?
Jaz ali, onde o corpo esteve caído até ontem. Hoje não mais; hoje sou novo, resplandecente, confiante...
Ninguém de fora entende tamanha mudança. Mas você, que é igual a mim, sabe; sabe que a força está dentro de cada um de nós. Sabe que o TDAH que nos derruba, é o mesmo que nos dá força para nos reerguermos.
Enquanto isso, os trouxas choram e rangem os dentes.
Que fiquem assim, é o que eles merecem...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O TDAH E A ESCOLHA DA SOLIDÃO




A chuva que, finalmente, cai lá fora; uma velha música do Pink Floyd e o cachorro enrolado aos meus pés são minhas únicas companhias há dias.
Com a família viajando no fim de semana, me esbanjei na solidão. No domingo não troquei uma palavra com ninguém. Passei o dia consertando celulares e tablets, ouvindo música, assistindo TV e lendo.
Hoje, pensando em meu fim de semana, constatei que, ainda que eu more no mesmo condomínio a quase dezesseis anos, nunca entrei na casa de nenhum vizinho. Não tenho a menor simpatia por vizinho. Tremo de medo que eles tomem intimidade comigo e passem a frequentar minha casa. Isso seria uma tortura para mim.
Tenho um colega de trabalho que me ligava todos os domingos pra me convidar pra fazer churrasco na casa dele, essas coisas. Depois de mil e uma desculpas ele percebeu que eu não iria jamais e desistiu.
O maior problema é que sou uma pessoa extremamente sociável, simpática e de fácil entrosamento; isso faz com que as pessoas creiam que quero sair, beber, divertir. Mas sou sociável apenas superficialmente; para consumo externo. Invariavelmente saio do serviço e venho pra minha casa. Mesmo sozinho, venho pra minha casa. Não é que eu não goste das pessoas; até gosto, mas trocar a minha companhia pela de outras pessoas não tenho vontade.
Já falei muito disso aqui, mas esse comportamento é um dos que não consigo alterar nem com remédio. E minha opção pela solidão é tão forte que volta e meia surpreende a mim mesmo.
E não me sinto incomodado por ser assim, mas vem aumentando. Saio cada vez menos, participo cada vez menos de festas e eventos. Sempre prometo a mim mesmo mudar, melhorar, ficar mais sociável; rá, nada disso acontece.
Tenho dificuldade em compreender a vida dessas pessoas rodeadas de amigos, convites, reuniões; sempre desconfio de que são infelizes e estão ali por obrigação; para suprir uma incompatibilidade com eles mesmos.
Sabe aquela vida de propaganda de cerveja, cheio de gente risonha e feliz? Me parece isso: propaganda.
A companhia agora mudou de Pink Floyd para Rihana; reclamar de quê?
A chuva passou, o cachorro foi lá pra sala, mas a Rihana continua ao meu lado.
Cocaine, do Eric Clapton; estou em ótima companhia.
Ah, domingo uma das coisas que fiz foi mudar a aparência do blog. Parece que a grande maioria dos meus parceiros TDAHs nem notaram. Apenas o amigo Siege B. e um amigo anônimo perceberam. Mas mudou pouco, né mesmo? kkkkkkk
Não tem convite pra churrasco, festa ou comemoração que me faça sair de casa alegremente.
Vou; mas quando vou é quase arrastado.
Isso se eu não conseguir uma boa desculpa.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

TDAH: O EXTERMINADOR DE FUTUROS!





No jurássico ano de 1979, fui contratado para o meu primeiro emprego regular; carteira assinada e tudo.  Por tratar-se de um primeiro emprego minha empregadora inscreveu-me no PIS (acho que todos sabem o que é o PIS).
Sei lá por que, uns anos depois fui tentar receber os juros a que tinha direito, ou outro motivo qualquer que já não me lembro,  e tive o dissabor de saber que meu PIS tinha um erro de cadastro. Segundo o funcionário do extinto Banco Nacional o tal PIS estava cadastrado em meu nome mas os outros dados eram de outra pessoa.
Como eu ganhava mais de dois salários mínimos por mês, e não tinha direito ao abono anual - apenas uns juros que julguei ser uma mixaria - e me deu uma enorme preguiça de ir atrás desse assunto, abandonei a questão. Nunca preocupei-me com a correção desses dados.
Nunca tive direito a esse abono do PIS, mas sempre quando esse assunto surgia eu me recordava de que meu cadastro estava errado. Uma hora eu vou resolver isso, disse inúmeras vezes...
Um misto de procrastinação, desleixo e preguiça me impediram de solucionar essa questão; e o pior, sequer me informei para o que serve o tal do PIS.
Trinta e cinco anos se passaram e em agosto último decidi entrar com a papelada pra contagem de tempo de serviço pra aposentadoria.
- Engraçado, ela disse.
- Estranho... Não estou entendendo, falou pra si mesma a funcionária do INSS que me atendia.
Ao vê-la com aquele semblante de perplexidade misturado com estranheza, veio-me à mente todas as dificuldades que passei ao longo da vida quando se tratava de exercer um direito, um benefício...
Tudo meu é mais difícil; tudo. Mas tudo mesmo! Absolutamente tudo!
Pra encurtar a conversa: o tal do PIS é fundamental pra aposentadoria. Metade dos meus vínculos empregatícios estão em nome de outra pessoa. Claro, aquela pessoa que partilhava o mesmo número de PIS que eu, foi no INSS em 2004 e passou tudo pro nome dele.
Fui encaminhado à CAIXA para resolver esse erro. Ali fiquei sabendo que tudo que está ruim pode piorar. Primeiro, a CAIXA me devolveu ao INSS - isso é lá com eles, e de difícil solução disse a moça - segundo, quando me cadastrei no PIS ele tinha uma outra função que era um pecúlio a ser sacado pelo beneficiário quando aposentasse. Ou seja, perdi também esse benefício. Lá se vão mais de trinta anos, meu direito de requerer já prescreveu, blá, blá, blá, blá...
E eu sabia do erro  a pelo menos uns trinta anos. E não fiz nada para reparar. Preguiça, desleixo, desinteresse, soberba, burrice!
Ahhhhhhh, detalhe; a moça da CAIXA ainda me perguntou:
- O senhor deve ter aquela carteirinha do PIS? Se tiver em seu nome mesmo fica muito mais fácil de resolver; de provar que esse número de PIS foi seu um dia.
Claro que joguei a carteirinha fora. Não tenho a menor ideia de onde ela possa estar.
A funcionária da CAIXA ficou me olhando com aquela cara de:
- O senhor é louco, idiota, irresponsável ou o quê?
Se eu tivesse de menos mau humor, menos acabrunhado, menos deprimido, eu teria respondido:
- Nada disso, moça. Sou apenas uma vítima de mim mesmo; de uma doença que me faz ser assim e de quebra faz com que em  momentos como esse EU ME ODEIE!

domingo, 28 de setembro de 2014

TDAH: O ÓDIO E SEUS DESASTRES







Num momento se ama; no momento seguinte se odeia. E odeia a quem se ama!
É inexplicável!
O ódio não é da pessoa; é da oposição imposta por ela. O ódio é pela cobrança que ela representa. O ódio é interno por uma encruzilhada em que não se sabe em qual das mil opções escolher.
Não se culpe, mas não ceda!
Se você é o alvo do ódio, desmonte-o, desmantele-o; aceite a ruptura, o fim, e vá embora.
Nada de cenas, de choro, de desespero. Odiamos isso. Quanto mais rastejante mais desprezível.
Se tomamos uma decisão interna de ruptura, não tente nos impedir, não peça explicações, não implore para que desistamos. Jamais! Esses comportamentos destroem tudo aquilo que imaginamos previamente. Em nossas mentes conturbadas, nossa parceira(ou parceiro) vai entender nossas razões (i)lógicas e tão claras. A oposição a essas razões nos enchem de ódio, ira, fúria...
Não rasteje! Não implore! Não se diminua!
Odiamos isso!
Externamente, mantenha a calma e facilite as coisas. Provavelmente, e só provavelmente, esse comportamento desarmará a bomba interna que existe em cada um de nós.
Brigar também não é solução, é combustível.
Desarme a bomba!
O argumento clássico do TDAH é: não quero mais estragar a sua vida; ou, você não merece passar a vida ao lado de uma pessoa tão complicada como eu...
Aí está a chave: concorde. Mas com gravidade, com postura!
- Sabe, tenho pensado nisso e acho que você tem razão. Tá difícil demais, pesado demais...
Parabéns, você assumiu as rédeas da situação! Seu TDAH favorito, nesse momento, estará com aquela cara de cachorro que corre atrás do carro, e esse carro para. O que fazer agora?
Fácil, né?
Sei que não é, mas lembre-se do que estou dizendo: não rasteje.
Existe em cada um de nós uma dinamite sem estopim; um simples atrito detona-a imediatamente.
Quando decidimos dar um fim a um relacionamento, isso é fruto de semanas de tortuosos pensamentos embasados por um monte de sentimentos desconexos e confusos. Sentimentos de amor pela pessoa, cansaço daquelas cobranças, medo do futuro, vontade de cair na vida, saudade dos amigos, raiva pelo que a pessoa fez ou falou outro dia... Usamos (deliberadamente ou não) a chama de brigas passadas, ofensas passadas, gestos passados para assar aquele monstrinho sentimental. Algo que você disse ano passado é conectado com algo que você disse ontem e: BINGO! Achamos o motivo perfeito.
Mentalmente, os argumentos são irrefutáveis, perfeitos, magnificamente bem construídos. Seus argumentos contrários, principalmente se irônicos ou melhores que os nossos, são a chama que precisava para detonar a dinamite.
Seja fria(o), e aceite os argumentos; e principalmente, sinalize que estava pensando na mesma coisa.
O TDAH ai ficar com a pulga atrás da orelha.
Vai ser o céu no primeiro momento. Toda aquela oposição que temíamos ( e por isso adiamos a ruptura várias vezes) não existiu. Acabou rápido, de maneira indolor... Mais perfeito impossível!
Mas na manhã seguinte... Começaremos a imaginar por que acabou tão fácil, as razões de tamanho desprendimento. Enormes as chances de um auto exame, uma busca interna pelos erros cometidos. Quem sabe até mesmo bata um arrependimento e um pedido de desculpas e a promessa de que, dias melhores virão.
Se nada disso acontecer, desespere-se sozinha(o), chore na cama que é lugar quente; você nada poderia fazer para impedir esse fim - ele já havia acontecido a muito tempo em nossa mente - e o principal; você evitou uma briga horrorosa; se livrou de ouvir agressões absurdas (e em geral infundadas); se livrou da culpa de ser a única responsável pelo sofrimento e desespero do seu TDAH favorito; e pode ter certeza, manteve sua dignidade, o que não tem preço para sua auto estima.
Sinceramente, mais do que abrir meu coração, abri minha mente nesse post; refiz uma trajetória de dor e sofrimento ao longo de um sem número de rupturas que causei e o que escrevi aqui é um retrato da mente de um TDAH que se decidiu pelo fim. Leia atentamente e avalie se vale a pena expor sua dignidade, sua auto estima ao enfrentar esses momentos de ruptura com um TDAH. Talvez você saia com um sentimento de culpa por não ter lutado para manter seu relacionamento, mas creia, é muito menos pesado do que aquela que o TDAH lhe jogará na cara por tudo de ruim que você fez com ele ao longo do relacionamento.
Não aceite passar por isso, você não merece!





domingo, 14 de setembro de 2014

TDAH: DO AMOR E OUTROS DESASTRES





Pode parecer pessoal...
Você procura a culpa em suas atitudes, em seu comportamento e não encontra. Não há explicação, eu não tenho explicação. Não procure dentro de você, está dentro de mim.
Muitas vezes fugi de vergonha pelo que falei ou pela maneira como agi, noutras pra poupar você de aturar tanta inconstância. Esse é o meu mundo. Um mundo de dúvidas e medo, mas de certezas absolutas e atitudes inconsequentes.
As pressões, as exigências me desequilibram, me desesperam, tento agir dentro dos padrões, e falho. Sempre falho. Posso explodir por nada, absorvo-me em pensamentos sem sentido, valorizo o pueril negligenciando o essencial.
Penso e sinto em espiral, como um tornado: arrebatador, grandioso, capaz de te arrancar do chão. Mas, se você não se preparou, posso destruir tudo à sua volta.
Mas juro, não é pessoal; o que eu digo é verdadeiro; é o que eu sinto.Mas muitas vezes perco o controle da língua, das atitudes... me deixo levar pelos mesmos caminhos que já te fizeram sofrer. Mas eu também sofro, e duas vezes. Sofro por te perder, e sofro por errar de novo, da mesma forma; incapaz de enxergar que estava trilhando o mesmo caminho.
Não me julgue insensível ou frio se ao nos reencontrarmos eu parecer indiferente. É somente uma estratégia interna de sobrevivência.Preciso seguir, e seguirei. Minha mente se inunda de pensamentos balsâmicos pra que eu me anestesie de sua ausência. Mas tudo pode ruir se você disser a palavra certa, ou fizer 'aquele' gesto, aquele sorriso... Mas tem que ser ali, naquele exato momento, naquele lugar, do contrário...
Claro que sofro; perdi você... Mas já me perdi de mim mesmo tantas vezes; e sobrevivi...
Você também sobreviverá...
Essa é a vida: encontros e desencontros; rasgar-se e remendar-se, nas sábias palavras de Guimarães Rosa.
Minha vida é assim...
Adoro essa música que tá tocando agora... Me lembra um monte de coisa boa. Preciso sair... Encontrar gente...
Nossa, tenho que mandar lavar o carro! Acho que vou no shopping; lá eu lavo o carro, vejo um monte de gente bonita. Ah, posso até comprar aquele livro que eu vi a resenha... Como é que ele chama mesmo. Ô cabeça, meu Deus... Esse meu celular tá uma porcaria; acho que vou trocar ele hoje, agora. Tô meio apertado, mas eu mereço. Faço um sacrificiozinho, entro no cheque especial... Mas vale a pena!
É isso! Partiu shopping... Bora, celular novo...
E você já é passado...
Mas não é nada pessoal...

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

CARREGANDO A CULPA DO TDAH

                                                                         Henrique Oliveira



Tenho em mim todas as culpas do mundo...
Parodiando Fernando Pessoa coloco-me na exata situação do TDAH: da crucificação de Jesus ao desaparecimento daquele avião da Malásia tudo é nossa culpa.
Exagero? Jamais. Assim somos nós. O acúmulo de erros ao longo da vida nos enche a alma de cicatrizes e a mente de culpas. Muitas delas justificadas e merecidas; outras, completamente infundadas e ridículas. Mas não nos abandonam.
Lembro-me de coisas infantis, pueris até, mas que latejam em minha mente com a dor da culpa e do arrependimento. Uma palavra mal colocada, um gesto brusco de uma das pessoas credoras da culpa e pronto; aquela cicatriz volta a doer e a culpa ressurge mais forte e viva do que nunca.
Some-se à culpa, nossas projeções mentais que criam castelos de areia ou preveem catástrofes que jamais ocorrerão e que nos impede de verbalizar com nossos credores o que sentimos. E a culpa cresce como uma dívida de cartão de crédito. Sim, a juros cavalares e extorsivos.
Das poucas vezes que comentei esse sentimento com alguém, a pessoa sequer se lembrava do ocorrido. Minha culpa desmoronou inteira; quase acabou. Quase por que fica sempre a dúvida se ela não estava mentindo só pra me agradar. Embora ela não tivesse motivo para isso. Mas nunca se sabe né.
É, é assim mesmo.
Nada é sempre bom. Nada é exatamente o que parece, sempre existe uma dúvida que não permite à culpa morrer em paz.
E assim alimentamos esse sentimento paralisante e asfixiante que só cresce ao longo da vida. Chegamos à idade adulta com exemplares gigantescos de nossas culpas e vivemos tentando dribla-las ou deixá-las sob o tapete para que não nos incomode. Muitas delas ficam ali, quietinhas, latentes por toda a vida. Outras não, outras são ativas, gostam de aparecer e manter-se em evidência.
Por que isso?
Não sei, apenas imagino que a coleção de m..... que fazemos ao longo da vida ( e que temos consciência de ter feito) nos leva a armazená-las.
Ao saber-me TDAH perdoei-me de muitas coisas; de outras não consegui me livrar. Talvez uma terapia bem longa e profunda, ou mais uns anos de auto conhecimento me ajudem, mas tenho a sensação de que sempre trarei algumas culpas na mente, ad eternum.
Mas também, quem não as tem? TDAHs ou trouxas, todo mundo tem aquelas coisas guardadas nos porões mentais. A nós, resta a alternativa de encarar nossos fantasmas de frente e tentar separar os erros imaginários dos erros reais; os imaginários esboroar-se-ão; os reais, bem, esses são reais e cabe a nós conviver com nossos próprios erros...

domingo, 24 de agosto de 2014

TDAH: TEMOS UM DOM?





Dádiva. Presente recebido... de Deus!
Sim, talvez seja...
O dom do reverso. De enxergar a vida às avessas...
Cultivamos o dom de uma criatividade ilimitada, que borbulha em nossa mente de tal maneira incontrolável que atravessamos a vida acreditando que em algum momento seremos reconhecidos...
O dom de nos atermos à beleza do vermelho vivo do sangue que brota e não à dor que sentimos ao nos atirarmos pela enésima de vez de abismos e precipícios...
O dom de caminharmos sobre os escombros de nossas próprias vidas; impávidos; indiferentes; incólumes; e absolutamente prontos para a próxima queda; tão certos estamos de nossos infinitos reerguimentos.
O dom de nossa multiplicidade.  Multiplicidade de empregos; de amores; de recomeços; de objetivos; de fracassos; de tentativas...
O dom da amnésia. Não, não são essas pequenas e risíveis falhas de memória. O dom da amnésia consiste em esquecer as dores passadas; as derrotas passadas; os aprendizados passados e encarar cada dia como algo absolutamente novo e desconhecido...
A alma aventureira também é um dom. Gostamos de aventurarmo-nos. Esportes radicais são para os fracos. Aventuramo-nos com nossa própria vida; nosso presente, nosso futuro. Saltamos da modorra de uma embarcação segura para as delícias de corredeiras incontroláveis. Ah a adrenalina de uma vida inteira em risco...
O dom da visão de raio x. Ah coitados... Onde eles enxergam a dor e a destruição, nosso dom nos mostra o renascimento, o inusitado, o indomável; o inconquistável...
Cultivamos nossos defeitos com a dedicação e a disciplina dos obcecados mas vivemos, na verdade, de nossas superações.
Nosso dom não é a criatividade, mas de sobreviver à ela. De não permitir que ela nos afogue em imagens incontroláveis. Nossa memória ruim é uma dádiva que nos permite esquecer o que sofremos, dando à nossa alma a força dos que desconhecem o perigo e o sofrimento. Nosso dom está em rirmos de nós mesmos, de discutirmos abertamente nossa doença usando imagens de desenhos animados, filmes, músicas e toda a sorte de infantilidades que existem no mundo.
A vida é leve pra quem enxerga às avessas. Não é o objetivo, é o caminho. Não são as escolhas que importam, mas a  possibilidade do desconhecido. Não é a dor de um corpo que cai no solo, mas a delícia do vento nos cabelos durante a queda.
Isso é dom. Dádiva. Presente de Deus.
Aos 'trouxas' resta chorar as dores de uma mente vazia, linear e sem graça...

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O TDAH QUE FALA BALEIÊS





Sim, eu quero falar baleiês!
E quero o direito de esquecer, ou não me lembrar, sem dor.
Sim, e quero seguir a correnteza do TDAH e ir aonde ela me levar.
Quero rir de mim mesmo; quero me olhar no espelho sem culpa; quero parar de me acusar, ou de me arrepender.
Sim, eu quero falar baleiês!
E quero que as pessoas me entendam. Quero poder falar do meu TDAH sem que as pessoas desconversem.
Quero deixar de ser um problema, e passar a ser uma alternativa.
Quero passar a mão sobre meu corpo e ver as cicatrizes desaparecerem suavemente.
Sim, eu quero falar baleiês!
E quero muitas Dorys ao meu lado.
Quero que minha memória falha deixe de ser folclórica ou tragicômica, para ser apenas um momento normal na vida de seres humanos falhos. Como todos são.
Quero que o TDAH deixe de ser um rótulo, para ser um direito.
Sim, eu quero falar baleiês!
E quero renascer a cada queda, e ter ao meu lado quem me apoie e me ajude.
Quero poder ser eu mesmo, em casa, na escola, no trabalho, sem ter que me esforçar para encobrir as falhas que denigrem minha imagem.
Sim eu quero falar baleiês!
E quero parar de ter minha vida e minha conduta pautada pelos 'trouxas', que nada sabem de TDAH, que nada sabem de dor, que nada sabem de quedas, que nada sabem de renascimento.
Sim, eu quero falar baleiês!
E quero que o mundo me respeite.
Quero não, exijo!


domingo, 3 de agosto de 2014

ESTATUTO DO TDAH




1- Fica decretado que todo TDAH têm direito ao silêncio, ao recolhimento e à tristeza sem ser questionado.

2 - Fica reservado ao TDAH o direito de mudar de ideia, de caminho, de vida...

3 - É dado ao TDAH o direito a devaneios, elucubrações, sonhos e pensamentos delirantes a qualquer hora, a qualquer dia, em qualquer lugar.

4 - Fica decretada a extinção completa e absoluta da necessidade de decisões e atitudes imediatas por parte dos portadores de TDAH.

5 - É absolutamente proibida a definição de espaços, gavetas, armários, escaninhos, latinhas ou caixinhas para que o TDAH guarde seus objetos. Ou suas ideias. Ou sua vida...

6 - A partir desta data está descartada a necessidade do portador de TDAH aprender com seus próprios erros. Cada situação poderá, e será, encarada como absolutamente nova e original.

7 - É direito inalienável do TDAH a conquista do fracasso.

8 - É proibido divergir de um TDAH quando o mesmo afirmar ter certeza de algo.

9 - Fica decretada a desimportância dos detalhes valendo a vida do TDAH por seu entendimento generalista.

10 - É direito inalienável do TDAH exercer a preguiça em toda a sua plenitude e em todas as suas formas.

11 - Ficam extintas as retas. As curvas, voltas e retornos, passam a ser os melhores atalhos na vida.

12 - É garantido ao TDAH o direito ao isolamento sem que isso se transforme num fardo.

13 - O direito ao esquecimento se sobrepõe a todos os artigos dessa declaração.

Artigo final:
Fica decretado que todo portador de TDAH possui capacidade infinita de reerguimento. A cada renascimento surgirá uma pessoa nova; sem memória, sem experiência, sem cicatrizes, pronta para novos reveses e novos reerguimentos.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

TDAH: OS GRILHÕES MENTAIS DA PREGUIÇA





Só quem tem TDAH sabe o que é ser acorrentado pela preguiça.
Uma enorme tortura mental que paralisa, acorrenta, e impede a ação.
A mente de um TDAH é pantanosa, um enorme lodaçal de emoções e medo. Sim, medo. A preguiça no TDAH não é aquela clássica de não querer fazer nada. Não, em absoluto. A nossa preguiça advém de uma série infindável de pensamentos tortuosos e projeções negativas do que vem pela frente.
Se o que se avizinha é uma festa, logo imaginamos o ambiente tumultuado, barulhento, cheio de gente das quais não gostamos, assuntos chatos e inconvenientes. Se é trabalho, sempre imaginamos que não obteremos o efeito desejado, ou ainda que se o fizermos o chefe não vai reconhecer, ou simplesmente não saberemos executar com a perfeição devida.
Ou seja, criamos um medo do futuro.
Imobilismo é segurança.
Mover-se é o desconhecido, é a exposição, é o risco.
As vezes, a preguiça nos impede de fazer gestos mínimos, de dar passos minúsculos. Quem está de fora riria se soubesse o que deixamos de fazer por preguiça. Não é a preguiça física. Não, nossa mente boicota aquela ação, torna-a desnecessária, maçante.
Nesse exato momento, sobre a minha mesa, jaz um celular que molhou e não tem mais conserto. Preciso devolve-lo ao dono ( a quem já comuniquei ser insolúvel ) e já o montei. Na pressa, deixei de encaixar um alto falante na carcaça e acabei de me deparar com ele. A primeira reação? Dane-se, o celular não tem conserto mesmo...
Mas aí entra o combate à preguiça: Deixa nada, isso faz parte do celular e deve ir com ele. Devo perder de cinco a dez minutos para coloca-lo no lugar. Tenho que fazer. E farei.
Nossa mente forja motivos para não fazê-lo. Mas a consciência da doença deve arrebentar esses grilhões.
A procrastinação sofre do mesmo processo.
Os adiamentos se dão em função de projeções mentais de que aquilo que deveríamos fazer é chato, inconveniente ou vai trazer prejuízo, dor, perda... Mas nada é, necessariamente, real. Na maioria das vezes é pura criação de nossas mentes.
Nossa vocação para a auto mutilação, auto punição, é uma grande aliada da procrastinação. Quantas vezes sabemos das prováveis consequências nefastas da postergação, mas empurramos com a barriga e corremos o risco. E pagamos o preço por isso.
Preguiça, procrastinação, medo, paralisia...
E ainda dizem que TDAH é invenção...

terça-feira, 29 de julho de 2014

O TDAH E A PREGUIÇA






Bem, vão dizer que não escrevo a muito tempo por preguiça. Ou procrastinação. Mas não é verdade. Estou ausente do blog porque tenho lutado arduamente contra a preguiça. E isso cansa demais.
Chego ao fim do dia exausto.
Decidi mudar minha maneira de agir e trabalhar, e isso inclui um combate sem tréguas à preguiça e à procrastinação.
E tenho conseguido.
Adotei o principio de fazer tudo imediatamente. A morte da procrastinação e da preguiça. E matei-as. Sem a menor pena.
Descobri que é muito bom não adiar, não esmorecer e não ceder à preguiça.
A todo momento sou assaltado por uma enorme vontade de adiar, de desanimar, de fazer depois, de empurrar com a barriga. Mas não cedi até agora. Descobri uma enorme alegria de fazer imediatamente. Uma sensação incrivelmente boa de não dar direito aos superiores - ou mesmo aos meus funcionários - de me cobrarem algo que deixei de fazer, uma obrigação que adiei. Não, errei por outros motivos - todos nós cometemos erros - mas não mais por omissão, por preguiça ou por procrastinação.
Minha vida é marcada por omissões e adiamentos dolorosos e graves. Machuquei pessoas, machuquei -me, dei e tomei prejuízos enormes. Destruí grande parte do meu ' futuro promissor ' por procrastinações e esmorecimentos quando minha vida mais precisava da minha energia.
Com mais de meio século de vida e TDAH, sinto o doce sabor de decidir vencer a preguiça. Mas apenas no trabalho. No restante da vida continuo assaltado pela enorme preguiça e vontade de deixar pra amanhã.
Preguiça de gente, preguiça de sair de casa, preguiça de escrever.
E tenho que concordar com o Walter, ando adiando esse post.
Ainda que seja só no trabalho, viva a boa disposição e a coragem.

sábado, 19 de julho de 2014

TDAH: PAIS E FILHOS





Meu 'irmão' Walter Nascimento está em profunda dor. Segundo suas palavras, seu filho " muito TDAH, caiu". Pra quem não é portador, ou não convive conosco, cair para um TDAH é cometer erros típicos de nossas piores características: impulsividade, procrastinação, acídia (nome científico da preguiça), falta de foco, má memória, etc... Em geral cometemos os mesmos erros, aliás, essa é uma característica do TDAH que me esqueci de mencionar acima; não aprendemos com nossos próprios erros.
Não sei qual das falhas o filho do meu 'irmão' Walter cometeu, mas sei que ele pode se sentir um privilegiado. Seu pai, é um TDAH diagnosticado, um TDAH em tratamento, um TDAH com pleno conhecimento de tudo aquilo que seu amado filho está passando.
Lembra-se, Walter, de quantos tombos você tomou e teve de reerguer-se sozinho?  E pior, enquanto estava lá embaixo ainda tinha de ouvir as críticas de parentes e amigos?
Hoje, não; seu filho pode se sentir abraçado, acalentado, aconchegado e compreendido por um pai que sabe EXATAMENTE pelo que ele está passando. Ele não será bombardeado pelos pais, como você, eu e vários outros TDAHs  fomos; claro, a sociedade sempre cobrará um preço por isso. Mas ele não estará só. Nem você.
O TDAH deu ao Walter uma oportunidade de ouro de dar a mão ao seu filho, de aproximar-se ainda mais dele, de poder transmitir a experiência por ele vivida e mais ainda, de poder minorar a dor e o sofrimento do filho.
Nada disso elimina a dor de ver um filho em momento de frustração e decepção. Nada disso vai evitar que nossos filhos tenham recaídas e falhas em virtude da doença. Mas lembremo-nos: NÃO SOMOS CULPADOS POR TRANSMITIR A DOENÇA A NOSSOS FILHOS. O TDAH é uma doença biológica, e como tal está fora de nosso alcance impedir que seja transmitida a nossos filhos. Mas podemos exercer um papel fundamental; o papel de guia. Aquele que vai ensinar-lhes o caminho das pedras e evitar que repitam infinitas vezes os mesmos erros.
Claro, não conseguiremos sempre. É da doença uma certa 'atração' pela tragédia, pelo sacrifício 'consciente', ou atitudes que nos coloquem na posição de vítimas e coitadinhos.
Mas poderemos estar por perto; poderemos dar a mão sempre que precisarem.
Força Walter! Você hoje é o símbolo desse blog e sua dor o mote desse post; mas sei que , em breve, ambos, você e seu filho darão a volta por cima. Com certeza seu filho sairá mais forte e confiante, pois saberá que o pai é o seu guia e o ajudará a evitar quedas cada vez mais dolorosas e de consequências mais devastadoras.
Sua dor é a minha dor, a dor de todos os pais e mães portadores de TDAH e que veem em seus filhos a herança nefasta da doença. Não somos culpados; somos vítimas, tanto quanto nossos filhos; façamos da doença uma ponte para estreitarmos nosso amor e nosso relacionamento com aqueles que amamos.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O TDAH E A FAMÍLIA






O post anterior suscitou um debate interessante, um adolescente que se descobriu TDAH recentemente não sabe como contar à família. Como bom TDAH ele procrastina esse momento ao máximo, imaginando toda a sua revolta caso a família não concorde em leva-lo ao médico e trata-lo.Com o apoio do Walter Nascimento e do Léo Ribeiro, nosso jovem TDAH ,que se auto denomina Sail, está criando forças para contar aos pais que todos os seus testes (feitos na internet) deram positivo.Vou tentar dar minha contribuição.
Assim como quase todo adulto, descobri meu TDAH por acaso. Lendo uma revista Veja antiga deparei-me com uma entrevista da Dra. Ana Beatriz; e ela falava de mim, da minha vida, do meu comportamento, da minha alma. Eu estava na sala de espera de um advogado e sequer me lembro do que tratei com ele. Saí dali a mil por hora e mergulhei na internet, no livro 'Mentes Inquietas" e, em 24 horas estava no consultório da Dra Valéria Modesto, a quem devo, inclusive, a existência desse blog.
A família merece um capítulo à parte.
Ao contrário de outras doenças, o TDAH é convivível e bastante camuflado. Podemos ser taxados de 'avoados', 'irresponsáveis', 'preguiçosos', 'elétricos', 'mal educados', 'cretinos'... Enfim, podemos ser um monte de outros adjetivos, mas não 'doentes mentais'. Doente mental é uma pecha muito forte, uma tatuagem difícil de apagar. E pasmem, nossas famílias preferem os cretinos, preguiçosos, irresponsáveis, do que ter em seu seio um 'doente mental'.
Em geral, a primeira reação é a negação ou descrença. "Imagina, você é tão inteligente"; " não fala isso, nunca que você tem uma doença mental"; 'isso é invenção de médico pra ganhar dinheiro"...
Se você não chutar o balde, brigar e xingar, você pode ter a chance de convencê-los, de provar a eles que sua doença existe e você é um dos portadores. Todo aquele comportamento estranho, meio fora do eixo, tem uma razão. Nesse momento a emoção toma conta; choro, abraços e juras de apoio eterno; mas poucas famílias dão o passo seguinte. Poucas famílias dão o apoio necessário. Você receberá um crédito para provar que os remédios o mudarão por completo, mas não mudarão. Ao fim desse crédito, você continua igual - ou quase igual - e você fica devedor.
É você com você mesmo. Até por que é pesado, sacrificante; e muitas vezes frustrante. Ao contar para sua família que todos (ou a maioria) dos seus maus comportamentos tem origem biológica, seus parentes imaginam que com uma ou duas caixas de remédio você mudará da água para o vinho. Só que não! São pequeninos passos, pequenos e titubeantes; com retrocessos, quedas e repetições. A família não percebe as mudanças, às vezes, nem você percebe. E você e sua doença caem no descrédito.
Para não provocar uma cisão familiar o passo seguinte é o esquecimento; ninguém toca no assunto; ninguém te pergunta nada; e se você falar sobre, fazem aquela cara de paisagem e respondem com evasivas e muxoxos.
Prepare-se para contar à sua família; não brigue, não xingue, arme-se com seus testes, com sua paciência (que em geral é muito pequena), e até esse post, se você gostou e acha que pode ser útil. Mas prepare-se, nenhuma família está preparada para ouvir o que você vai contar. Ninguém quer ouvir, já se acostumaram com seu querido 'irresponsável' e ninguém sabe o que vai surgir depois do tratamento.
Mas, coragem; se é ruim com eles, sem eles é quase impossível.
Força; ao infinito e além!

domingo, 29 de junho de 2014

TDAH, POBREZINHO DESAJUSTADO...






Incrível como existem pessoas grosseiras e infelizes nesse mundo. Mesmo quando estão com a razão podem estragar tudo o que dizem com sua amargura, grosseria e preconceito. Recebi um comentário no meu último post cujo teor é aceitável até o ponto em que nos rotula de 'pobrezinhos desajustados'.
Esse rótulo infeliz denota preconceito, falta de educação, desconhecimento e ignorância de uma pessoa que escondeu-se confortavelmente no anonimato.
Concordo plenamente que nenhuma mulher (ou ser vivo) seja obrigado a aceitar ou suportar maus tratos, principalmente os físicos. Mas daí afirmar que nos 'escondemos' atrás do TDAH é uma agressão ignominiosa. Além da falta de caráter de esconder-se para vir num espaço dedicado ao debate franco e honesto, simplesmente para injetar seu veneno e sua estupidez, seu comentário só demonstra o atraso da medicina brasileira. Em qualquer país mais evoluído esse debate já foi ultrapassado sendo esses dinossauros do conhecimento já praticamente extintos e suas opiniões completamente desmoralizadas. Não aqui no Brasil. Aqui ainda existem pessoas mal intencionadas, ou simplesmente ignorantes, que se julgam no direito de tripudiar sobre o sentimento de outros seres humanos, simplesmente para defender suas ideias anacrônicas e nefastas.
Isto posto, vamos ao que presta desse infeliz comentário: não usei esse post ou o TDAH para justificar absolutamente nada; apenas relatei características existentes em grande parte dos portadores de TDAH.
Concordo com um outro comentário que credita esses ataques de fúria a outras doenças como bipolaridade, ou sei lá mais o quê. No meu caso, minha médica diagnosticou como Transtorno de humor. Mas andei pensando nisso, não acho que nossos ( ou meus) ataques de ira tenham a ver com as comorbidades (que claro, agravam todo o quadro) mas também com nossa absoluta incapacidade de lidar com pressões.
Aí entra o papel do parceiro(a). Ninguém é perfeito ou possui 'sangue de barata', mas o parceiro inteligente é aquele que não confronta o TDAH diretamente. Esse é o pior caminho, principalmente quando damos uma resposta impensada e imediata para um assunto que mereceria maior reflexão e análise. Se o(a) parceiro - não obrigatoriamente cônjuge, mas colega de trabalho e etc.- parar para analisar nosso comportamento, perceberá que damos uma resposta imediata, e muitas vezes agressiva, para muda-la mais adiante. Com um pouco de percepção e sensibilidade quem convive conosco observará que se deixar passar aquele momento, em breve estaremos aceitando argumentos e mudando nossas opiniões. Principalmente com a parceira, e aí falo por mim, é muito fácil conseguir as coisas, basta que seja com jeito. Confrontou, já era.
Só vim a perceber isso depois do diagnóstico.
Nesse último post tem um comentário de uma leitora que afirma que seu marido não mantém a palavra dada. Mas eu também não! Sou dado à bravatas no calor do momento que quase todo mundo que convive intimamente comigo sabe que não se realizarão. Mas podem se concretizar no calor do bate boca ou no momento da ira.
Acho que isso é inerente mais à nossa incapacidade de lidar com as pressões, de sentirmo-nos acuados, do que propriamente com um transtorno de humor. Desespero-me ao ver-me sem saída; ao notar que por mais que eu diga, a pessoa não me escuta; por mais que eu prove a pessoa não crê. Acusar-me injustamente é um fator desencadeador de um desespero que desaguará, fatalmente, numa explosão de ira.
Não estou justificando o injustificável. Apenas estou discutindo com cada um de vocês o que sentimos. Abro meu coração, minha alma, minha vida, para debatermos em alto nível os melhores caminhos para melhorarmos nossas vidas.
Mas, infelizmente, estamos sujeitos aos ataques dos boçais de plantão.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

MEU AMOR É TDAH! E AGORA?






Recebo sempre um monte de perguntas sobre qual a melhor maneira de se conviver com um portador de TDAH. A maioria, de namoradas em busca de um mapa da mina que as leve à paz celestial ao lado de uma pessoa que amam, mas que não entendem.
Vamos ao mapa da mina: se alguém tiver me mande, eu também não tenho.
Sempre digo a mesma coisa, ou quase:
A) Evite bater de frente com um TDAH. Na maioria dos casos não conseguimos discutir num nível elevado de educação e partimos para a ignorância; e quando começamos não temos limite. Ofendemos o 'oponente' até a oitava geração.
B) Não conseguimos conviver muito tempo sob pressão. Ou seja, até tentamos atender às exigências e pressões da pessoa amada mas, de repente explodimos. Imagine um cavalo dócil que, de repente, empina, corcoveia e atira seu cavaleiro ao chão. Sem nenhuma explicação aparente, apenas cansou daquela vida.
C) Tente respeitar os momentos de introspecção e silêncio de seu TDAH; normalmente estamos 'viajando' em nós mesmos. Apenas isso. Noutras vezes, podemos estar meio cabisbaixos, tristonhos, mas isso passa, em geral sem ajuda de ninguém.
D) O que gostamos, amamos; o que não gostamos, odiamos; simples assim. Tente respeitar isso, principalmente aquilo que odiamos. Uma ótima maneira de brigar com um TDAH é tentar obriga-lo a gostar do que odeia e vice versa.
E) Goste de emoções fortes; goste de andar de montanha russa, assim será sua vida.Não conseguimos viver linearmente, precisamos e procuramos emoções fortes e variadas. Isso pode ser através de sexo, esportes radicais, brigas conjugais, músicas, ou simplesmente mudar radicalmente de vida sem avisar à ninguém. Nem a nós mesmos.
F) Temos muitos medos, muitos mesmo. Podemos temer o futuro; podemos temer mudanças; podemos temer confrontos; podemos temer riscos. Mas caminhamos celeremente em direção a todas essas situações. Incoerência? Sim, bem vindo ao mundo TDAH. No capítulo confrontos, muitos de nós opta pela fuga, e deixa a namorada a ver navios desaparecendo por longos períodos, para um dia voltar como se nada tivesse acontecido, morrendo de saudades e amor.
G) Claro, somos complexados. Sofremos de forte sentimento de inferioridade. Dias hão que somos menos do que um pano de chão; esses são os dias bons. Os ruins, bem, nos ruins somos aquele caldo negro e nojento que sai do pano. 
Cuidado, frágil. Vá com calma, parecemos fortes e inexpugnáveis mas somos frágeis como cristal Bacarat. E valemos tanto quanto.
Por tudo o que disse você pode estar pronto pra fugir de seu TDAH amado, mas lembre-se: há algo em cada um de nós que não vai deixá-la fugir simplesmente. Já está enredada numa teia fina de amor, sedução, admiração, prazer, carinho e uma boa dose de surpresa sem a qual ninguém vive bem.
Não desanime, seu TDAH é complicado, volúvel, turrão, inconstante, mas acima de tudo é arrebatador!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A CURA DO TDAH






Um dos maiores sonhos dos portadores de TDAH, ou o maior sonho, é a cura definitiva.
Infelizmente, cientificamente isso ainda não é possível.
Ainda que você se encharque de remédios, faça terapia, faça coaching, a cura ainda não está ao seu alcance. O que a medicina e a psicologia conseguiram foi melhorar a convivência com o TDAH.
Mas isso é o bastante?
Aí está a chave da 'cura'.
Se o que você almeja é ficar igual ao seu irmão, ao seu pai ou ao seu marido ou esposa, desista; ainda não chegará lá. Mas você quer mesmo chegar, ser igual a eles?
A melhor forma de cura é você aprender a conviver com você mesmo. Aprender a se conhecer. Aprender a se respeitar e respeitar sua doença.
Mergulhe em você mesmo, conheça-se minuciosamente.
Em quais situações você procrastina?
O que dispara aquele desânimo quase paralisante?
Em que momento do dia você é mais disperso?
O que te irrita ao ponto da explosão?
Procure motivar-se.
Recentemente fui promovido no trabalho, conheço-me o bastante para saber que, se eu bobear, tudo vai por água abaixo. O que fazer? Faço tudo na hora, não adio nada, não empurro nada com a barriga. Mesmo aquelas coisas que são desagradáveis. Por quê?  Por que quero provar a mim mesmo que posso - com meu TDAH e tudo - vencer onde algumas pessoas 'normais' fracassaram. Quero me provar que, aos 53 anos, tenho força e coragem pra mudar o curso de uma filial que vai mal, e consequentemente uma vida que parecia sem solução.
E estou conseguindo. Mas chego ao final do dia esgotado. O blog é uma das principais vítimas dessa cansaço; diminuí muito minha presença nesse espaço. Mas estou me surpreendendo positivamente diante do desafio que aceitei.
Hoje eu tinha de intervir no comportamento de um funcionário; coisa detestável de fazer. Me dispus a conversar com ele logo ao chegar na empresa. Não o fiz. Quando percebi que estava procrastinando uma atitude que eu não podia deixar passar, chamei-o imediatamente e falei o que deveria ser falado.
Aquilo me fez bem, me senti aliviado. Se não o fizesse, a cada vez que ele repetisse o comportamento inadequado eu me repreenderia, mas adiaria de novo. Assim, resolvi de uma vez só.
Passo meus dias lutando contra minhas características negativas, mas minhas características positivas estão fazendo minha filial reagir diante das outras unidades.
Ao contrário da maioria das doenças, o TDAH nos propicia características que, se bem exploradas, bem canalizadas, podem ser úteis para nossas vidas.
Nossa criatividade, nosso hiper foco, nossa inquietude, nossa capacidade de improvisar, nossa capacidade de fazer mil coisas ao mesmo tempo...
Somos únicos, para o bem e para o mal. Mas se bem 'administrados' sobressaímos no que nos propusermos a fazer.
Deixe de lado o sonho de cura, a vontade de ser igual aos trouxas; admire-se, explore-se, usufrua-se e descubra todo o potencial de trabalho, de estudo, de amor, de vida que há em você.
Você vai se surpreender.
E estará muito próximo de se sentir curado!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O TDAH SEM NOÇÃO




Sempre imaginamos que a Ritalina ( ou qualquer outro medicamento) vai mudar nossas vidas, vai transformar-nos em dínamos de eficiência e perfeição. Mas existem várias facetas do TDAH em que os remédios não atuam.
Você tem noção de tempo? Eu não. Principalmente médio e longo prazo.
Sempre sou surpreendido pelas datas e eventos. De nada vale me convidar, ou agendar algo comigo com antecedência. Aliás, quanto mais antecedência pior.Trinta dias me parecem uma eternidade, algo tão longínquo... De repente, chegou! Fico louco.
- Meu Deus! Como já é o dia do evento?
Muita gente acha que é conversa fiada, afinal trinta dias são trinta dias aqui ou no Irã. Um mês. Mas a minha noção de tempo é diferente, acho distante, me mantenho relaxado e tranquilo. E os dias vão se esvaindo sem que eu perceba.
Depois de amanhã é o dia D, a data fatídica e inadiável. E eu nada fiz em relação a isso.
Avise-me em cima da hora e eu me manterei em alerta. Simples assim.
Mas não é apenas o tempo, o dinheiro é igual.
Ele tem o dom de acabar sem que eu perceba, de forma inesperada, sem um aviso sequer.
E ele acaba! Eu não sabia disso! Sempre achei que existia uma fada que repunha o dinheiro na minha conta. Mas não! Na verdade existem seres malignos que surrupiam lentamente pequenas somas de meu dinheiro, fazendo com que eu perca a conta.
E aí eu tiro um extrato. Claro que só tiro o extrato quando o saldo está nas últimas.
E num passe de mágica, todas as despesas ali relacionadas foram feitas por mim!
Isso é um absurdo!
Deveria existir muito mais dinheiro nessa conta!
Mas não há!
Os bancos são mestres em hipnotizar a gente para que acreditemos que fomos nós mesmos que usamos aquele dinheiro.
Dia desses quase tive um infarto; surgiu diante de mim uma despesa que eu não havia feito. E uma despesa alta, significativa. Claro, pensei na hora, clonaram meu cartão. Até senti um certo alívio. O banco vai repor o meu dinheiro.
Conferi de novo; função débito com a data da véspera. Eu tinha encontrado a razão dos meus sobressaltos, alguém vinha clonando meu cartão.
Qual o quê! Um raio caiu sobre mim iluminando minha mente: EU HAVIA PAGO UMA CONTA NA VÉSPERA, EXATAMENTE NAQUELE VALOR!
Fiquei mortalmente ferido. Eu não podia responsabilizar a ninguém.
Saí do banco esbravejando  e amaldiçoando meu salário, minhas despesas e a mim mesmo. E claro, ao TDAH, que nessa hora é ótimo ter algo para empurrar a responsabilidade.
De novo surpreendido pela absoluta falta de noção!
Até quando?

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O TDAH, A PERFEIÇÃO E O PERFECCIONISMO







Alguns dias atrás escrevi um post sobre a perfeição. Nele eu dizia que nós TDAHs não deveríamos almejar ou não almejamos a perfeição, mas sim o suficiente ou o razoável.
Não queremos a perfeição, queremos apenas concluir o necessário; eu disse naquele post.
Num dos comentários, um atento leitor chamou minha atenção para um post meu de maio do ano passado. Nele eu abordei o perfeccionismo. Aparentemente eu dizia o oposto do que disse acima. Mas não!
Quando eu abordei a questão do perfeccionismo, eu chamei a atenção para uma auto sabotagem em nossas tarefas, nossos sonhos. Para exemplificar: eu amo escrever. Tenho vários esboços de livros, para adultos e crianças. Um livro de contos inteiro; e um esboço, ou um rascunho de um romance que é minha grande paixão. Pois é, o perfeccionismo do TDAH entra aqui. Esse livro jamais estará pronto, nunca atingirá o ponto de me satisfazer por que eu sonho em ser prêmio Nobel de literatura; e não apenas escrever um livro. Eu quero ser um Gabriel Garcia Marquez e não o Alexandre Caldas Schubert, escritor iniciante.
Morro de medo de expor-me à crítica e ser mal recebido. Só publicarei o dia que estiver perfeito.Por causa desse comportamento, eu não saio do imobilismo para concluí-lo e muito menos tentar publicá-lo.
Assim é o perfeccionismo do TDAH. Não queremos ser perfeitos em nossos comportamentos, mas cobramos de nós mesmos a mais absoluta perfeição em tarefas que, de antemão, sabemos que não serão perfeitas. Com isso nos boicotamos, pois desistimos antecipadamente já que nossa meta é inatingível.
No post mais recente, o que quero ressaltar, é que se conseguirmos cumprir boa parte de nossas tarefas diárias  já nos daremos por satisfeitos. A grande maioria de nós TDAHs, já abdicou daquele sonho de cumprir TODAS as suas tarefas rotineiras, e ao fim do dia ainda lembrar-se do aniversário do amigo, de comprar a ração do cachorro e ainda comprar o desodorante da pessoa amada, que notamos já estava acabando. Aí já é a perfeição, e essa nós nem sonhamos.
Assim carregamos em nossa mente essas duas situações; somos ambos. O que um sonha, o outro boicota.
Apenas não decepcionarmos aos que esperam algo da gente, e principalmente a nós mesmos, já está perfeito!
Espero ter esclarecido a diferença dos comportamentos. Se ainda não estiver claro, alertem-me; tentarei explicar melhor, para que fique perfeito.


domingo, 25 de maio de 2014

O TDAH E AS PERDAS




Viver é perder!
A cada escolha pressupõe-se uma perda.
A cada passo adiante, deixa-se algo para trás.
A cada passo atrás, deixa-se de ganhar algo que viria adiante.
Alice, minha amiga do excelente blog: ALICE LUTA DIARIAMENTE CONTRA OS JAGUADARTES, retornou ao blog com um texto triste e sofrido. Perdeu uma amiga amada, mudou de emprego e cidade, afastou-se da família e dos amigos. Quanta perda...
Fiquei pensando nisso. Quanta perda; a família que ficou, o emprego que já conhecia, a cidade a qual já estava acostumada, isso sem falar na perda de uma pessoa amada que é insubstituível, mas nunca é por nossa escolha.
E estou me perguntando: Como escolher? O que é perda ou ganho?
Alice conseguiu um novo emprego, um novo desafio, novos horizontes e a possibilidade de novas conquistas. Mas como abrir mão das histórias e pessoas passadas? Largar tudo e seguir é um ato de impulsividade? Ou ficar e abrir mão de possíveis novas conquistas é um ato de covardia e medo? Largar uma pseudo estabilidade atual em busca de um sonho é irresponsabilidade? Abrir mão de uma renda maior para abraçar uma profissão que se ama, mesmo que isso exija sacrifícios financeiros da família é um ato de egoísmo?
Onde está a impulsividade ou o equilíbrio?
Onde está a irresponsabilidade ou o amor próprio?
Perder-se também é caminho, já disse a imortal Clarice Lispector. Linda frase, mas não passa disso. Vivê-la é outra história, como são quase todas as frases de efeito que tanto amamos. Belas frases que nos incentivam a correr atrás dos sonhos, mas não nos ensinam a colocar o feijão na mesa.
E aí eu pergunto: e agora?
Alguns caminhos se abrem em nossas vidas, mas o que é maduro, responsável e socialmente aceito pode não ser o que sonhamos quando colocamos nossas cabeças no travesseiro; ou sob o chuveiro, no meu caso específico.
Karl Marx submeteu sua família a privações seríssimas, mas mudou o mundo; James Joyce igualmente privou sua família de uma vida materialmente digna, mas mudou a literatura universal; Origenes Lessa narra uma história semelhante em sua obra O feijão e o sonho, em que um poeta idealista enfrenta a esposa pé no chão que exige dinheiro pra sustentar a família.Vale a pena ler.
Claro, não imagino que eu, ou a maioria das pessoas, vá mudar o mundo; mas mudar a própria história já é uma forma de mudar o mundo.
E aí retomamos nossa encruzilhada, o que é perder ou ganhar?
O que é impulso, maturidade, medo ou irresponsabilidade?
Viver é perder!
Mas será que não temos o direito de ganhar algumas vezes?
Temos o direito de alimentar nossos sonhos e nossas almas, ou somente cumprir as questões práticas da vida?
Saber-se TDAH nos coloca numa posição mais crítica, e portanto mais titubeante.
Seguimos o sonho ou o feijão?


sexta-feira, 16 de maio de 2014

TDAH EM FUGA DA VIDA...





Uma palavra...
Um gesto...
Um silêncio...
Pouca coisa, quase nada.
E nosso mundo desaba...
Pernas e braços adquirem um peso jamais sentido.
Mover-se é um desafio.
Parecemos viver em câmera lenta num mundo que segue a mil por hora.
O teto parece querer nos esmagar; até respirar parece difícil.
Fugir nos parece a única alternativa.
Mas fugir pra onde?
Fugir de quem?
E a vida? E as responsabilidades? E os filhos? E os pais?
E vamos nos arrastando.
O causador, ou causadores, daquele estado de ânimo deplorável parecem continuar flanando alegremente pela vida; completamente alheios ao enxovalhamento causado em nossas almas.
É isso! Na alma!Não é um desânimo apenas físico, não! A alma está ferida! A mente está entorpecida!
O que fazer, meu Deus?
Agrido? Emudeço? Aceito?
Um confronto titânico agita a nossa mente. Agredimos e podemos perder o emprego. Falamos umas verdades e os companheiros/ companheiras nos abandonam.
Recordamos que, da última vez que isso aconteceu, horas depois tudo parecia apenas um mal entendido...
O que fazer?
Fugir. Mas fugir só! Somos obrigados a conviver com as nossas tedeagazices; mas ninguém mais precisa passar por isso.
Mas, do que vale fugir se carregaremos na mente todos os grilhões que nos atam?
Não existe um lugar onde podemos nos esconder de nós mesmos.
Não existe uma porta, nem no fim do mundo, onde manteremos o TDAH do lado de fora.
E aí, desistimos de fugir. Aceitamos nossa miséria e seguimos nos arrastando pelo dia afora.
Uma música, um sorriso, uma recordação; e tudo muda!
Aquele humor enxovalhado, aquela alma miserável, aquela mente torturada, transmuta-se em frações de segundos em festa, em vida!
E o mais interessante: não percebemos esse contraste; sequer mudamos de forma consciente. Passamos tantas vezes por isso que acreditamos que todo mundo é assim.
Mas não!
Somos montanhas russas de sentimentos; caleidoscópios ambulantes; camaleões mentais.
E assim seguimos, entre altos e baixos, mas sempre com o frequente pensamento de fugir, de abandonar, de sair andando...
Pra onde?
Pra longe de nos mesmos...

sábado, 10 de maio de 2014

O TDAH NUMA EXPLOSÃO DE FANTASIA




Onde mora a realidade em mim?
Em algum pequeno escaninho de minha mente, penso eu.
De resto... Sou fantasia!
Em alguns períodos, chego a crer que a realidade venceu, derrotou a fantasia. Qual nada! Como fênix, a fantasia renasce e toma seu lugar em minha mente.
Não sou real, não nasci para a acre realidade. Minha mente é um caleidoscópio de inebriantes imagens, palavras e sentimentos desconexos, irreais, mas que se concatenam criando sonhos carnavalescos e luxuriantes. Ah, que alegria sentir minha alma invadida pelas imagens oníricas do TDAH. Um sentimento de alegria, quase euforia, me invade o peito.
Uma enorme vontade de sair correndo, abraçando a tudo e a todos.
O sonho me faz viver!
Aí dirá meu lado real: cuidado, isso é uma auto sabotagem!
Ao que responderei: auto sabotagem é a minha realidade; o meu trabalho; meu dia a dia.
Não vou me desconectar. Não é isso! Apenas terminei de ler um livro fantasioso, irreal e inacreditável, como eu sou. Como é o meu TDAH! Como é minha vida!
Minha vida é um conto de realismo fantástico!
Um correr sem começo ou fim, em meio a uma névoa rala que, se não me impede a visão, tampouco me permite reconhecer a vida em detalhes. Pouco consigo divisar entre a inocência e a malícia; ou entre o verdadeiro amor e a dissimulação; ou entre a verdade e a mentira; ou entre a desonestidade e a honestidade. Muito me prejudiquei por essa visão parcial da vida; parcial não, essa visão desfocada da vida. Uma vida de idas e vindas; uma vida de tensão infinita,em que jamais há paz; uma vida de sobressaltos; uma vida de derrotas intermináveis e vitórias surpreendentes e inesperadas. Uma vida cinza, com explosões de cores feéricas, que chegam quase a cegar. E retornam para o cinza...
Mas desconheço a derrota, minha coragem mora na fantasia de um ser invencível.
Também desconheço o desânimo, minha a alma é tingida pela fantasia de um ser feliz em si mesmo.
Caído, muitas vezes agrido a mim mesmo, critico-me, ofendo-me; mas sou inexpugnável! Minha têmpera foi forjada na fornalha da fantasia; uma fantasia de um ser eterno, de um Sísifo e sua interminável força montanha acima.
Ai, ai... Quantas vezes duvidei de mim mesmo, de meu caráter, de minha moral, de meus caminhos. Mas sempre, em meios aos momentos de treva, uma réstia de luz surgia e acabava por inundar o negrume com a luz mágica da fantasia de uma alma pura, inocente e boa.
Enfim, a fantasia salvou-me da realidade.
Abro os olhos e firo-me com a realidade, deixo minha mente mergulhar na fantasia e escapo...
É certo?
O que é certo?
Nenhuma realidade é melhor do que o sonho.
Realidade é rascunho do sonho.
E eu detesto rascunhos!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

TDAH - AMANHÃ SERÁ DIFERENTE...







Não sei por que me imobilizo.
Deixo-me parar e observar a vida de longe.
Cumpro com extrema responsabilidade e empenho com minhas obrigações. E só.
O resto, vejo seguir ao longe...
Já não participo da vida política, no passado participei de partidos políticos e campanhas presidenciais. Hoje não me imagino fazendo isso.
Não pratico esportes. Joguei futebol, lutei judô, fiz atletismo e natação. Hoje limito-me a assistir futebol pela TV. E só futebol. Já gostei de vôlei, desinteressei-me, fórmula um também.
Já passei fins de semanas inteiros diante da TV assistindo filmes. Hoje, quase não os assisto, desinteressei-me. Quando vejo, até gosto e penso em assistir mais; só penso.
Já fui extremamente sociável. Já tive a casa cheia de amigos. Saía muito. Hoje, não mais. Prefiro ficar sozinho, na minha casa.
Quebrar a inércia é quase impossível. Uma missão hercúlea, digna de um semi Deus.
Mesmo no trabalho, existem coisas que me paralisam, imobilizam...
Não consigo ser multifacetado, múltiplo. Pelo menos, não mais.
Não consigo muito me dividir entre pessoas; entre lugares; entre tarefas.
A vida se estreita, ou minha vontade se estreita.
Às vezes com um esforço absurdo, pressionado externamente, frequento alguns locais, faço algumas atividades. Mas é preciso muita pressão, muita mesmo.
O dia passa entre o trabalho e a casa; e a frustração por mais um dia sem conviver, sem dar minha contribuição, sem cuidar da saúde.
Mas amanhã...Ahhhh, vai ser diferente.
Com certeza?

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O TDAH EM QUEBRA CABEÇA




Como num quebra cabeça interior, milhares de pecinhas que se encaixam- ou não – formando um todo absolutamente incoerente.

Parte Vesúvio;
outra, lago dos cisnes.
Parte luxúria;
outra, religião.
Cabeça racional;
coração, explosão.
Olhos imperscrutáveis;
alma em exposição.
Mãos crispadas de ódio;
pés dançando de júbilo.
Coração apertado de medo;
peito aberto que enfrenta.
Raciocínio lógico;
atitude infantil.
Alma sangrando;
sorriso que brilha.
Olhar ao longe;
pés que retroagem.
A vida pela frente;
comportamento, destruição.
A vida destruída;
comportamento, ressurreição.
Onde todos se entregam;
levanto-me do chão.
Quando tolda-se a lua;
rompo o breu.
Quando vem a calmaria;
encapelo-me.
Quando tudo parece findar;
Reinvento-me.
Recomeço-me.
Reencontro-me.
Reformo-me
Reviro-me.
Retomo-me
Realimento-me
Renasço-me.

Enfim...

domingo, 27 de abril de 2014

TDAH ASSOBERBADO








Esta é a quarta tentativa de post de hoje. Os outros três tinham um cunho negativo e de auto flagelação por falhas recentes. E comportamentos negativos...
Mudei de ideia. Estou afastado do blog e me recrimino por isso. Estou afastado do sax e me recrimino por isso. Estou muitíssimo recluso e me recrimino por isso.
Mas por que estou assim?
Fui promovido na empresa em que trabalho. Estou em treinamento e avaliação nas últimas cinco ou seis semanas. Antes fazia um trabalho operacional externo, com liberdade e pouca cobrança; hoje, sou responsável por uma unidade da empresa e todos os problemas que isso acarreta. Interessante que na função para a qual fui contratado, não consegui o êxito que esperávamos, eu e meu empregador. Apesar disso fui promovido por minha dedicação, seriedade e, sempre segundo meu empregador, por ter vestido a camisa da empresa. Fui guindado a uma função muito mais abrangente do que a que exercia anteriormente, e ao contrario daquela, essa nova função me é desconhecida tecnicamente. Estou aprendendo, encarando um novo desafio na vida, enfrentando o desconhecido novamente. Isso requer dedicação, isso requer foco, isso requer empenho. Coisas muito difíceis para mim. Haja Ritalina. Haja vontade. E não está faltando nenhum desses requisitos.
Mais uma vez esse blog me ajudou. Comecei a escrever posts negativos e desanimados, posts de derrota, posts de auto recriminação, e descobri que afinal de contas, eu sou um TDAH em meio ao furacão de um desafio profissional; a conciliação disso com minha família, principalmente minha filha e minha 'namorida'. Ainda mantenho meu laboratório de manutenção de celulares em casa e dedico algumas horinhas noturnas à ele; tenho um sax que me chama e a quem pouco dou atenção; tenho esse blog que é de suma importância na minha vida. Fora isso são três irmãs, e graças a Deus ainda tenho pai e mãe. Claro, não consigo dar atenção a nenhuma delas no nível que merecem, mas me esforço. Não vou me auto flagelar mais. Tenho minhas limitações de TDAH e devo me respeitar por isso.
Ando falhando com muita gente, mais do que de costume, mas me perdoo por isso. E espero que essas pessoas me entendam. Minha ausência não significa de maneira nenhuma desamor ou falta de consideração. Apenas não consigo me desdobrar tanto assim. Preciso parar um pouco, respirar e aquietar-me.
Preciso disso pra não perder o eixo.




quarta-feira, 9 de abril de 2014

TDAH: PORQUE EU SOU ASSIM?







Esse post inspirou-se num comentário feito na página TDAH: VIDA ADULTA, no Facebook. Nela a pessoa comenta mais ou menos o seguinte: hoje eu não fiz absolutamente nada. Nem a Ritalina foi capaz de me fazer mover um milímetro. Me sinto frustrada. Porque eu sou assim?
Assim como?
Assim: preciso de gastar o dobro da energia, dos 'trouxas', pra completar tarefas simples.
Assim: gasto um tempo enorme desenrolando situações de vida em que me meti por negligência, desleixo, procrastinação ou desatenção.
Assim: surpreender-me ao cair num abismo que era precedido por inúmeros avisos, placas e sinais; mas que ainda assim caminhei a passos firmes em sua direção. E caí.
Assim: jamais conseguir se equilibrar financeiramente. Aparentemente sem nenhuma razão lógica; mesmo levando uma vida de monge trapista, meu dinheiro nunca dá.
Assim: irritar-me, quase diariamente, por ter esquecido coisas corriqueiras, e pior, coisas que se espera que eu faça de forma rápida e fácil.
Assim: acordar animadão, almoçar acabrunhado, jantar alegre e dormir irritado.
Assim: perder o foco ao menor ruído, assustar-me com barulhos que a ninguém mais afeta, desconcentrar-me com um simples farfalhar de folhas em uma árvore próxima.
Assim: querer desistir de tudo ao menor problema. Desmotivar-me sem motivo e encontrar forças nos piores momentos para levantar-me.
Assim: encarar um trabalho que fiz ontem, com um olhar absolutamente incrédulo; como se jamais tivesse feito aquilo na vida.
Assim: falar o que não deveria, a quem não merecia, na hora mais imprópria possível.. E arrepender-me ad eternum.
Assim: comportar-me de forma exemplar durante um longo período, e destruir tudo de repente, por um motivo fútil. Ou sem nenhum motivo. E arrepender-me ad eternum.
Assim: lutar ferozmente contra uma eterna insatisfação interior, que me move sempre rumo ao novo, ao desconhecido, ao abismo.
Assim: lutar ferozmente contra uma mente que tenta, a todo momento, escapar da realidade e viajar por Nárnia ou pela Terra Média, ou Hogwarts, ou simplesmente boiar no éter...
Porque eu sou assim?
Por que tenho uma deficiência na captação dos neurotransmissores. Só por isso.
Luto diariamente contra isso, na maioria das vezes ganho; mas dias surgem em que não consigo lutar contra a inércia ou a desmotivação. Nesses dias eu me perdoo. Faço o que posso contra o TDAH; me medico, me policio, me motivo, mas tem dias que nada disso funciona.
Respiro fundo, e continuo a caminhar. Amanhã será um novo dia, um novo humor, um novo Alexandre, um novo TDAH. Amanhã eu decido o que farei desse novo dia. O de hoje, o TDAH levou.

domingo, 30 de março de 2014

O TDAH EM BUSCA DA PERFEIÇÃO?







Você acorda de manhã com tarefas normais pra fazer no trabalho, com sua família e amigos e consegue vê-las concluídas ao se deitar à noite? Coisas normais, banais, corriqueiras? Se a resposta for sim, de novo, dou-lhe os meus parabéns, você não é TDAH. Walter Nascimento



Parece idiota, né!
Mas não é.
Coisas simples como telefonar para um cliente, para os pais, para os irmãos; ir ao aniversário de um amigo querido...Pagar uma conta...Cortar o cabelo...Dar parabéns ao amigo por telefone ou no facebook...
O dia nos enreda, o manter-se ativo e trabalhando toma conta dos pensamentos. Metade do dia é consumido em não deixar que o dia seja completamente consumido pelo TDAH. Boa parte das energias é gasta na hercúlea tarefa de manter a torrente de pensamentos mais ou menos focada no trabalho.
O pantanoso TDAH tenta nos sugar, tenta nos levar para o fundo.
Só quem tem, sabe como é complexo manter-se à tona.
Dezenas de anotações, esquecimentos, auto admoestações, auto flagelos, justificativas, tentativas de remendar o que deveria ter sido feito na véspera, arrependimentos inúteis... E o dia passou. O estoque de falhas cresceu, a culpa se multiplicou...
Não queremos a perfeição, queremos apenas concluir o necessário.
Algumas medidas eu tomei. Ridículas, algumas, mas medidas tomadas. Não parabenizo ninguém no Facebook e pessoalmente, só a família. Por que? Por que eu cumprimentava uns e outros não. Ficava ruim. Certa vez cumprimentei pelo aniversário de um amigo e dois dias depois esqueci o da esposa. Ela brincou, mas eu fiquei sem graça. Só brincou por que sentiu. Pessoalmente, eu já não cumprimentava mesmo. Passei a ligar para as minhas irmãs, quando não nos encontramos pessoalmente. E ponto final.
Dos amigos, vou confessar, eu desisti. E eles de mim.
Trabalho de oito às dezoito, à noite tenho a família, o sax, meus celulares, o blog...
Talvez se eu soubesse me organizar eu conseguisse administrar isso. Mas...
Então combinamos assim: quem tem TDAH, almeja o mínimo necessário para ser normal.
Quem não tem, busque a perfeição, tente ser o melhor, o mais perfeito, mas nos deixe em paz. Pare de nos cobrar o que vocês não atingiram. A melhor contribuição é: calar-se e cuidar das próprias vidas.
Não é revolta, apenas constatação!

quinta-feira, 27 de março de 2014

O TDAH E A EXPLOSÃO INCONSEQUENTE






De repente, uma estranha onda começa a subir por nosso corpo.
A cabeça lateja, martelada por incessantes perguntas: quem é ele pra me dizer isso? Quem ela acha que é pra me desafiar dessa forma? Cretino! Tá pensando que sabe mais do que eu?
Conter as palavras parece impossível.Ondas de impropérios batem contra os dentes tentando romper o silêncio que a boca fechada tenta manter.
As imagens vão perdendo a nitidez toldadas por uma cortina vermelha...
O cérebro parece que vai explodir: Quem ele pensa que é para interferir assim na minha vida? Que regrinha ridícula é essa que inventaram agora? Querem me tolher?
O coração acelera os batimentos e sobe pela garganta empurrando as palavras que tentam romper o silêncio.
Por trás da cortina vermelha seu patrão/esposa/irmão/mãe/pai/namorado continua falando incessantemente, já não podemos entender direito suas palavras, mas sabemos que doem como facas na alma.
Estranhas associações tomam conta do cérebro. Fatos e palavras de agora parecem se conectar com algo dito ou feito a anos, meses ou horas. Como o monstro do Lago Ness, a nova situação emerge aos poucos do fundo de nossas mentes pressionadas e torturadas. A silhueta gigantesca e cinza domina todos os pensamentos. As associações de passado e presente incharam o problema, pintando-lhe com as cores negras do ódio.
O prazer colérico da descoberta daquela bizarra associação - passado/presente- enche-nos de força e coragem: Então é isso! Desnudei sua alma e suas reais intenções!
Novas agressões verbais ganham força na boca, empurradas pelo coração que quer saltar do peito; enquanto que, por de trás da cortina vermelha da ira o monstro dança provocativamente.
Aquilo é o fim! Provocação tem limite!Tenho que me defender! Tenho que defender minha dignidade!
A boca mantida fechada com muito custo, abre-se, deixando passar uma torrente de ofensas germinadas no adubo de uma mente torturada e confusa. Reduzimos nosso 'oponente' a pó. Transformamos o monstro que dançava sob a cortina vermelha, naquilo que ele realmente é: um verme! Um mísero verme!
A enorme torrente reduz a pressão interna de nossas mentes; a cortina vermelha desanuvia-se aos poucos, o coração se acalma e retomamos a visão. Diante de nós uma pessoa estupefata, ofendida, incrédula, destruída, muitas vezes aos prantos.
Como um raio, nossa mente se ilumina e a razão volta.
Perdi meu emprego! Perdi minha mulher! Acabou-se o namoro!
Um torpor, uma enorme fraqueza, uma culpa gigantesca, toma conta de nossa alma.
O desespero da perda! A consciência da asneira que se acabou de cometer...
Começa a desesperadora tarefa de consertar o que se destruiu a poucos segundos.
Toda a nossa força, a força dos desesperados, nos lança na ensandecida tarefa de reparar os danos, muitas vezes irreparáveis.
Por quê?
Não sabemos lidar com pressões. Não sabemos reagir friamente quando nos sentimos acuados. Não sabemos lidar com críticas.
Claro, nem todos são iguais. Mas quase...
Muitas vezes consegui impedir as explosões conversando internamente comigo mesmo e me avisando: essa raiva toda é do TDAH. Esse desespero não é real, é da doença.
Mas nem sempre consigo. O tsunami das emoções rompe a barreira da sensatez e da racionalidade, levando de roldão tudo o que está diante de mim. Imediatamente a minha 'Cruz Vermelha' do arrependimento entra em ação para tentar salvar o que for possível dos estragos. Mas sempre fica aquela marca na alma de quem foi alvo de tamanha ira.
A luta é diária, é incessante, é árdua, é infinita. Mas ou nos mantemos alerta e em luta constante, ou acabaremos nossos dias sozinhos e corroídos pelo remorso.

terça-feira, 18 de março de 2014

O TDAH ADVINHADOR






Fiquei sem Ritalina esses dias. Duas semanas a zero.
Cerca de uns dez dias antes do carnaval pedi a minha médica que me desse uma receita de Ritalina; como sua agenda estava lotada, ela me propôs que eu pegasse a receita na semana anterior ao carnaval e agendássemos a consulta para quando ela retornasse das férias. Sim, ela iria emendar o carnaval.
Como até a semana do carnaval eu estava trabalhando em um bairro distante do centro da cidade, invariavelmente eu chegava ao centro e o consultório já estava fechado (isso eu depreendi pelo horário, nunca fui até lá ou liguei pra confirmar). Na quinta feira, ante véspera de carnaval eu vi que não conseguiria buscar a receita no horário comercial, e mandei um whatsapp pra minha médica pedindo-a que deixasse a receita na portaria do prédio que eu passaria num horário maluco qualquer e a pegaria. Detalhe, eu já estava sem Ritalina desde a a sexta feira da semana anterior. Pois bem, minha médica não respondeu ao whatsapp, nem sim , nem não. Logo, inferi que ela não havia deixado a receita na portaria do prédio. E não fui conferir.
Passei o carnaval inteiro sem Ritalina (mas tudo bem, não costumo tomar em feriados e domingos) e na quarta feira de cinzas retomei o trabalho.Duas semanas sem Ritalina. Que tortura! Do meu Facebook via minha médica na praia com a família; inclusive com sua secretária que eu tinha esperança de que fosse trabalhar e me entregar a receita. Ai meu Deus! Tive ganas de mandar mensagem no Face, no Whatsapp, perguntando se minha receita estava na portaria, mas um misto de vergonha por atrapalhar as férias e certeza de que não estava lá, me impediram de fazê-lo. Curti várias fotos de ambas na praia, quando o que eu queria mesmo é que elas estivessem trabalhando e me dessem minha receita que estava trancada no consultório. Não sei se o fato de vê-las na maior alegria na praia, enquanto minha felicidade estava trancada naquele consultório escuro e silencioso, piorou meu estado de ânimo. Eu estava um farrapo. Me arrastei a semana inteira, enquanto aguardava ansioso a segunda feira redentora. A segunda finalmente chegou, mas abarrotado de serviço não consegui ir buscar a receita; na terça liguei, ninguém atendeu; entrei em pânico: a doutora vai tirar um mês de férias, pensei apavorado. Liguei N vezes e nada. Na quarta feira não resisti, mandei novo whatsapp para a doutora Valéria: por favor, minha receita, vocês ainda estão em férias? Preciso da Ritinha desesperadamente...  kkkkkk fiz bastante drama. A resposta veio como uma bomba: uai, você não pegou sua receita na portaria? Está lá desde antes do carnaval. Fiquei alguns segundos aparvalhado. Não sabia se ria ou se chorava, se xingava ou fazia graça. E a dra. Valéria ainda me deu um tapa de luvas: Você sabe que eu não deixaria você sem receita.
A inevitável vontade enfiar a cabeça na parede. Mas logo foi substituída por esse post. Com a devida autorização da dra. Valéria.
Pois é, temos o péssimo hábito de tentar advinhar as coisas, as situações, os pensamentos e ações das pessoas. E não somos advinhos. Resultado? Nos estrepamos. Mas um dia aprendemos.Ou não.
Lembrei-me de um caso ocorrido a cerca de 20 anos atrás. Eu fazia um curso à noite e ao voltar para casa, imaginei minha que minha esposa poderia ter enchido a banheira de hidromassagem, e viajei naquilo. Cheguei em casa pronto para um banho de hidro a dois e tal, e ela estava dormindo. Que raiva!
Ao acordar e me deparar naquele mau humor, ela perguntou o óbvio: por que você não me avisou? Eu teria enchido a banheira! Não posso advinhar!
Pois deveria, pensei! E dormimos brigados aquela noite.
Pois é, imaginamos, criamos, advinhamos e, normalmente, erramos.
Ah, meu estado de ânimo estava de tal forma abalado que escrevi um mini post desesperançado e entregue que transcrevo abaixo. Até ficou bonitinho, mas além de deprê, era infundado. Ou inveja da praia da Dra. Valéria e da Wal.

Não quero estar onde estou.
Não quero fazer o que faço.
Não quero ser quem eu sou.
Armo-me de um sorriso raso,
De uma coragem de papel,
De uma alma emprestada,
E sigo a vida...
Mas preciso de uma escora;
Sozinho, não dou conta.
A Ritalina mantém essa frágil estrutura de pé.
Ah, mas quando falta, quando acaba...
Passo meus dias andando às tontas entre os escombros,
Tentando reconhecer num daqueles pedaços, um pedaço de vida que me faça sentido, um pedaço de vida que me faça seguir, um pedaço de vida que me faça vivo.
Mas basta retomar, para que o imenso quebra cabeça se refaça, e eu possa seguir minha vida...
Minha?
Não sei; mas a vida possível...

Até quando?