quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O TDAH QUE SE ACOSTUMA


                        


A gente se acostuma, mas não deveria...
A gente se acostuma a esquecer...
E porque esquece, se acostuma a ser criticado...
E porque é criticado, começa a se fechar...
E por se fechar, começa a evitar as pessoas...
E por evitar as pessoas, prefere o isolamento...
A gente se acostuma a procrastinar, a adiar o que teme,
depois o que é complexo, depois o que é simples, depois...
A gente se acostuma a perder... Perdemos o emprego,
perdemos a pessoa amada, perdemos o rumo,
perdemos a auto estima, perdemo-nos de nós mesmos...
A gente se acostuma ao tratamento; ou a falta dele...
A gente se acostuma a cair e a levantar infinitas vezes...
E por levantar, acostumamos à crença de que cair é normal...
E por acreditar  que cair é normal, a gente se acostuma ao TDAH...
E ao acostumar com o TDAH, a gente se acostuma a falhar...
E porque falha, a gente se acostuma a ser criticado...
E porque é criticado, a gente se acostuma a ser menos;
mas não merecia...

Inspirado no poema ' A gente se acostuma' de Marina Colassanti.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

TDAH, A VIDA À DERIVA





O primeiro título que dei ao blog foi esse: A VIDA À DERIVA. Era assim que eu me sentia na época, e é assim que todos nós já nos sentimos em alguns momentos da vida. 
Em vários momentos pensei em desistir... Mas como desistir? Não existe essa possibilidade na vida... 
Sempre recebo e-mails com esse sentimento. As pessoas se sentem perdidas, sem saber que rumo tomar, ou melhor, que rumo dar à vida. Exatamente como na foto acima, um barco sem remos perdido no meio do nada. 
E o que provoca essa sensação? 
A sucessão de falhas. Ao descobrir que cometeu o mesmo erro, por desatenção, por inobservância das regras, por não se ater aos detalhes, por não se lembrar de já ter vivenciado situação análoga, por ter adiado pela enésima vez... 
Ninguém avalia a sensação de mortificação. A enorme vontade de fugir para não encarar as pessoas. 
Mas a vida segue. Mesmo que não queiramos, ela segue. E estranhamente o último episódio não deixa cicatrizes. Certa vez um médico disse que a mulher tem mais de um filho porque ela esquece a dor do parto. É isso que vivemos; nos esquecemos da dor que sofremos na última falha. E por esquecermos, cometemos falhas semelhantes outra vez, e outra, e outra, e outra... 
E a vida escapa de nossas mãos. De longe observamos amigos e familiares que sabem conduzir suas vidas com tranquilidade e linearidade; com tamanha tranquilidade que estão preparados para possíveis reveses. Não nós! Jamais estamos preparados para nada. Nem para as situações mais previsíveis da vida. E somos surpreendidos pelo óbvio. 
E estamos desprotegidos, no meio do nada. Sem saber para onde ir; ou com que meios ir. 
Mas, mais um dia amanhece. De alguma forma aquela chaga aberta ontem amanheceu cicatrizada. Uma sensação de um sonho ruim pesa em nossa mente. Mas e a vida destroçada de ontem? Uma névoa cobre nossa memória e o ontem toma ares de um passado distante. Tão distante que não deixou marcas ou lembranças. E estamos prontos novamente. Prontos para repetir os erros; vivenciar o sabor amargo das derrotas; sentir a sensação de estar à deriva; e acordar como novo. Para errar de novo. 
E dirão os idiotas da objetividade: Todo mundo erra! Sim, mas as pessoas aprendem com os erros. Não os TDAHs, nossa vida se repete como naquele filme que a moça perdeu a memória em um acidente e a família repetia incessantemente o fragmento de vida de que ela se recordava. Mas, em geral, não temos uma família de filme, e sim pessoas que cobram e criticam a cada erro, jogando-nos no rosto tudo o que já fizemos de errado ao longo da vida. 
E vida que segue! E nela embarcados seguimos. Mas carregamos o singular sentimento de que ela também esta à deriva... 
Em tempo: Mudei o nome do blog por sugestão de minha médica, Dra Valéria Modesto, que não concordava com um título tão depressivo numa fase da minha vida que deveria ser positiva, de reconstrução. Rebatizei o blog por concordar com ela, mas ainda acho que A VIDA À DERIVA é muito mais fiel ao que vivemos. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O TDAH E A TRISTEZA ARTIFICIAL





Ela vem silenciosa e repentinamente... Os primeiros sintomas são os membros pesados... Um tipo de fraqueza muscular nos apossa que os gestos mais banais parecem um enorme esforço. A vida se torna uma inimiga cinza, densa e pesada. Até as pálpebras pesam. Tudo parece maior e mais difícil de se realizar.  
Esse torpor, esse desânimo, essa sensação de ter sido derrotado pela vida instala-se a partir do nada. Uma frase desconexa, uma lembrança, uma falha... Não existe um gatilho específico. Apenas algo desperta aquela sombra densa que recobre, repentinamente, nossas vidas. E o mais estranho é que, do mesmo jeito que surge, desaparece sem deixar vestígios. De um momento para o outro, aquela sensação de que você é o pior ser humano da terra desaparece. Sim, D E S A P A R E C E. 
E você não sabe como.  
Escrevendo esse texto, lembrei-me de ter essas crises de 'melancolia' na adolescência, e que passavam misteriosamente ao som de um samba de João Bosco e Aldir Blanc. Sim, um samba -tratamento.  
Cheguei a tomar remédio por isso. Inutilmente, diga-se de passagem. Depois que descobri que fazia parte do pacote do TDAH resolvi mudar minha convivência com esse torpor. Passei a reconhecê-lo e confrontá-lo. Por isso é tão importante o auto conhecimento. Você, de tanto prestar atenção ao seu próprio comportamento, começa a reconhecer onde termina sua personalidade e onde começa o TDAH. E aí você pode combatê-lo. E foi o que fiz. E faço. Basta que eu comece a sentir o gosto da derrota na boca, a semiparalisia do sentimento de inferioridade, que eu começo a me questionar: aconteceu algo objetivo para me deixar nesse estado? Se não aconteceu, o que é verdade na enorme maioria dos casos, eu entro na fase dois; o combate. Procuro pensar em coisas boas que eu tenha feito, músicas, coisas que li e gostei... Bobinho, né? E é mesmo. Mas funciona como um milagre. Esse estado, é um estado artificial, imotivado, não é seu, é do transtorno. E ele desaparece. Como por encanto...  
Claro, existem momentos concretos, provocados por problemas reais. Mas são minorias. 
O que faço é isso : 
Auto conhecimento. A cada reação, a cada sentimento, a cada decisão, pense e analise aquilo que viveu. Se você leu e se informou sobre o TDAH, vai começar a reconhecer onde e como ele age na sua vida.  
Enfrentamento. É tentar mudar aquele comportamento influenciado pelo TDAH. Não vai ser fácil, não vai ser sempre. Mas vai ser possível.  
Se não der certo hoje, vai dar amanhã ou depois. Só não pode é desistir. Aliás, lembrei-me de uma frase do meu amigo de TDAH Frank Slade - que sumiu como todo bom TDAH - O TDAH que nos derruba é o mesmo que nos dá força para nos reerguermos.  

PS.: Agradeço à amiga Fabíola, de Recife, pela sugestão do tema e do título.

sábado, 9 de setembro de 2017

TDAH NÃO É BRINCADEIRA!







Parece estar havendo uma nova e disfarçada campanha de desmoralização do TDAH. Pessoas bem intencionadas (ou não), andam divulgando possíveis características benéficas da doença para os portadores do Transtorno do Déficit de Atenção com (ou sem) Hiperatividade. Ora, isso é no mínimo desinformação; beirando muitas vezes a crueldade. TDAH é doença! Não existe nenhum tipo de benefício em doença nenhuma. O fato de existirem TDAHs de sucesso nada significa, essas pessoas alcançaram o sucesso APESAR do TDAH. E não graças a ele. Seria o mesmo que creditarmos à Esclerose Lateral Amiotrófica o brilhante trabalho científico de Stephen Hawking. Como o TDAH não causa alterações aparentes, nem físicas, nem comportamentais, uma grande parcela da população desacredita de sua existência ou de sua capacidade de causar danos em seus portadores.
Carregamos nosso inimigo dentro de nós mesmos, dentro de nossas mentes. Passamos a vida nos auto sabotando, abandonando projetos e pessoas, malbaratando o que ganhamos, vendo a vida escorrer entre nossos dedos enquanto colegas com muito menos capacidade intelectual constroem carreiras sólidas e vidas estáveis. Nossa criatividade e impulsividade são muito legais aos dezoito anos, aos quarenta começamos a nos dar conta do quanto estragamos nossa vida. Nessa idade enxergamos que nada fizemos com aquele dom ou habilidade que trazemos de berço. Faltou disciplina, faltou persistência, faltou coragem, faltou ânimo, faltou força para quebrar a inércia. Invertemos as prioridades da vida, aos quarenta ainda valorizamos o que outras pessoas abandonaram aos vinte.
 Nossas características podem parecer engraçadas, divertidas; mas não são! Sofremos ao constatar que perdemos a chave, ou o compromisso, ou a hora, pela enésima vez. Sofremos enormes sobressaltos quando algo sai errado no trabalho ou na escola; teríamos sido nós os culpados? E falamos ou fazemos sem pensar; e para consertar depois? Isso quando tem conserto; senão, arrastaremos a culpa por toda a vida.
A falha pode ser engraçada de tão grotesca. Ou seria se fosse ocasional. Mas não no nosso caso. Esquecemos porque nosso cérebro nos boicotou. Dissemos o que não deveria pois nosso cérebro não tem freios. Invertemos as prioridades porque nosso cérebro não sabe agir de outra maneira.
É engraçado para quem está de fora, nós sofremos genuinamente.
Nosso transtorno é muito sério e não podemos aceitar esse ridículo papel de bobo da corte que querem nos impingir.

domingo, 3 de setembro de 2017

TDAH:DESATENÇÃO, MEMÓRIA E DISCIPLINA.






Acabei de ver um post no Facebook indicando sete aplicativos para auxiliar a vida dos portadores de TDAH.
Uma iniciativa interessante, louvável, se não fosse por um detalhe: quem criou o post não é TDAH!
Quem é TDAH pleno, aquele de carteirinha, não consegue usar aplicativos com essa regularidade. Isso exige disciplina, determinação, memória... Nada disso nós temos.
Vamos lá:
Evernote: Conheço há anos, instalei umas três ou quatro vezes. Desisti. Você tem que pegar o celular, abrir a tela (pronto, já foi pro Face) , abrir o programa (se lembrar depois que sair do Face) , criar uma nova nota (se conseguir lembrar pra que diabos pegou o celular)... Chega! Já esqueci o que iria anotar. É chato, cheio de regrinhas...
Any. do: Lista de tarefas... Bem, para listar as tarefas eu preciso de lembrá-las. Segundo, eu preciso me lembrar de consultar o aplicativo. Terceiro, tenho que ter disciplina para a abastecer sempre que surgirem novas tarefas. Quarto, tenho que ter uma vontade férrea de não entrar no Face, Twitter...
Mobillis: Guia financeiro. Já instalei dezenas deles. Alguns cheguei a usar por semanas... Depois esquecia, retomava, esquecia de novo... Desinstalei. São complexos, chatos e exigentes. É inimaginável pedir a um TDAH que lance todas as suas despesas num aplicativo. Isso é anti TDAH por excelência!
Color Note: Até agora o mais útil. É um programa simples e direto. Sem muitas frescuras e exigências de páginas, colunas... Mas como todos os outros, só funciona se você se lembrar de usá-lo. Já o tive no Windows Phone; mudei de plataforma e esqueci dele.
Peak: jogos que aumentam a habilidade cerebral. Nunca usei, nem sabia que existia. Pode ser ótimo, mas não costumo ter saco pra jogar nada. Não posso dar palpite.
Wunderlist: Um super mega hiper aplicativo para listar tarefas. O melhor do mundo! Permite criar listas individuais ou em grupo, pessoais ou profissionais... Perfeito! Se você lançar os dados, se você lembrar de consultá-los, se você tiver disciplina para abrir o celular, o programa, nova lista...
Focus at will: Talvez o mais interessante, segundo a matéria são músicas desenvolvidas para aumentar a concentração. Muito legal! Aí no meio da música soa a notificação do Facebook... Já era... Ou do WhatsApp, pior ainda...
Veja bem, não estou dizendo que nada disso serve como ajuda ao TDAH, ou que nós não tenhamos solução ou ajuda. Nada disso, apenas quem elaborou essa lista não é, ou não conhece bem como funciona o TDAH.
Ao abrir o celular, abrimos a porta da desatenção. Face, Twitter, Instagram, WhatsApp... Tem que ser mega disciplinado pra não mergulhar nesse mundo e esquecer da vida. Nossa mente salta de um tema para outro, e para outro, e para outro, em fração de segundos. A desatenção é nossa companheira inseparável, não dá pra imaginar um TDAH com esse nível de organização e disciplina. Inclusive no post há um comentário que ilustra bem nosso comportamento :
A menina oferece uma alternativa gratuita ao Mobillis, ela comprou esse último para, só depois, descobrir que a versão pro permitia privilégios temporários. Ou seja, por desatenção ela não percebeu o que estava comprando.
Aplicativo para TDAH só vai funcionar assim: não precisamos de escrever nada, nem de lembrar. O aplicativo toma a iniciativa, a cada intervalo de tempo pergunta: fulano você já fez isso? Ou te cobra: fulano, você ainda não foi a tal lugar...
E os lançamentos feitos por voz. Lembrou no trânsito, grava que ele se vira para arquivar e te cobrar depois.
Deveria se chamar Memória de Mãe, ou de esposa, ou algo do gênero.
Existiu na plataforma WP, um programa de tarefas que cobrava sua execução. Se a pessoa não desse baixa na tarefa ele ficava triste, nervoso; cobrava inclusive por não estar sendo usado. Muito útil, mas desapareceu. Além do defeito de ter que escrever.
Volto a dizer, não quero detonar o post, muito menos os aplicativos, só acho que ajudam muito menos do que parece, pois exige que o abasteçamos de dados. E isto é muito difícil para um TDAH.



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

TDAH: DESATENÇÃO É MAIS QUE ESQUECIMENTO!




Desatenção é muito mais que esquecimento. Desatenção é olhar sem ver, escutar sem ouvir, ler sem entender...  
Escrevi um post semana passada sobre um novo sintoma que descobri sobre o TDAH. Até descobrir que foi desatenção minha, e não um novo sintoma.  
Eu tinha que entregar o celular de uma cliente e o coloquei na mala. Chegando ao destino não encontrei o celular entre as minhas coisas. Fiquei arrasado, na minha mente eu me via colocando o aparelho entre roupas macias para protegê-lo. Pensei, minha mente está criando situações. E escrevi sobre isso. Horas depois a namorada encontrou o celular dentro da mala, preso num canto. O nome disso? Desatenção!  
Certa vez, nos tempos de inflação alta, comprei um terreno; ao elaborar o contrato de compra e venda a vendedora alterou a cláusula de reajuste, eu li e não percebi. Devo ter lido pensando em outra coisa. Acabamos num desgaste danado, desisti do negócio até que ela voltasse atrás. E a alegação dela era de que eu havia lido o contrato.  
Quantas vezes ouvimos parcialmente, respondemos ao que ouvimos e o interlocutor entende a resposta ao todo que ele disse... E novo desgaste... Novas brigas... Novas discussões...  
Só me descobri TDAH aos cinquenta anos de idade, imaginem tudo o que passei por não saber o que tinha. Apenas era um sujeito absurdamente desatento, folcloricamente esquecido, irresponsavelmente impulsivo, incrivelmente egoísta, e outros desairosos adjetivos que prefiro omitir.  
Sempre digo que não se deve sair dizendo aos quatro cantos que é portador de TDAH. Principalmente no trabalho, afinal pode ser usado como arma contra a pessoa. Mas num relacionamento é fundamental a verdade. Eu falo na lata. Empolguei com a pessoa já aviso. Isso economiza bons desgastes. E ajuda a avaliar aonde estamos entrando. Se a reação da pessoa for negativa, pulo fora. TDAH não tem cura, conviver com quem não entende, ou não aceita é auto flagelação.  
Não se atentar aos detalhes é outra característica do TDAH. Pra mim faz parte, ou está intimamente ligada à desatenção. Falta paciência de ler aquilo tudo... Falta atenção para olhar em todos os desvãos... Falta ânimo para cobrar todos aqueles detalhes que ficaram para trás... Uma vida generalista, sem detalhes. A solução é se aliar a alguém oposto. Desde que este alguém goste de controlar e corrigir e aceite bem esse papel. Estando consciente de que a desatenção é fruto de um transtorno e não de negligência ou preguiça, é menos difícil de conviver.  
Estamos vivendo a época de respeito às diferenças. A mídia cobra novos comportamentos, mas venhamos e convenhamos, na maioria das vezes, é mais fácil conviver com o macro, do que com as micro diferenças do dia a dia.  
Desatenção, falta de memória, Impulsividade, fazem parte do nosso pacote de diferenças e devem ser reconhecidas e respeitadas. E devemos exigir isso. Como devemos fazer a nossa parte: o tratamento. TDAH não é muleta para continuarmos fazendo o que queremos. Não, é um transtorno tratável; e por amor e respeito a nós mesmos e aos que nos amam e convivem conosco, devemos tratá-lo.  
TDAH sem tratamento, em geral, quer salvo conduto para agir impunemente.  


sábado, 12 de agosto de 2017

O TDAH E A INSEGURANÇA MENTAL CRIATIVA



Oliviero Toscani, genial fotógrafo italiano revolucionou a publicidade mundial nas décadas de 1980/1990/2000, ao criar campanhas chocantes, instigantes e sensacionais. Toscani fotografou beijos entre negros e brancos, entre dois homens, duas mulheres, padre e freira; além de aidéticos terminais ao lado da família desesperada e vítimas das sangrentas guerras civis africanas. Se hoje muitas dessas fotos ainda provocam reações contrárias, que dirá há vinte e cinco anos. As campanhas de Toscani transformaram a marca de roupas Benetton em uma das cinco mais famosas do mundo, na época. Incansável, há cerca de sete anos criou uma campanha anti anorexia, em que fotos de mulheres anoréxicas nuas estavam em outdoors e revistas de toda a Itália,  e com isso,catapultou uma pequena empresa da região de Vêneto à fama mundial em poucos dias.
Mas isso é apenas uma introdução ao que ele disse; instigado pelo entrevistador, Toscani fala sobre criatividade e talento. Ao contrário do que se imagina, ele diz que talento nada tem a ver com ter ideias, o talento é intrínseco; a pessoa sente e faz. Não importa a crítica, a receptividade ou o sucesso; a manifestação é o mais importante.
Ainda segundo Toscani, a insegurança fomenta a criatividade; a segurança, o conforto, a estabilidade, ao contrário, é a geradora da mediocridade. E cita como exemplo as agências de publicidade, que segundo ele, são o paraíso da mediocridade e da falta de talento.
E daí? Daí tudo! Não seriamos criativos por que somos TDAH, mas por que o TDAH nos deixa mentalmente inseguros e instáveis, e nos propicia a incessante e quase inconsciente busca de novos caminhos, novas soluções, novas alternativas.
Seria o caos de nossas vidas o incubador de nossas mentes absurdamente irrequietas? Segundo esse gênio da fotografia sim. E faz sentido... No Brasil, nossa melhor música, nosso melhor teatro, nosso cinema mais revolucionário, surgiram no auge da ditadura. Tínhamos um monstro a combater, um medo a enfrentar, um futuro incerto a descortinar, um mundo desconhecido a desbravar...
E nós TDAHs? Temos a inquietude de uma mente que não para; temos a inconstância de sentimentos que nos assola; temos a impulsividade que nos impede de nos conformamos com nossos destinos...
A criatividade pode ser a válvula de escape dessa mente tortuosa, a fuga para mundos inexplorados, para soluções impensadas. Quem saberá?
Imagino nossa mente como um infindável redemoinho; pensamentos se misturam e se chocam, se sobrepõem e se complementam. Pulamos de um assunto a outro, de um tema a outro, sem nexo ou explicação. E de repente ela surge. Do meio daquele emaranhado de pensamentos surge uma ideia, uma inspiração... Mas, se não for anotada, esquematizada, salva de alguma maneira, instantaneamente, perder-se-á no redemoinho de pensamentos que não para de girar... E quantas vezes, inocentemente, não anotamos de imediato, confiantes de que nos lembraremos de algo tão impactante e genial? Qual nada, em poucas horas a ideia genial terá submergido no caótico redemoinho de pensamentos da mente TDAH.
Os não portadores imaginarão o desespero que ficaremos ao esquecermos de tão importante ideia. Claro, se nos lembrarmos do que pensamos podemos nos torturar, mas em geral ficamos com aquela sensação de havermos tido a grande sacada; mas uma névoa a encobriu e toldou; como um aroma que nos faz lembrar algo de que não sabemos ao certo do que se trata...
E o TDAH anestesia nossa culpa; afinal, essa ideia é apenas mais uma no armário repleto de esqueletos mentais que armazenamos em nossas existência.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

TDAH: ESTRATÉGIAS DE CONVIVÊNCIA





Uma leitora me pediu algumas dicas de estratégias de boa convivência com o marido TDAH.
É algo tão simples que não deu para respondê-la nos comentários, tive que fazer um post inteiro.
A primeira estratégia, e a que reputo como a mais importante, é o conhecimento!

CONHECIMENTO:
Conheça a fundo a doença do seu/sua parceiro(a). Se você conhece os sintomas do transtorno, saberá reconhecê-los quando se deparar com eles. Reconhecerá a procrastinação, a impulsividade, a desatenção, a falta de foco, a eterna insatisfação, a insegurança, a baixa auto estima...
Muitas brigas serão evitadas se você, não TDAH, passar a reconhecer nas atitudes de seu parceiro as manifestações de uma doença e não de seu mau caráter ou má índole. E o contrário também é verdadeiro, poderá flagrá-lo escondendo-se atrás do TDAH.

PACIÊNCIA:
Se um dos parceiros não é TDAH, é comum que ele se irrite com os sintomas mais agudos da outra parte, aquela que tem o TDAH.
A desatenção! Eu sou extremamente desatento. Talvez minha principal característica ao lado da procrastinação. Para quem não é desatento, o esquecimento das menores coisas, daquelas mais corriqueiras é irritante, eu reconheço. Esqueço constantemente de tomar a Ritalina, o remédio da memória. Por precaução coloquei um alarme no celular, mas aí atua a procrastinação; se estou fazendo algo quando soa o alarme, vou adiando-o infinitas vezes. Tão infinitas, que em alguns dias desisto de tomar pois o dia está findando e eu ainda não tomei. E desatenção não é apenas esquecimento; paguei a conta de água de Junho sem perceber que não havia pago a de Maio. Por pouco não fiquei sem água.
Haja paciência para aturar um marido/esposa assim. O ideal é que o cônjuge não TDAH assuma o controle dessas coisas práticas; contas, organização, funções executivas de maneira geral.

SILENCIAR:
Calar-se nos momentos de crise é outra estratégia interessante. Preste bem atenção, nos momentos agudos! Não estou pregando submissão! Nada disso! Mas o TDAH quando começa a discutir, brigar, não tem freios ou limites. Podemos agredir verbalmente da forma mais cruel ou agressiva imaginável. No calor da raiva dizemos o que não queremos ou não sentimos, só pela necessidade de vencer aquela briga. A melhor estratégia é deixar a fervura baixar e depois, em outro momento, abordar o assunto de maneira diferente, com calma... Em geral aceitamos as ponderações posteriormente.

ESPERAR:
Somos impulsivos, empolgados, vulcânicos! É comum demais na empolgação do momento fazermos propostas, sugerirmos ações, nos oferecer para ajudar, assumir responsabilidades... Coisas que nos arrependeremos (ou esqueceremos) horas depois. Já aceitei ser subsíndico do meu condomínio e me arrependi em menos de 24 horas. Calcei a cara e pedi demissão. Portanto, espere! Não acredite ou empolgue-se junto com seu TDAH. Se nos dias seguintes a proposta ainda estiver de pé, acredite.

APOIAR:
Não importa se temos sucesso ou não na vida, temos um forte sentimento de inferioridade e uma insatisfação interna que jamais termina. Nem a Mega-Sena, o prêmio Nobel ou o Oscar aplacam esses sentimentos. Os TDAHs de sucesso costumam se auto intitular como FRAUDES. Não é com você ou com sua família, é interno. Essa insatisfação nos faz buscar novos empregos, novos cursos, novos caminhos, ainda que estejamos bem na posição atual. Somente o auto conhecimento e o tratamento, podem amenizar esses sentimentos.

AMOR:
Muito amor! Sem a interferência do TDAH relacionamentos afetivos já não são simples, imagina com ele.

AMOR PRÓPRIO:
Se seu cônjuge tem TDAH e não quer tratar-se, não quer conhecer-se ou vangloria-se de ter o transtorno, use seu amor próprio e ponha-o contra a parede. Sem tratamento, sem relacionamento!Simples assim. Ninguém é obrigado a saber que tem TDAH; sabendo, ninguém é obrigado a tratar-se; da mesma forma, ninguém é obrigado a conviver com um TDAH que se recusa a tratar-se.

Claro que essas são dicas superficiais e genéricas, mas funcionam. Experimente aplica-las e verá!


sexta-feira, 28 de julho de 2017

VIVA A RITALINA!





Claro, os detratores da Ritalina vão cair de pau em mim. Aqueles que não acreditam no TDAH também. Mas quem, precisando, já tomou sabe a diferença que faz.
Minha namorada diz que o efeito da Ritalina transparece no meu semblante. Pareço até mais jovem. Achei divertido, mas exagerado.
Passei uma semana bastante complicada, problemas profissionais, decisões difíceis, expectativas por soluções que independem de mim... Ontem estava bastante cansado, desanimado.
Hoje cedo, ao abrir uma gaveta deparei-me com ela: a Ritalina. Só então me lembrei que não havia tomado sequer um comprimido essa semana. Mesmo tendo um alarme no celular para me lembrar, adiei, adiei, adiei, até me acostumar com aquele ícone na central de notificações do celular e nem consulta-lo mais. Tomei a Ritalina e comecei a trabalhar. Algum tempo depois senti necessidade de ouvir música. E liguei o som, coisa que não fazia há um bom tempo. Logo, logo, eu estava dançando ao som daquela música.
E deu aquele estalo! Como posso ter mudado tanto de estado de espírito de ontem para hoje?
Lembrei-me dela! Claro, andei sem remédio por vários dias. Bastou que eu a tirasse de vista e deixei de toma-la. Sem ela, caiu o ânimo, o foco, a atenção e a produtividade. Hoje já fui muito mais produtivo do que durante toda a semana. E o melhor: mais animado e alegre.
E isso serve também para tapar a boca daqueles que gritam aos quatro cantos que a Ritalina causa dependência, que é a cocaína legalizada e outras asneiras; fiquei vários dias sem tomar e não tive nenhuma síndrome de abstinência e nenhum efeito colateral. O que senti foi a volta dos sintomas do TDAH em toda a sua magnitude. Nada mais.
Claro que sei que cada pessoa reage de um jeito, como no uso de qualquer medicamento; por isso sempre deixo claro: não sou médico. Sou um paciente e relato minhas experiências.
E essa é minha experiência com a Ritalina. É positiva, mas não é milagrosa. Ao toma-la, não me transformo num super homem; nem os sintomas do TDAH desaparecem completamente. A Ritalina é um medicamento auxiliar no tratamento do TDAH. Existe ainda o suporte psicológico; o coaching, a meditação... Minha neurologista, Valéria Modesto, está trabalhando há algum tempo com Neurofeedback e Biofeedback. Uma espécie de mapeamento do cérebro e uma reeducação do paciente de acordo com o que os estímulos provocam no cérebro. Ainda não tive oportunidade de fazer, mas espero em breve conseguir me submeter ao tratamento. Segundo a Dra. Valéria Modesto esse processo pode até prescindir do uso de medicamentos. Espero chegar nesse dia. Mas, por experiência própria, suspender o uso do medicamento sem nenhum outro suporte de tratamento resulta em um enorme retrocesso.
Portanto; viva a Ritalina!
Em tempo: hoje, cheguei à conclusão de que minha namorada não estava exagerando.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

TDAH POBRE COITADO





Basta uma situação um pouco mais complicada, basta um pouco mais de pressão e o padrão mental se repete:
_ E se eu, no auge dessa pressão a que estou submetido, tivesse um infarto ou um AVC? Seria perfeito, todos os problemas cessariam...
Quem de nós jamais se fez de vítima que atire a primeira pedra.
Não digo que externamos essa vontade, mas no fundo, lá no fundo, flertamos com a tragédia que mude o rumo de nossas vidas; e claro, nos tire o peso da vida dos ombros.
Mas você que me lê vai dizer:
_ Ora, mas isso é infantilidade!
Claro que é. Mas essa é uma das características do TDAH: a imaturidade!
Estamos sempre sonhando com soluções mágicas; desde um acontecimento fortuito que nos dê dinheiro, sucesso ou juízo, até um fato trágico que nos livre de arcar com as consequências de alguma besteira que tenhamos feito. Vestimos com perfeição o uniforme do pobre coitado. Aquele cujas vicissitudes iniciaram-se ainda na concepção; e nascemos TDAHs. Daí para frente fomos 'perseguidos' pela vida.
Ahhh, a tragédia libertadora! Uma doença, um atropelamento, um incidente qualquer resolveria nossos problemas. Mas claro, sem morte ou dano físico permanente. Apenas o suficiente para que ao passarmos na rua, um conhecido diga ao outro:
_ Bom sujeito, mas coitado, a vida lhe foi tão ingrata...
Seria o céu! A solução mágica com que sonhávamos.
Mas veja bem, a magia não está apenas na solução da nossa situação, mas também em manter-se em padrões de sofrimento e incapacidade que não nos acarrete dor excessiva ou demasiado longa.
Claro que esses pensamentos são de curta duração e nenhuma consequência. Sabemos, do alto de nossa imaturidade, que esses são pensamentos escapistas e absolutamente inexequíveis.
E seguimos a vida!
E continuamos aos trambolhões, de derrapagem em derrapagem, de sonho em sonho...
Se nos enrolamos financeiramente... Se agimos impulsivamente... Se falamos o que não devia...
Tentamos solucionar, não conseguimos; a situação se complica... Vem uma espécie de paralisia, de torpor... Muitos de nós fica absorto, de olhos fixos no nada... E a cabeça é imediatamente assaltada por esses pensamentos... Por um, dois, três minutos aquilo nos parece a melhor solução. Mas passa. Sacudimos a cabeça e vamos para a solução... Se ainda tiver solução.
Se não tiver... Bem... Já tomamos tantas pancadas, já ouvimos tantas críticas, que mais algumas não farão muita diferença.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

TDAH INCONTROLÁVEL



Aos poucos a voz do palestrante vai desaparecendo e meus olhos apenas veem seus lábios se movimentando. Já não estou mais ali, pelo menos mentalmente. Começo a imaginar esse post enquanto assisto a uma palestra. Ocasionalmente volto e ouço fragmentos do que ele diz, suas próprias palavras tem o dom de me despertar a mente para outros assuntos.
E sigo divagando... Lembro-me de que sempre assisti TV fazendo outra coisa; antigamente lia jornal ou revista; hoje faço o mesmo através do celular. Mesmo quando assisto aos jogos do meu Botafogo, não consigo ficar ali, focado os noventa minutos. Assisto ao jogo, mudo de canal e consulto o celular o tempo todo.
Quase não assisto a filmes; prefiro séries. Mas não tipo minisséries que um episódio depende do outro; essas eu nem começo pois vou me esquecer de acompanhar e perderei meu tempo e o fio da meada. Gosto das séries em que cada episódio tem começo, meio e fim. Assim meu comprometimento tem apenas trinta, quarenta minutos. Cinema então... com meia hora começo a consultar as horas. Assisto, mas mudo milhares de vezes de posição na poltrona, consulto as horas cinquenta vezes e desgarro mentalmente  incontáveis vezes.
Como controlar os pensamentos? Ritalina ajuda; mas ainda assim deixa entreaberta a porta do guarda roupas que nos leva a Nárnia. Mas é melhor do que ficar sem nada. Aumenta o foco, diminui a dispersão, mas apaziguar a mente não apazigua.
Sinto diversos pequenos incômodos físicos que me fazem mudar de posição na cadeira, mudar a posição dos braços, das mãos, dos pés... Observo as pessoas à minha volta, suas roupas, seus semblantes, seu interesse nas palavras ditas diante de nós.
Volto ao palestrante. Por incrível que pareça interesso-me pelo assunto. Acompanho suas palavras durante vários minutos... Lembrei-me de minha infância quando eu ia brincar na rua e só voltava noite alta. Minha mãe zangava comigo perguntando se eu não havia visto que era noite, que a lua já estava no céu. Eu não tinha visto. Estava tão absorto nas brincadeiras que não percebera.
E o palestrante continua falando. Essa parte eu gosto e concordo com ele.
Olho de soslaio para o relógio na parede e vejo que ainda restam uns quinze minutos de palestra.
O primeiro tempo do jogo do Botafogo deveria estar no fim. Quanto estaria o placar? Quem nosso técnico mandou a campo? Teríamos novas contratações de jogadores?
Ele agora falou de algo que discordo, mas não posso dar minha opinião ou fazer qualquer pergunta. Ali não é hora ou lugar para isso. Penso que gosto muito mais das palestras onde se abre o debate, onde existe a possibilidade de perguntar ao palestrante. A coisa fica mais dinâmica, interessante...
Todos riem à minha volta. Alguém próximo fez um comentário engraçado, até o palestrante riu. Eu não ouvi o que a pessoa disse...
Eu deveria ter escrito este post imediatamente ao sair da palestra, não o fiz e agora está difícil me lembrar do que havia imaginado para escrever. De segunda até hoje um caudaloso rio de pensamentos e sentimentos percorreram minha mente. Mas a sensação de que me lembraria do que escrevi mentalmente durante a palestra de segunda feira, me acompanhou a semana inteira; nada mais típico do TDAH do que isso: apostarmos de que não esqueceremos mesmo sendo portadores de um transtorno que afeta diretamente nossa memória.
Eu preciso parar de apostar na minha memória; mas às vezes me esqueço disso.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

TDAH DE CABEÇA ERGUIDA









Volta e meia surgem comentários no blog contra a existência ou contra a necessidade do tratamento do TDAH.
Respeito a todos e não apago nenhum desses comentários, respondo-os e deixo muito clara a minha opinião. Hoje recebi um comentário sobre minha resposta num post anterior; nela o Anônimo dizia que o importante era viver a vida. Depois de 47 anos de sofrimentos descobriu-se TDAH e agora vive a vida de cabeça erguida.
Essa é a questão; de cabeça erguida!
Ser TDAH não desmerece ninguém, não condena ninguém, não diminui ninguém. Só torna nossa vida mais difícil e complicada. Em absoluto me envergonho de ser TDAH; se me envergonhasse não assinaria meu próprio nome nesse blog e muito menos contaria as mazelas da minha vida para milhares e milhares de pessoas. Não; muito pelo contrário, acho que ser TDAH valoriza a minha vida, minhas conquistas e minha trajetória. Supero as barreiras que todos enfrentam e mais aquelas que o meu TDAH me impõe.
Noutros comentários, as pessoas dizem que não aceitam serem rotuladas. Médico é um rótulo, advogado outro, cardíaco e diabético também, assim como rico, bonito ou simpático. Somos rotulados em tudo; o tempo todo. Não sou cientista para dizer o que vou afirmar, mas na minha opinião, se existem milhares de pessoas em todo o mundo que compartilham de sintomas semelhantes, que respondem de maneira semelhantes ao mesmo tratamento, por que temos um rótulo e não um transtorno ou uma doença?
Para mim ser TDAH foi um alívio, uma descoberta redentora. Quando me descobri portador atravessava um momento terrível da minha vida, me questionava como ser humano; meu caráter... O diagnóstico foi uma porta para me perdoar e entender os maiores erros da minha vida. E por incrível que possa parecer, graças a esse diagnóstico passei a escrever esse blog, escrevi histórias infantis, publiquei meu primeiro livro - AS AVENTURAS DE PANDY - O PANDA HIPERATIVO - e passei a enxergar minha vida de uma maneira completamente diferente.
Sou TDAH e isso não me desabona; mas ao contrário de uma outra ala, não me orgulho de sê-lo. Não! O TDAH não me diminui, mas também não me deixa orgulhoso. Ser portador de TDAH é uma característica. E só!
Sigo de cabeça erguida reconstruindo a minha vida e acreditando que a pior solução é a do avestruz: enfiar a cabeça num buraco fingindo que o TDAH não existe.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O TDAH COBRA A CONTA






Já escrevi, no mínimo, três posts sobre a necessidade de nos perdoarmos dos erros cometidos no passado. Em dezenas de outros posts menciono essa atitude como fundamental para um bom convívio com o TDAH. Mas tem momentos em que isso é muito difícil.
Meu primeiro registro na Carteira de Trabalho data de 01/03/1979. Exatamente, trinta e oito anos, três meses e vinte e três dias.
Nesse período o Brasil teve nove presidentes - um morto e dois depostos - seis moedas, retomou a democracia e as eleições diretas, ganhou duas copas do mundo, perdeu Ayrton Senna, Elis Regina, Gonzaguinha, Renato Russo, Cazuza... Perdemos o rumo e nossa identidade como povo;  conhecidos como uma população cordial, nos tornamos violentos e intolerantes. O mundo mudou demais em trinta e oito anos; foram quatro papas e infindáveis presidentes e primeiros ministros. Incontáveis guerras e conflitos, muitos deles em nome de Deus. Ou usando-o como desculpa. Tsunamis, vulcões, desastres aéreos... E o onze de setembro, a coisa mais absurda que já vi.
Confesso que cansei. Resolvi me aposentar. Não penso em parar de trabalhar, algo impossível para essa categoria no Brasil, mas mudar minha maneira de trabalhar. Trabalhar um pouco menos, sem o estresse de ter que trabalhar.


Eis que entro com meu pedido de aposentadoria e descubro que ainda tenho que trabalhar quase vinte anos mais para ter direito. Protesto, esperneio e o INSS descobre erros dele. A solução leva meses... Agora vai, tudo certo. Ainda faltam onze anos... Como assim? Novas escavações... Faltam sete... Isso foi ontem. Voltei para casa e fui vasculhar milhares de papéis que tenho do período de empresário. E levei um choque: entrei de sócio em uma empresa em janeiro de 2004, mas só formalizei essa alteração em julho de 2006. Ou seja, joguei fora dois anos e meio de tempo de serviço pois não recolhi o INSS como autônomo. Eu já tinha quarenta e quatro anos, não era uma criança imprevidente; era um homem de meia idade imprevidente. Imaginem como me senti ontem ao descobrir que fiz isso com minha própria vida. Perdi o chão, a vontade de seguir adiante. Pensei em virar andarilho, fazer pulseirinha de miçanga, sei lá... Qualquer coisa para desistir da vida formal e normal. Não pela aposentadoria, sou muito saudável e posso continuar trabalhando; mas pela auto sabotagem, pela auto imolação, pela absoluta irresponsabilidade com minha vida. Muitos desses hiatos não foram culpa minha; perdi o emprego em alguns casos...
 Mas nunca me preocupei com o futuro; jamais. Períodos grandes em que eu poderia ter recolhido como autônomo... Nada, vivia o presente. E só. E a conta chegou... E não estou conseguindo paga-la.
Claro, vou correr atrás de soluções, mas que se existirem, serão caras, lentas e difíceis. E a cada dia a mais perdido, vou exercitar minha capacidade de me auto perdoar, de transpor esse sentimento de raiva por mim... Até porque, não tenho como desvincular-me de minha vida e meu passado. E não muda em absolutamente nada o fato de eu não me perdoar. Eu vou superar! Mas que dói muito, dói...

sexta-feira, 16 de junho de 2017

TDAH: NINGUÉM MANDA EM MIM, NEM EU MESMO...

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A frase original e completa é : minha família já sabe, ninguém manda em mim. Nem eu mesma.
Essa frase dita por uma amiga é um primor de definição do TDAH. Ninguém manda em um TDAH. E não é por arrogância ou rebeldia, nada disso, apenas somos 'dirigidos' por nosso curto circuito cerebral. Podemos seguir as regras obedientemente por muito tempo. Mas um dia, sem nenhum aviso prévio, aquela regra que sempre aceitamos se torna uma afronta, um acinte. E não a obedecemos mais. Ainda que isso custe um emprego ou relacionamento. Nada impede a ruptura.
Nosso cérebro subverte nosso comportamento, nossas convicções e nossos sentimentos. De uma hora para outra. Falando assim os não TDAHs podem se assustar, mas estou levando a extremos. Em geral essas subverções são pequenas e se manifestam em comportamentos irritantes e inesperados para os parceiros não TDAHs. Claro que na maioria das vezes isso desagua em discussões e bate bocas.
Quando chega à ruptura, muitas das vezes o motivo detonador é irrisório ou desimportante. Um gesto, uma palavra, um comentário, um sorriso fora de hora... Qualquer coisa pode desencadear esse processo, com possibilidade de ser irreversível, doloroso e irreparável.
Quantas vezes nossa mente é assaltada por pensamentos que nos insuflam a agir, a seguir adiante, a responder, a contra atacar... E seguimos esses pensamentos que muitas vezes nos levam a ultrapassar os limites do aceitável. Ao seguirmos nossa mente nos transformamos em pessoas instáveis, inesperadas e surpreendentes. Nem todo mundo gosta ou suporta conviver com isso.
Por isso é tão importante o tratamento e o auto conhecimento. Ao tratar-se, essa enxurrada de pensamentos diminui e ao conhecer-se melhor você pode confrontar esses pensamentos e seleciona-los melhor, avaliando racionalmente o que é melhor para aquele momento da vida.
Mas nem sempre isso funciona, mesmo sob tratamento, e aí vale a frase completa da Anabella : minha família já sabe:  ninguém manda em mim, nem eu mesma.
É muito difícil conseguir o apoio e a cumplicidade da família no tratamento do TDAH adulto; é perfeição demais para a vida de um portador...


domingo, 21 de maio de 2017

O TDAH, TEMER E OS DESMEMORIADOS





Acompanhamos estarrecidos as novidades deploráveis da nossa política. Ninguém é inocente, ninguém é sério, ninguém tem o menor respeito pelo sofrimento de uma população, em sua enorme maioria, sofredora e indefesa.
Não sei o que mais me indigna: as delações ou as respostas dos acusados. As delações são bombásticas e gravíssimas, mas as respostas beiram o escárnio. Ou então estamos diante de uma epidemia de TDAH.
Talvez seja isso, o maior contingente de TDAHs não tratados do mundo!
Claro! Uma de nossas maiores características é justamente o esquecimento, mas um esquecimento tão grave, mas tão grave, que podemos denominar de um 'apagamento'. Não apenas esquecemos o fato, como todo o contexto em que ele ocorreu. Cria-se um hiato em nossa memória como se aquele momento jamais houvesse existido.
Isso cria momentos de enorme tensão e briga. Como já fui acusado de tentar enlouquecer a outra pessoa ao negar veementemente haver dito isso, ou aquilo, que afirmavam que eu dissera! Muitas vezes a pessoa se lembrava de onde estávamos, a roupa que eu usava... Mas eu negava; em minha cabeça aquele momento não existiu. Provavelmente, meu corpo estava ali e minha cabeça em Nárnia.
É o que acontece em Brasília. O sujeito recebe uma mala de dinheiro, mas estava pensando em outra coisa. Não se lembra daquele momento, por isso negam com tanta veemência. São todos TDAHs. Com certeza!
O presidente Michel Temer ainda apresenta uma característica adicional do TDAH: a imaturidade. Uma certa inocência. Ele achou que um cara que dirige uma empresa que fatura 170 bilhões (isso mesmo, bilhões) de reais foi ao Palácio Presidencial, às dez da noite, contar vantagem. Pregar mentirinha de que comprou juízes, procuradores e afins. Eu também acredito, presidente. Juro que acredito.
Ou então quem está certa é minha namorada que acha que quem tem culpa é a tia do cafezinho, que andou colocando algum alucinógeno na bebida dos políticos brasileiros.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

TDAH: ONDE ESTÃO MEUS SONHOS?






Quem se esconde sob as diversas camadas de TDAH?  
Ainda resta algo do adolescente sonhador? Ou foi sepultado pela vida e pelo transtorno? Onde mora o idealista que sonhava em fazer teatro popular?  
Quando criança, uns quatro ou cinco anos, eu tinha um sonho recorrente : estava deitado em um buraco e rolos de cobertor vinham me cobrindo a partir dos pés, paulatinamente, até me cobrirem a cabeça e eu acordar assustado. Precisei tomar remédio para dormir - um tal de Mogadon, se não me falha a memória - e interromper esses pesadelos. Se eu pudesse prever o futuro não tomaria esse remédio. Eu tinha sonhos premonitórios. Ou extremamente alegóricos com o futuro. Se trocarmos os cobertores pelas besteiras da vida, pelos erros que cometemos, temos uma alegoria tdahdiana para a vida. 
As atitudes impulsivas que desaguaram num casamento precoce e não planejado, a necessidade imediata de subsistência e a busca incessante de felicidade numa alma assolada pela insatisfação eterna do TDAH, soterraram os sonhos do escritor e teatrólogo, como me soterravam no sonho. O cara que mudaria a vida das pessoas pelo teatro, sucumbiu sob as camadas das opções impulsivas, do prazer imediato, da insatisfação inesgotável...  
Em alguns instantes da vida pude vislumbra-lo; mas jamais resgata-lo. Hoje, sei lá porque, me vi inteiro. Os sonhos intactos, a vida pela frente, um monte de coisas por fazer, vidas para revolucionar. Custei a me reconhecer nele.  
A paisagem corre do lado de fora, o tempo está cinzento e frio. O ar condicionado não precisava estar ligado. Preciso ir ao mecânico resolver o problema do meu carro. Ali perto tenho uma cliente de celulares excelente. Como essa mulher estraga iPhone, meu Deus! A Apple deve lançar em setembro o iPhone 8. Mais uma correria às lojas. Pessoas que necessitam de mostrar ao mundo seu sucesso material. Isso há vinte anos era inimaginável no Brasil. Era um fenômeno típico do americano. O brasileiro era mais influenciado pelo europeu, mais humanista, menos materialista. Hoje copiamos o pior dos americanos, o materialismo. E nada do respeito ao outro, à liberdade e à democracia típicas dos Estados Unidos.  
Assim me perdi dos meus sonhos.  
No TDAH um pensamento leva a outro, e a outro, e a outro, e a outro...  
E leva junto a nossa vida. E os nossos sonhos. E ficam tão distantes que quase não os reconhecemos quando os reencontramos.