sábado, 9 de setembro de 2017

TDAH NÃO É BRINCADEIRA!







Parece estar havendo uma nova e disfarçada campanha de desmoralização do TDAH. Pessoas bem intencionadas (ou não), andam divulgando possíveis características benéficas da doença para os portadores do Transtorno do Déficit de Atenção com (ou sem) Hiperatividade. Ora, isso é no mínimo desinformação; beirando muitas vezes a crueldade. TDAH é doença! Não existe nenhum tipo de benefício em doença nenhuma. O fato de existirem TDAHs de sucesso nada significa, essas pessoas alcançaram o sucesso APESAR do TDAH. E não graças a ele. Seria o mesmo que creditarmos à Esclerose Lateral Amiotrófica o brilhante trabalho científico de Stephen Hawking. Como o TDAH não causa alterações aparentes, nem físicas, nem comportamentais, uma grande parcela da população desacredita de sua existência ou de sua capacidade de causar danos em seus portadores.
Carregamos nosso inimigo dentro de nós mesmos, dentro de nossas mentes. Passamos a vida nos auto sabotando, abandonando projetos e pessoas, malbaratando o que ganhamos, vendo a vida escorrer entre nossos dedos enquanto colegas com muito menos capacidade intelectual constroem carreiras sólidas e vidas estáveis. Nossa criatividade e impulsividade são muito legais aos dezoito anos, aos quarenta começamos a nos dar conta do quanto estragamos nossa vida. Nessa idade enxergamos que nada fizemos com aquele dom ou habilidade que trazemos de berço. Faltou disciplina, faltou persistência, faltou coragem, faltou ânimo, faltou força para quebrar a inércia. Invertemos as prioridades da vida, aos quarenta ainda valorizamos o que outras pessoas abandonaram aos vinte.
 Nossas características podem parecer engraçadas, divertidas; mas não são! Sofremos ao constatar que perdemos a chave, ou o compromisso, ou a hora, pela enésima vez. Sofremos enormes sobressaltos quando algo sai errado no trabalho ou na escola; teríamos sido nós os culpados? E falamos ou fazemos sem pensar; e para consertar depois? Isso quando tem conserto; senão, arrastaremos a culpa por toda a vida.
A falha pode ser engraçada de tão grotesca. Ou seria se fosse ocasional. Mas não no nosso caso. Esquecemos porque nosso cérebro nos boicotou. Dissemos o que não deveria pois nosso cérebro não tem freios. Invertemos as prioridades porque nosso cérebro não sabe agir de outra maneira.
É engraçado para quem está de fora, nós sofremos genuinamente.
Nosso transtorno é muito sério e não podemos aceitar esse ridículo papel de bobo da corte que querem nos impingir.

8 comentários:

  1. Esse é o melhor texto que já li sobre o assunto, o que melhor traduz o que é ser TDAH. Obrigado!

    ResponderExcluir
  2. Eu também não enxergo nada disso como qualidade, somos o que somos apesar do tdah. Muitas vezes minha saída é rir das minha falhas como quando eu esqueço algo importante mas no fundo não tem graça.

    ResponderExcluir
  3. O Poder do Silêncio
    https://www.youtube.com/watch?v=65eh6WL860w
    Sem silêncio existe como uma cortina de imagens e sons que se põe à frente de nossa visão. Essa cortina vive variando sua espessura. Quando aumenta, acontecem essas situações, e apesar de lermos, ouvirmos, não processamos, pois o barulho toma mais a parte de nossa tenção. Procure o silêncio. Leva tempo, mas é possível chegar lá com certo esforço.

    ResponderExcluir
  4. Primeira vez que estou comentando seu blog... Mas o acompanho desde o dia que descobri que tenho TDAH...
    Gosto de ler o que vc escreve porque além de ser um espelho, posts como este chegam a mim como conselhos...
    Gratidão :)

    ResponderExcluir
  5. No início eu me frustrava muito, me achava burra, ficava triste por perceber que poderia ser muito mais do que eu era e isso me fez desenvolver um transtorno de ansiedade desde criança.
    Concordo totalmente com você, TDAH não tem a menor graça e é muito difícil lidar com as pessoas que riem por você "só não perder a cabeça porque está grudada". Muita gente vê o TDAH ainda como uma simples falta de atenção e não entende o que está por trás da doença.
    Hoje tento não me entristecer com os comentários e nem comigo mesma quando erro feio. Tenho tentado levar o TDAH com humor e leveza, mas nem sempre é fácil não me importar com as piadinhas e nem sempre consigo fugir das minhas próprias cobranças.

    Abraços
    https://tdahdiario.wordpress.com/

    ResponderExcluir
  6. Eu acho melhor assumirmos que temos algo de errado do que subestimar a doença e ainda achar que ela é uma qualidade. Fazer isso me parece dar lenha para cometer mais erros.

    ResponderExcluir
  7. TDAH é, primeiramente, uma DESORDEM que pode vir a se tornar fortemente patológica OU a pessoa já nascer com a variação mais severa da desordem. Doença é um termo muito forte. Síndrome de Down por exemplo NÃO É DOENÇA, é una desordem. A desordem é ''meio caminho'' entre doença e sei lá, saúde ou estabilidade. O mesmo acontece com quase todos os transtornos mentais: esquizofrenia, autismo, personalidades anti-sociais, todos tem os seus respectivos espectros e portanto variam de tipo ou combinação e expressividade.

    Doença mesmo é aquilo que promove um deterioramento direto do organismo e com risco variável de morte, isto é, a doença aumentando o risco de morte, de maneira intrínseca. A doença pode ser auto-imune ou congênita e pode ser adquirida. Não confundamos as coisas aqui porque isso acaba causando uma generalização da desordem e sim, desinformação. Eu acho que tenho um pouco de TDAH, isto é, estou bem mais distraído que uma pessoa comum, e tenho forte motivação intrínseca hedonista, tal como uma cigarra ou como um cigarro, eu coloco antes o meu auto-direito de ser feliz e aí sim, penso nos meus deveres como cidadão. Sou mentalmente hiperativo, mas sinceramente, eu não acho que sou doente, estou muito feliz comigo mesmo, e por enquanto não tenho conseguido me adaptar às super-estruturas burocráticas e laborais que sustentam a ''nossa'' sociedade, ainda assim, não vejo isso como uma falha unicamente minha, mas partilhada, em que eu também tenho a minha carga de culpa. Acho que aumentar a culpa por algo que não se faz de maneira proposital tampouco ajuda quem, de fato, sofre com essa desordem, a ponto dela promover o mal estar pessoal do que o contrário. No entanto, novamente, há de se separar alhos de bugalhos.

    ResponderExcluir