quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O TDAH E A SÍNDROME DO AVESTRUZ








Depois do milionésimo erro por desatenção, inocência ou negligência, a pessoa começa a acreditar que quem está certo é o avestruz: a qualquer ameaça enfia a cabeça na areia para não ver as consequências...
É isto; a maior recorrência na vida de um portador de TDAH são as recorrências; a infinita repetição de erros, muitas vezes tolos mas de consequências sérias.
E aí a pessoa começa a se questionar quanto a tudo; à vida, aos tratamentos, aos medicamentos, à sua própria escolha de vida...
Não há remédio que cure este mal. Talvez uma longa terapia; talvez. O que é mais complicado para um TDAH diagnosticado já adulto é o combate ao enorme acúmulo de erros e vícios construídos ao longo da vida. O quadro é mais ou menos o seguinte: ao longo de sua trajetória de vida, o portador de TDAH foi colhendo amargos e espinhosos frutos de seus erros. Claro que estes erros geraram estratégias para combatê-los, mas também originaram vários comportamentos defensivos para escondê-los ou para camuflar falhas de comportamento facilmente reconhecidas por terceiros. Muitas destas estratégias são, na verdade, maquiagem. Se fossem estratégias definitivas ninguém sofreria as consequências de ser TDAH, ou pelo menos os erros não se repetiriam.
A segurança que a pessoa passa é falsa; o foco que ela parece ter, é só aparência; a tranquilidade do semblante esconde uma mente em absoluta convulsão; o sorriso esconde a dor constante. Mas no âmago, o TDAH ainda domina. E nos momentos cruciais. Naquela hora de discutir salário para o futuro emprego, a sombra da insegurança paira e a pessoa pede menos. No momento de uma negociação financeira o sentimento de inferioridade cresce e o portador engole condições desfavoráveis. A isto soma-se que a pessoa não leu direito; não prestou a devida atenção ao que diziam; disse o que não deveria no momento menos propício.
Que vontade enorme de enfiar a cabeça na areia e não ver as consequências do mais novo erro. Ou o que é muito pior, as consequências da repetição dos erros de sempre. Consequências que costumam se agravar com o tempo.
E como é difícil conviver com esta infinita vontade de sumir, de abandonar tudo e ficar quietinho num canto até que a vida se extinga, ou se esqueça de você.
O maior sonho de todo os portadores é um dia acordar e estar num local diferente, onde ninguém o reconheça, ninguém lhe aponte os erros ou lhe reconheçam como o lesado, avoado, irresponsável, inconsequente, preguiçoso, impulsivo, distraído, falastrão, complicado... E tantos outros 'carinhosos' adjetivos que são dirigidos aos TDAHs ao longo da vida.
Mas a vida real não para, antes que a pessoa se levante da última queda as novas cobranças já lhe bombardeiam o lombo. Há que se viver! Há que se conquistar! Há que se vencer! E lá se vai o portador de TDAH, ainda trôpego pela última pancada, zonzo e com o amargo sabor da derrota na boca e sem tempo de entender o que aconteceu.
A vida urge! A vida cobra! A vida é agora!
Definitivamente, o TDAH não é para este mundo!