sábado, 5 de fevereiro de 2011

CONVIVER COM UM TDAH VALE A PENA?


Logo de início devemos deixar claro alguns pressupostos:

1) Você tem de gostar, de verdade, do seu companheiro(a) TDAH. Amor mesmo.
2) Você tem de acreditar que o TDAH é uma doença, sim!
3) Você precisará ter muita, mas muita, paciência.
4) Gostar de controlar. Pessoas, dinheiro, agenda...

Sem esses três requisitos básicos, dificilmente seu relacionamento com um portador de TDAH irá muito longe. Você enfrentará muitas situações constrangedoras, ou passará muita raiva, por isto os requisitos acima.
Vamos ao que interessa!

Esquecimento - Não exija que ele se lembre de que disse exatamente isso ou aquilo durante a discussão de ontem. Por mais importante que a discussão seja, sempre escapamos do foco principal. Eu já decidi uma separação conjugal, pensando no desempenho do meu time que jogara horas antes. Metade, ou mais, da discussão eu não me lembro. Mas não lembro mesmo. Por mais que eu me esforçasse para prestar atençaõ na conversa, volta e meia eu me pegava pensando em futebol.
Não espere que ele se lembre de datas comemorativas ou compromissos agendados com muita antecedência, por exemplo.
O TDAH precisa de criar um ritual para lembrar-se das coisas. Mesmo as corriqueiras.
Desconfie até mesmo das certezas de um TDAH. Já errei completamente o endereço do meu cardiologista. Eu tinha absoluta certeza de que era em um edifício e não era. Eu me lembrava da posição da sala no andar e tudo. Tudo errado.
O portador de TDAH precisa ser controlado para lembrar-se de compromissos, contas, eventos. O ideal é que seu companheiro atue como uma secretária, lembrando-o diariamente do que fazer no dia. Do contrário, terá de conviver com o sofrimento e o constrangimento das falhas de memória do TDAH.

Impulsividade - Este é um grande problema. Podemos fazer besteiras homéricas ao falar o que não deveria ou tomar atitudes impensadas. Falar e agir sem pensar é uma das características mais marcantes do TDAH. O sistema capitalista foi erguido sobre os TDAHs. Comprar por impulso é com a gente mesmo. Um dos meus sonhos é sentar-me diante da TV e comprar todos aqueles produtos oferecidos pela Polishop. São inutilidades maravilhosas.
Este comportamento costuma ser um dos mais difíceis de se conviver. Muitas vezes nossa (o) companheira(o) é a principal vítima da impulsividade. Gastamos o que não temos, compramos o que não precisamos, assumimos compromissos que não vamos cumprir, cedemos a desejos que não deveríamos.
Certa vez, fiz as contas e concluí que eu estava gastando dinheiro demais para lavar o carro. Fui ao Carrefour e comprei tudo o que precisava para fazer isso em casa, incluindo uma lavadora Wap e um aspirador de pó portátil. Talvez tenha-os utilizado umas quatro ou cinco vezes.
Se você não gosta de controlar seu/sua companheiro(a), consiga lugar para guardar tudo o que não vai utilizar, ou pior, prepare-se para descobrir coisas mais graves que poderão surgir em sua vida. Dificilmente conseguimos pensar antes de agir. Imagine o potencial explosivo disso.
Ps.: A pipoqueira elétrica! Lembrei-me que certa vez cheguei em casa com uma pipoqueira elétrica que havia comprado. Achei sensacional e logo fui fazer a primeira experiência com o maravilhoso equipamento.Minha mulher e minha filha tiveram uma crise riso. Primeiro, voou pipoca por toda a casa, segundo, como não leva óleo a pipoca não pega sal. Um fiasco completo. Nunca mais a usamos.

Procrastinação - Adiar, adiar, adiar. Outras das 'especialidades' do TDAH. Qualquer atividade ou decisão que não seja de nosso interesse ou que não nos dê prazer, vai ser adiada indefinidamente. Exemplo: há cerca de três meses concluí que eu deveria trocar minha internet móvel da vivo por um modem desbloqueado com chip tim. Levei um mês para comprar o chip, mais dois meses para comprar o modem. Já estou usando o novo modem desde segunda-feira. Ainda não cancelei o contrato com a vivo. Hoje lembrei em dois momentos durante o dia e adiei a ação de ligar e cancelar. Muitas vezes a procrastinação chega a ser irresponsável pois adiamos o importante, o dever, para satisfazer prazeres muitas vezes efêmeros, pequenos, completamente sem importância.
O papel de quem convive com um TDAH deve ser sutil. Cobrar, incentivar, cuidando de manter nosso instável humor em repouso.Fácil, né?

Projetos inconclusos - Temos milhares de idéias maravilhosas e uma motivação sem igual para inicia-las. Porém, ao longo do tempo, o projeto começa a ficar chato e concretizá-lo é mais chato ainda. Ao mesmo tempo, continuamos a ser bombardeados por novas idéias que nos seduzem diariamente. Eu , por exemplo, não posso ver uma loja com a placa de aluga-se que logo penso no que poderia montar naquele local. O problema é que, acompanhamento requer disciplina, repetição, controle, coisas extremamente penosas para nós.
O que fazer? Incentivar, cobrar, colaborar para a conclusão dos bons projetos. Os ruins, deixe prá lá, vão morrer sozinhos. 

Novidades - O TDAH precisa de novidades, de renovação, de mudança. Mesmo que seja de alto risco ou para pior. Um novo celular, um novo carro, novas emoções, uma nova vida. Parece exagero, mas não é. Quando tudo parece calmo, tranquilo, vem a mudança. Pode ser de emprego, de esposa ou namorada, ou até mesmo uma boa briga para esquentar o morno casamento. Precisamos de emoção, adrenalina. Acrescente a essa necessidade a impulsividade característica do transtorno. Nitroglicerina pura!
Conviver com isso? Numa relação afetiva, não deixe seu TDAH amado ter absoluta certeza de seu amor. Um TDAH não quer um cão fiel e obediente ao seu lado. Amamos as pessoas fortes que nos confrontem, que nos dê a emoção que a incerteza gera.

Humor instável - Variamos da tristeza à euforia em questão de minutos. A irritação pode surgir de repente, sem nenhum motivo (importante) aparente. A frustração pode desencadear uma profunda irritação. Esperar também. Odiamos esperar; filas, engarrafamentos e similares são um excelente estopim para nosso mau humor.
Seja paciente e inteligente. Não fique perguntando o que aconteceu, por que está assim. Deixe, trate-o normalmente. Daqui a pouco passa.

Vale a pena conviver com uma pessoa assim?
Vale!
O TDAH é uma pessoa criativa, carinhosa, inteligente, afetiva, generosa. E, não tenha medo, isso tudo não vem de uma vez só.
Se vier...


PS.: A foto do vulcão é bastante significativa. Podemos ser verdadeiros vulcões também no sentido afetivo, físico do amor. Cabe você avaliar qual dos vulcões vale a pena valorizar.