quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

AS LOUCAS IDÉIAS DE UM TDAH!











Essa noite eu tive um sonho. Um sonho real e, como todos os sonhos, abstrato.
Sonhei que eu era uma idéia, uma grande idéia.
Eu buscava incessantemente uma cabeça para entrar.
Como era difícil! Eu, uma idéia brilhante, fascinante, não encontrar uma única mente aberta a mim.
Vagava de cabeça em cabeça, de alma em alma, ninguém me queria.
Pior, ninguém me notava.
Por vezes achei ter encontrado a mente ideal.
Mas, foram apenas lampejos. 
Não fui reconhecida.
Não desisti, continuei vagando na aridez das idéias.
Ninguém imagina como pode ser desértico o clima de certas cabeças.

Cabeças concretas, sólidas, impermeáveis a qualquer novidade.
Outras não, a mente é um pântano. O que cai ali afunda. Desaparece,
A mente soberba! Ah, como é difícil entrar ali. Não admite nada que não surja dela.
E assim fui, vagando nas mais variadas mentes, enfrentando negativas e desprezos.
Para mim, a pior sensação era a de me ver misturada a idéias, fúteis, idiotas, sem nenhum conteúdo.
E eu pensava, meu Deus sou tão útil, tenho tanto a contribuir.
Ninguém me via, ninguém me reconhecia, ninguém me queria.
Depois de muito vagar, já cansada, desanimada, descrente, vi uma enorme aglomeração de idéias.
Um zumzumzum, quase um tumulto, tal o número de idéias reunidas. Conhecia quase todas, de outras, já tinha ouvido falar. Fui aproximando-me e tentando entender o que estava acontecendo.
Encontrei uma inspiração literária e fui perguntado: que confusão é essa? Sua resposta foi objetiva e clara: há quanto tempo você vaga atrás de uma mente que a adote? Nós todas estamos na mesma situação. Essa é uma fila para uma mente com TDAH.
TDAH ?, perguntei assustada. Mas nós vamos ser jogadas fora. Imagine, essa chuva de idéias naquela mente sem freios! Ela não vai dar conta de aplicar tanta imaginação.
A Inspiração literária deu um suspiro e falou: todas nós sabemos disso. Imagine o meu caso, sou uma inspiração de altíssimo nivel, uma obra brilhante, mas ninguém me aceitou. Ninguém me reconheceu. Aqui, pelo menos, temos a chance de ser vistas, de surgir numa mente aberta. Ainda que tumultuada, é maior a minha possibilidade de ser aproveitada. Agora, com licença, tenho que tentar entrar naquela cabeça.
Fiquei só novamente. Minha cabeça girava. O que é pior, vagar a esmo em busca de mentes que me aceitem ou reconheçam, ou saltar numa mente com TDAH. Uma mente sem freios, sem controle de tempo, sem a persistência necessária para levar-me adiante. Eu  não conseguia decidir. E se procurasse mais, persistisse um pouco mais. Olhei em direção ao tumulto e lá estava a inspiração literária lutando por seu espaço. Jamais ela vai conseguir ser aproveitada. Como, em meio a tantas outras boas e más idéias? Quando voltei a olhar ela já não estava mais lá. Havia saltado em direção à mente, ao abismo da mente TDAH.
Fiquei pensando, pelo menos ela não está mais vagando como eu. Sem dono, sem destino, sem utilidade.
Resolvi me aproximar, ver como se dava aquilo de perto. Era difícil de entender, mas era a mente mais aberta que eu já havia visto. Mas, pelo menos ela reconhecia, enxergava as boas idéias. Mesmo com o risco de caírem no esquecimento, as idéias saltavam alegres em sua direção.
De repente, houve um impasse entre várias idéias, um desacordo, um empurra-empurra, baixou um silêncio e por uma fração de segundo aquela mente ficou vaga.
Num impulso irrefreável eu me atirei.
Seja o que Deus quiser!
Acordei em meio ao salto. Exausto com tanto tumulto.
Tomei meu café da manhã, minha ritalina e vim escrever este post.