terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

TDAH; MOVENDO-SE EM AREIA MOVEDIÇA.



Dedico este post à Raquel, uma leitora que enviou-me um comentário indignado com a classe médica e sofrido sobre  sua convivência com o TDAH.. No meio de seu comentário ela cita sentir-se em uma areia movediça. É uma figura de linguagem perfeita. Creio que todos os TDAH's sentimos essa mesma sensação em algum momento da vida.
A você Raquel, minha solidariedade e minhas vibrações de que você vai encontrar a corda que há de tirá-la dessa areia movediça.

Imagine-se aos vinte, vinte e poucos anos, cheio de sonhos, esperanças e coragem para enfrentar a vida.
A hora de começar a trabalhar, ser independente se aproxima. Os estudos vão chegando ao fim , começa a dar um frio na barriga. Todas aquelas dificuldades que você passou na escola ou na faculdade, só entregava os trabalhos em cima da hora, só se lembrava das provas na véspera - aí tinha de virar a noite estudando - as críticas dos colegas à bagunça do seu material. Aquilo tudo certamente vai acabar.

Aquelas aulas chatíssimas, intermináveis, em que você acabava viajando, longe, longe. Quanta vergonha você já passou ao ouvir seu nome sendo gritado pelo professor? Quando eu me formar, for trabalhar, isto tudo vai acabar.
E vem o primeiro emprego. Nos primeiros dias, apesar da ansiedade normal que te assalta, você sente que vai tirar aquilo de letra. Você conhece bem o que vai fazer, a vida inteira você ouviu que aquela era a sua aptidão natural. O que você fazia de melhor.
Então você comete o primeiro erro. Um esquecimento idiota, inexplicável. Você é advertido, sente-se a pior pessoa do mundo, mas sabe que vai recuperar. Levanta a cabeça e segue em frente. Você começa a perceber que, apesar das pessoas gostarem de você, você começa a ser alvo de piadinhas; está sempre atrasado, seu material é  desorganizado, sua memória é péssima. Você se afunda, quer morrer, sumir. A primeira vontade é pedir demissão, ir embora dali. Mas ir pra onde? Fazer o que ? Você se sente inseguro, com medo. E erra de novo. Você adiou aquele trabalho, estava desmotivado, inseguro, não conferiu direito, deu uma olhado por cima, e o erro grave passou despercebido. Aos olhos da empresa foi negligência. Você sabe que não. Você não viu aquilo. Você chega a duvidar de que aquilo estavisse escrito ali e você passou por cima.
Vem a demissão. Uma ducha de água gelada. Menos de dois anos de trabalho!
Novamente um sentimento de profundo desânimo, um sentimento de derrota te invade.
Mas, você não se entrega, jovem, inteligente, boa aparência.
Um novo emprego, uma empresa melhor, mais moderna, mais dinâmica.
O ciclo começa a se repetir. Você esquece, não se atenta aos detalhes, está sempre atrasado, em dúvida.
Você se arma de agendas, lembretes, organiza e reorganiza sua mesa mil vezes. Aí te lembram daquele projeto que você iniciou com o maior alarde, e que está parado em sua gaveta há meses.
Seu namoro está por um fio. Ela não aguenta mais suas irritações sem motivo, você se esquece dos compromissos, das datas importantes. Seu humor é uma montanha russa: quem aguenta isso, ela pergunta.
Se o namoro naufragou, a sorte bateu em sua porta profissional.
Que sorte, uma proposta de emprego! Não é em uma empresa tão conhecida. É uma empresa menor, mas o salário é até um pouco melhor. E você se livra daquela pressão por resultados, aquele falatório sem fim...
Você estava certo! Agora vai!
Apesar dos seus erros e esquecimentos, a vida começa a entrar nos eixos. Um novo namoro virou casamento, vem aí o primeiro filho. Profissionalmente, você estaria mais satisfeito se não encontrasse seu ex-colega de trabalho. No mesmo cargo que você exerce hoje, mas na empresa que você deixou, ele hoje desfila de carro zero e roupas caríssimas.Aquele encontro te fez muito mal. Em casa, no seu canto, você ficou remoendo sua vida, seus erros. Você abandonou o curso de inglês, ele não,  você se matriculou na pós graduação e nunca foi a uma aula, ele concluiu a pós, o projeto que você iniciou na antiga empresa e jamais concluiu, foi concluído por ele e hoje é um sucesso.
Você decide sacudir a poeira. Vai retomar a pós graduação, o inglês....
Vinte anos se passaram, você teve inúmeros empregos. Abandonou a pós graduação três vezes, a última, definitivamente. O inglês? sem comentários.
Dois filhos, duas ex-mulheres, um carro velho, um apartamento de classe média financiado, as contas eternamente atrasadas, o cheque especial sempre no vermelho, várias vezes precisou refinanciar o cartão de crédito...
Onde estão meus sonhos, meu Deus?
Como pude jogar minha vida fora?
Sou mesmo um cretino, um irresponsável.
Um inútil, isso que eu sou, um inútil.
Um dia, meio sem querer, você descobre uma doença capaz de transformar a vida de seus portadores num caos. Num inferno que você conhece bem. Seu coração se enche de esperança, você começa a sonhar com o dia em que o remédio vai fazer efeito e mudar sua vida radicalmente.
Mas, não é bem assim. Em nossa vida, nada é assim.
A ritalina é a corda, mas não tem ninguém do outro lado pra te puxar. Você terá que fazer tudo sozinho, com suas próprias forças. Coragem, você sobreviveu até aqui, lutando arduamente para sobreviver. Carregando sobre os ombros o peso do TDAH, das críticas das pessoas à sua volta, daquela irritação profunda que te assola repentinamente, sobrevivendo ao peso do desânimo que de tempos em tempos te domina. Você chegou até aqui, você é um sobrevivente, você tem muita força. Agarre-se à essa corda e puxe, puxe com força. Pela primeira vez na vida você está tendo uma chance real de sair desse atoleiro. Não se deixe dominar pelo desânimo, puxe a corda. Não importa se ela fere suas mãos, depois de se livrar da areia movediça você vai ter tempo de cuidar de suas feridas.
E poderá cuidar também daquelas feridas que você causou aos outros, mesmo quando não era essa sua intenção.
Vamos lá, puxe!
Ao infinito e além.