sábado, 12 de agosto de 2017

O TDAH E A INSEGURANÇA MENTAL CRIATIVA



Oliviero Toscani, genial fotógrafo italiano revolucionou a publicidade mundial nas décadas de 1980/1990/2000, ao criar campanhas chocantes, instigantes e sensacionais. Toscani fotografou beijos entre negros e brancos, entre dois homens, duas mulheres, padre e freira; além de aidéticos terminais ao lado da família desesperada e vítimas das sangrentas guerras civis africanas. Se hoje muitas dessas fotos ainda provocam reações contrárias, que dirá há vinte e cinco anos. As campanhas de Toscani transformaram a marca de roupas Benetton em uma das cinco mais famosas do mundo, na época. Incansável, há cerca de sete anos criou uma campanha anti anorexia, em que fotos de mulheres anoréxicas nuas estavam em outdoors e revistas de toda a Itália,  e com isso,catapultou uma pequena empresa da região de Vêneto à fama mundial em poucos dias.
Mas isso é apenas uma introdução ao que ele disse; instigado pelo entrevistador, Toscani fala sobre criatividade e talento. Ao contrário do que se imagina, ele diz que talento nada tem a ver com ter ideias, o talento é intrínseco; a pessoa sente e faz. Não importa a crítica, a receptividade ou o sucesso; a manifestação é o mais importante.
Ainda segundo Toscani, a insegurança fomenta a criatividade; a segurança, o conforto, a estabilidade, ao contrário, é a geradora da mediocridade. E cita como exemplo as agências de publicidade, que segundo ele, são o paraíso da mediocridade e da falta de talento.
E daí? Daí tudo! Não seriamos criativos por que somos TDAH, mas por que o TDAH nos deixa mentalmente inseguros e instáveis, e nos propicia a incessante e quase inconsciente busca de novos caminhos, novas soluções, novas alternativas.
Seria o caos de nossas vidas o incubador de nossas mentes absurdamente irrequietas? Segundo esse gênio da fotografia sim. E faz sentido... No Brasil, nossa melhor música, nosso melhor teatro, nosso cinema mais revolucionário, surgiram no auge da ditadura. Tínhamos um monstro a combater, um medo a enfrentar, um futuro incerto a descortinar, um mundo desconhecido a desbravar...
E nós TDAHs? Temos a inquietude de uma mente que não para; temos a inconstância de sentimentos que nos assola; temos a impulsividade que nos impede de nos conformamos com nossos destinos...
A criatividade pode ser a válvula de escape dessa mente tortuosa, a fuga para mundos inexplorados, para soluções impensadas. Quem saberá?
Imagino nossa mente como um infindável redemoinho; pensamentos se misturam e se chocam, se sobrepõem e se complementam. Pulamos de um assunto a outro, de um tema a outro, sem nexo ou explicação. E de repente ela surge. Do meio daquele emaranhado de pensamentos surge uma ideia, uma inspiração... Mas, se não for anotada, esquematizada, salva de alguma maneira, instantaneamente, perder-se-á no redemoinho de pensamentos que não para de girar... E quantas vezes, inocentemente, não anotamos de imediato, confiantes de que nos lembraremos de algo tão impactante e genial? Qual nada, em poucas horas a ideia genial terá submergido no caótico redemoinho de pensamentos da mente TDAH.
Os não portadores imaginarão o desespero que ficaremos ao esquecermos de tão importante ideia. Claro, se nos lembrarmos do que pensamos podemos nos torturar, mas em geral ficamos com aquela sensação de havermos tido a grande sacada; mas uma névoa a encobriu e toldou; como um aroma que nos faz lembrar algo de que não sabemos ao certo do que se trata...
E o TDAH anestesia nossa culpa; afinal, essa ideia é apenas mais uma no armário repleto de esqueletos mentais que armazenamos em nossas existência.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

TDAH: ESTRATÉGIAS DE CONVIVÊNCIA





Uma leitora me pediu algumas dicas de estratégias de boa convivência com o marido TDAH.
É algo tão simples que não deu para respondê-la nos comentários, tive que fazer um post inteiro.
A primeira estratégia, e a que reputo como a mais importante, é o conhecimento!

CONHECIMENTO:
Conheça a fundo a doença do seu/sua parceiro(a). Se você conhece os sintomas do transtorno, saberá reconhecê-los quando se deparar com eles. Reconhecerá a procrastinação, a impulsividade, a desatenção, a falta de foco, a eterna insatisfação, a insegurança, a baixa auto estima...
Muitas brigas serão evitadas se você, não TDAH, passar a reconhecer nas atitudes de seu parceiro as manifestações de uma doença e não de seu mau caráter ou má índole. E o contrário também é verdadeiro, poderá flagrá-lo escondendo-se atrás do TDAH.

PACIÊNCIA:
Se um dos parceiros não é TDAH, é comum que ele se irrite com os sintomas mais agudos da outra parte, aquela que tem o TDAH.
A desatenção! Eu sou extremamente desatento. Talvez minha principal característica ao lado da procrastinação. Para quem não é desatento, o esquecimento das menores coisas, daquelas mais corriqueiras é irritante, eu reconheço. Esqueço constantemente de tomar a Ritalina, o remédio da memória. Por precaução coloquei um alarme no celular, mas aí atua a procrastinação; se estou fazendo algo quando soa o alarme, vou adiando-o infinitas vezes. Tão infinitas, que em alguns dias desisto de tomar pois o dia está findando e eu ainda não tomei. E desatenção não é apenas esquecimento; paguei a conta de água de Junho sem perceber que não havia pago a de Maio. Por pouco não fiquei sem água.
Haja paciência para aturar um marido/esposa assim. O ideal é que o cônjuge não TDAH assuma o controle dessas coisas práticas; contas, organização, funções executivas de maneira geral.

SILENCIAR:
Calar-se nos momentos de crise é outra estratégia interessante. Preste bem atenção, nos momentos agudos! Não estou pregando submissão! Nada disso! Mas o TDAH quando começa a discutir, brigar, não tem freios ou limites. Podemos agredir verbalmente da forma mais cruel ou agressiva imaginável. No calor da raiva dizemos o que não queremos ou não sentimos, só pela necessidade de vencer aquela briga. A melhor estratégia é deixar a fervura baixar e depois, em outro momento, abordar o assunto de maneira diferente, com calma... Em geral aceitamos as ponderações posteriormente.

ESPERAR:
Somos impulsivos, empolgados, vulcânicos! É comum demais na empolgação do momento fazermos propostas, sugerirmos ações, nos oferecer para ajudar, assumir responsabilidades... Coisas que nos arrependeremos (ou esqueceremos) horas depois. Já aceitei ser subsíndico do meu condomínio e me arrependi em menos de 24 horas. Calcei a cara e pedi demissão. Portanto, espere! Não acredite ou empolgue-se junto com seu TDAH. Se nos dias seguintes a proposta ainda estiver de pé, acredite.

APOIAR:
Não importa se temos sucesso ou não na vida, temos um forte sentimento de inferioridade e uma insatisfação interna que jamais termina. Nem a Mega-Sena, o prêmio Nobel ou o Oscar aplacam esses sentimentos. Os TDAHs de sucesso costumam se auto intitular como FRAUDES. Não é com você ou com sua família, é interno. Essa insatisfação nos faz buscar novos empregos, novos cursos, novos caminhos, ainda que estejamos bem na posição atual. Somente o auto conhecimento e o tratamento, podem amenizar esses sentimentos.

AMOR:
Muito amor! Sem a interferência do TDAH relacionamentos afetivos já não são simples, imagina com ele.

AMOR PRÓPRIO:
Se seu cônjuge tem TDAH e não quer tratar-se, não quer conhecer-se ou vangloria-se de ter o transtorno, use seu amor próprio e ponha-o contra a parede. Sem tratamento, sem relacionamento!Simples assim. Ninguém é obrigado a saber que tem TDAH; sabendo, ninguém é obrigado a tratar-se; da mesma forma, ninguém é obrigado a conviver com um TDAH que se recusa a tratar-se.

Claro que essas são dicas superficiais e genéricas, mas funcionam. Experimente aplica-las e verá!