quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A RITALINA NÃO FAZ MAIS EFEITO








De todos os posts que escrevi, o mais lido é o que falo sobre os efeitos da Ritalina. Um dos comentários mais recorrentes é de que, após um tempo, a Ritalina para de fazer efeito. Será?
Gostaria de lembrar que não sou médico, psicólogo ou farmacêutico; sou um mero portador de TDAH que se aventura a descrever experiências, sensações e emoções. Este post não tem qualquer pretensão científica, narro apenas minha experiência com o medicamento.
Em minha primeira consulta com minha Neurologista, Dra. Valéria Modesto, chegamos a conclusão de que devido à minha péssima memória eu deveria usar a Ritalina LA; menor número de tomadas diárias, menores as chances de ficar sem medicamento. Nos primeiros dias os efeitos benéficos são avassaladores; você acorda de um torpor em que estava enterrado há anos. No meu caso cinquenta anos. O problema foi que a Ritalina LA me deixou absurdamente irritado, eu explodia por qualquer coisa, sem a menor paciência pra nada. A solução foi passar para a Ritalina comum.
Passei a fazer uso de dois comprimidos de 10mg por dia, e os tomava religiosamente.
Minha irritabilidade diminuiu muitíssimo e os efeitos benéficos se mantiveram. O problema, é que não sou lá muito religioso, e passei a esquecer de tomar o segundo comprimido. Quando me lembrava, já ia lá pelas cinco da tarde e eu não via mais muita razão pra tomar a Ritinha. Por falta de disciplina, acostumei-me a ficar sem a segunda dose e comecei a achar que não precisava dela. Estava ótimo com apenas um comprimido por dia.
E comuniquei isso à minha médica. Passei então a fazer uso de apenas um comprimido pela manhã e me achei ótimo assim.
Em julho de 2012 minha vida virou um caos. Problemas financeiros e de relacionamento transformaram meu dia a dia num inferno. O que acabou culminando em separação e mudanças radicais em minha vida profissional.  No meio deste turbilhão, um belo dia decidi tomar um comprimido de Ritalina depois do almoço. A cortina se reabriu e eu revi a paisagem da janela. Foi um choque, um choque bom, ótimo. Aí eu percebi o que havia feito com meu tratamento: sem perceber, acostumei-me aos efeitos da Ritalina e achei que não precisava dela. Caí num enorme conto do vigário. Aplicado por mim mesmo. Após um longo período sem o segundo comprimido, ao tomá-lo pude perceber nitidamente seus benefícios, e voltei a tomá-lo; não religiosamente com antes, pois sou um péssimo religioso, mas com uma disciplina de quem sabe que precisa e pode melhorar a própria vida.
E aí eu faço uma analogia com os comentários de que após um tempo de uso a Ritalina deixa de fazer efeito: não caia nessa, você habituou-se ao seu novo ritmo de vida, à sua nova atenção, às suas novas atitudes. Apenas isso. Imagine-se de óculos novos; nos primeiros dias tudo o que você vê é novidade, é lindo, multicolorido, ao final de um tempo você acostuma-se às cores e formas nítidas, mas isso não significa que seus óculos deixaram de funcionar, você é que acostumou-se a um novo padrão visual.
O que você precisa agora é aplicar um nitro na sua Ritalina, não aumentando a dosagem ou mudando de medicamento, mas cercando-se de apoio psicológico, mudança de atitude e ampliando seu auto conhecimento e o seu conhecimento sobre a doença.
Pense nisso: acostumamos a tudo na vida, para o bem ou para mal. Acostumamos também com o medicamento e somente com sua supressão percebemos o quanto ele é eficiente.
Claro que isso não impede de mudar de medicamento ou de dosagem, mas isso deve ser feito baseado na premissa correta e não em uma falsa impressão de que o medicamento que fazia efeito até ontem, deixou de fazer hoje.
Não caia nessa auto sabotagem.