sexta-feira, 5 de setembro de 2014

CARREGANDO A CULPA DO TDAH

                                                                         Henrique Oliveira



Tenho em mim todas as culpas do mundo...
Parodiando Fernando Pessoa coloco-me na exata situação do TDAH: da crucificação de Jesus ao desaparecimento daquele avião da Malásia tudo é nossa culpa.
Exagero? Jamais. Assim somos nós. O acúmulo de erros ao longo da vida nos enche a alma de cicatrizes e a mente de culpas. Muitas delas justificadas e merecidas; outras, completamente infundadas e ridículas. Mas não nos abandonam.
Lembro-me de coisas infantis, pueris até, mas que latejam em minha mente com a dor da culpa e do arrependimento. Uma palavra mal colocada, um gesto brusco de uma das pessoas credoras da culpa e pronto; aquela cicatriz volta a doer e a culpa ressurge mais forte e viva do que nunca.
Some-se à culpa, nossas projeções mentais que criam castelos de areia ou preveem catástrofes que jamais ocorrerão e que nos impede de verbalizar com nossos credores o que sentimos. E a culpa cresce como uma dívida de cartão de crédito. Sim, a juros cavalares e extorsivos.
Das poucas vezes que comentei esse sentimento com alguém, a pessoa sequer se lembrava do ocorrido. Minha culpa desmoronou inteira; quase acabou. Quase por que fica sempre a dúvida se ela não estava mentindo só pra me agradar. Embora ela não tivesse motivo para isso. Mas nunca se sabe né.
É, é assim mesmo.
Nada é sempre bom. Nada é exatamente o que parece, sempre existe uma dúvida que não permite à culpa morrer em paz.
E assim alimentamos esse sentimento paralisante e asfixiante que só cresce ao longo da vida. Chegamos à idade adulta com exemplares gigantescos de nossas culpas e vivemos tentando dribla-las ou deixá-las sob o tapete para que não nos incomode. Muitas delas ficam ali, quietinhas, latentes por toda a vida. Outras não, outras são ativas, gostam de aparecer e manter-se em evidência.
Por que isso?
Não sei, apenas imagino que a coleção de m..... que fazemos ao longo da vida ( e que temos consciência de ter feito) nos leva a armazená-las.
Ao saber-me TDAH perdoei-me de muitas coisas; de outras não consegui me livrar. Talvez uma terapia bem longa e profunda, ou mais uns anos de auto conhecimento me ajudem, mas tenho a sensação de que sempre trarei algumas culpas na mente, ad eternum.
Mas também, quem não as tem? TDAHs ou trouxas, todo mundo tem aquelas coisas guardadas nos porões mentais. A nós, resta a alternativa de encarar nossos fantasmas de frente e tentar separar os erros imaginários dos erros reais; os imaginários esboroar-se-ão; os reais, bem, esses são reais e cabe a nós conviver com nossos próprios erros...