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| Do fio certo do presente ao novelo incerto do futuro. O |
A Ilusão dos Prazos e a Mente Implacável
Os especialistas afirmam que os portadores de TDAH não sabem lidar com o tempo. Exatamente, o que significa isso?
Trinta dias é longo prazo? Semana que vem está em cima da hora? Três meses é muito tempo?
Qualquer pessoa dirá que depende... Depende das circunstâncias, depende da tarefa ou trabalho a ser cumprido. Enfim, depende... Talvez pra você seja assim, depende. Não pra mim. Pra mim trinta dias é um prazo longuíssimo, pra qualquer coisa. Nada, absolutamente nada, é urgente ou breve, se o que me separa dela é um longuíssimo mês. Uma semana é um prazo a considerar. Uma semana já começo a considerar o fato, a tarefa ou evento, como algo semiconcreto, quase real, passível de ser lembrado. Três meses é uma eternidade. Nem passa pela minha cabeça. Um compromisso para daqui a três meses inexiste. Só começa a existir quando entra nos trinta dias. Nesse prazo ele passa de inexistente para existente. Nada mais.
Tenho uma viagem para o exterior em 27 dias. Agora que começo a pensar nela. Ontem minha filha comprou as passagens que nos levarão do interior para o aeroporto, comprou a minha também. Confesso que achei um pouco cedo. Me calei e agradeci por ter comprado a minha também, mas eu compraria semana que vem ou na outra. Ainda faltam 27 dias.
A Urgência das Horas e a Paralisia dos Anos
Curiosamente quando o prazo está em horas, sou extremamente previdente. Sempre fui. Rarissimamente me atraso. Perder ônibus ou avião jamais me aconteceu. Sempre chego com horas de antecedência. Mas não me dê dias... Anos? Pelo amor de Deus! Não sei contar nada em anos.
Durante muitos anos trabalhei com manutenção de celulares, quando da chegada dos smartphones, senti que deveria fazer um curso mais aprofundado de eletrônica. Na minha cidade havia um curso de um ano e meio. Desisti, achei longo demais. Me cansei só de me imaginar estudando à noite, de segunda a sexta, por um ano e meio. Já se passaram uns dez anos. Joguei centenas de noites no lixo desde então simplesmente rolando a tela do celular. Deixei o mercado de celulares, mas com uma formação mais sólida em eletrônica poderia ter migrado pra outras áreas. Eu gostava do que fazia. Trabalhos manuais me mantêm com a mente ocupada, consigo focar muito mais do que em situações mais abstratas, como trabalhos administrativos, por exemplo.
O Saxofone e a Senha da Desistência
O saxofone, que gosto tanto, foi mais ou menos a mesma coisa: com poucos meses de prática eu tocava de maneira bastante razoável. Inclusive meu professor dizia que iria me levar pra tocar com ele em eventos brevemente. Comecei a pensar em longo prazo, que pra ser um saxofonista de qualidade bastaria praticar diariamente pra sempre, indefinidamente. Pronto! A senha da desistência foi dada. Primeiro parei com as aulas sob um pretexto qualquer. Aos poucos passei a tocar três ou quatro vezes por semana em vez de praticar diariamente como fazia. Os hiatos foram aumentando, algumas vezes por mês, poucas vezes por mês, algumas vezes por ano. Mais de um ano sem pegar no saxofone. Dois anos sem tirar o instrumento da caixa. Tinha várias desculpas: muito trabalho, cansaço... Aposentei e um dos meus propósitos era pegar firme no sax, treinar diariamente. Isso nunca aconteceu. Nos últimos quatro meses peguei uma única vez. Estou tão destreinado que toco hoje, quinze anos depois, muito pior do que nos meus primeiros dois meses de aula. Cometo erros infantis, esqueci como se lê uma partitura...
Surpreendido pelo Presente
Pensar a longo prazo é um exercício exaustivo, algo que me exaure e me faz desanimar de qualquer coisa. Minha vida tem que ser medida em semanas, no máximo poucos meses. Anos? Isso não existe, não concebo nada em anos. Por isso nunca fiz nenhum tipo de planejamento na vida. Como planejar algo se tenho uma cabeça tão caótica? Se meses pra mim equivalem a séculos? Vivo o dia a dia. Ou semana a semana. Tá bom, já é futurismo suficiente.
O maior problema dessa falta de pensamento de longo prazo é ser sempre surpreendido pelo presente. Todos os futuros insistem em virar presentes sem que eu esteja preparado. Sempre me pegam de surpresa. De surpresa em surpresa saí da adolescência e cheguei à terceira idade exatamente da mesma maneira: inesperadamente!
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Para compreender mais sobre a chamada "cegueira temporal" e os impactos neurobiológicos da disfunção executiva no transtorno, acesse a ABDA - Associação Brasileira do Déficit de Atenção, principal portal de referência científica e acolhimento sobre TDAH no Brasil.
FAQ (Perguntas Frequentes)
1. O que explica a extrema pontualidade em compromissos de poucas horas e a paralisia diante de prazos de meses no TDAH?
Resposta: O cérebro com TDAH apresenta uma alteração na percepção temporal conhecida como "cegueira do tempo". Horas e prazos imediatos ativam o sistema de alerta por conta da pressão do estresse (liberação de adrenalina), gerando o foco necessário para a pontualidade. Já prazos distantes de semanas ou meses são percebidos como algo abstrato, sem apelo dopaminérgico suficiente para engajar a ação no momento presente.
2. Por que a perspectiva de praticar um hobby ou estudo "para sempre" provoca a desistência imediata em quem tem TDAH?
Resposta: A disfunção executiva do TDAH faz com que o planejamento indeterminado ou de altíssimo longo prazo seja percebido pela mente como uma carga exaustiva e sem recompensa palpável. Quando o cérebro antecipa esse esforço infinito sem um término próximo, o circuito de motivação sofre um colapso, resultando na perda de interesse e na desistência (a "senha da desistência").
