MEU TDAH TEM ENDEREÇO: TEMPORAL ESQUERDO.


"Composição dividida: à esquerda uma cidade moderna com arranha-céus, à direita uma cidade dos anos 1960 com carros antigos e calçamento de pedras. Uma pessoa abre uma cortina que cobria a cidade antiga, revelando o passado. Representação visual da descoberta do TDAH adquirido."
Descortinando a origem do TDAH adquirido 


Nota do Autor: Este texto marca uma virada na forma como entendo meu próprio TDAH. Durante anos, aceitei o diagnóstico sem questionar sua origem. Recentemente, reconectando fatos da minha infância com a literatura científica, descobri a possibilidade de que meu transtorno tenha uma causa neurológica documentável. Não muda o que vivi — muda como me encaro. Não sou médico nem psicólogo. O que compartilho aqui é minha experiência pessoal amparada por referências que indico ao final.



O Fato Esquecido

Dia desses me lembrei de um fato que minha mãe comentava: nasci atrasado, em virtude disso nasci arroxeado. Pela primeira vez conectei isso a outros fatos que mudaram completamente minha visão sobre meu TDAH e minha história de vida.

A Lesão e o Gardenal

Aos quatro anos de idade tive uma convulsão cerebral. Naquela época, 1964, não existia aparelho de eletroencéfalograma em Juiz de Fora, onde nasci. Tivemos que ir para o Rio de Janeiro e lembro-me nitidamente de que o equipamento ocupava uma parede inteira. O exame constatou uma lesão no temporal esquerdo — o eletroencéfalograma ou outro, a memória de uma criança de quatro anos não guarda esse detalhe, mas a lesão era real. A partir daí comecei a tomar cem miligramas de fenobarbital (que nada mais é que o famoso Gardenal) por dia. Cinquenta miligramas ao deitar mais cinquenta ao acordar.

Isso perdurou até os doze anos de idade quando, numa aula de educação física, tive uma tontura e acabei caindo. Não tive nova convulsão — a única da minha vida foi aquela aos quatro anos — mas foi o bastante para voltar ao Rio de Janeiro e consultar com um neurologista famoso na época: Dr. Carlos Bacelar. Saí de lá com o dobro da dose que tomava até então: duzentas miligramas divididas em duas tomadas.

Assim foi até os meus dezenove anos, quando, por esquecimento e sei lá por quais outros motivos, fui deixando de tomar a dose matinal. Até aos vinte e três anos tomei os cem miligramas ao deitar. Nessa idade comecei a me questionar se já não era hora de suspender definitivamente o Gardenal. Procurei o médico que havia me atendido aos quatro anos de idade e ele ficou surpreso de que eu ainda tomasse o Gardenal.

Ao contrário dos eletros anteriores, que mais pareciam aqueles sismógrafos de filme em momentos de terremoto, o eletroencéfalograma feito aos vinte e três anos apresentava ondas tranquilas, quase marolas. Substituí o Gardenal por Maliasin, aos poucos fui reduzindo a dosagem até parar.

E esqueci disso completamente.

A Conexão que Demorou Mais de 40 Anos

Aos cinquenta anos fui diagnosticado com TDAH e, mesmo ali, não fiz essa conexão com o tratamento da infância e adolescência.

Sem qualquer razão aparente, outro dia, pensei nisso e me veio esta dúvida: será que meus sintomas de TDAH não têm a ver com a lesão no temporal esquerdo e as doses cavalares e prolongadas de fenobarbital na época em que o cérebro está em formação?

Bingo!

Fui pesquisar e me deparei com o conceito do TDAH adquirido. A literatura neurológica reconhece cada vez mais que lesões cerebrais podem gerar sintomas clinicamente semelhantes aos do TDAH. No meu caso, uma lesão no temporal esquerdo pode afetar a memória de trabalho (exatamente a memória executiva que tanto falta nos TDAHs), a velocidade de processamento das informações e o déficit de atenção a longo prazo. Já o uso prolongado do Gardenal na infância e adolescência pode causar problemas cognitivos, de memória e de processamento.

Somando um ao outro = Eu.


Isso É TDAH de Verdade?

Desde então tenho refletido se isso é ou não TDAH. Mesmo amparado por literatura científica que comprova a similaridade do TDAH genético ao TDAH adquirido, relutei em aceitar essa forma "estranha" de TDAH.

Bem, se você um dia se encontrar com um bicho com cara de jacaré, boca e dentes de jacaré, rabo de jacaré, corra o mais que puder sem se perguntar se é jacaré, crocodilo ou aligator. Corra, qualquer um deles vai te atacar.

Enfrento os mesmos sintomas, inclusive tenho um post onde relato os [doze sintomas](link para "12 Sintomas do TDAH em Adultos") com que convivo. Sinto as mesmas dores e as mesmas perdas. Destruí minha vida inúmeras vezes, exatamente como os TDAHs genéticos.

Portanto, sou um TDAH raiz.

O Que Isso Mudou na Minha Vida?

Nada. E tudo!

Nada do que vivi, senti e sofri se alterou, mas a maneira como me encaro mudou. Sempre preguei o auto perdão — essa foi uma das minhas primeiras medidas ao saber-me TDAH. Mas por mais que eu me perdoasse, arrastava uma culpa pelos fracassos, pelos erros cometidos contra minha própria vida e a vida de pessoas com quem convivi.

Não sinto mais tanta culpa. Aquela imponderabilidade do TDAH não me acompanha mais. Meu TDAH é documentado, palpável e comprovado. Não existe mais dúvida de que sou portador de TDAH.

A Pedra e a Mochila

Subimos uma montanha imaginária na vida. Cada um empurra sua pedra. O TDAH empurra sua pedra, mas carrega nas costas uma mochila cheia de outras pedras. É muito mais pesado o fardo do TDAH.

É comum que mesmo quem não carregue uma mochila de pedras às costas deixe, vez ou outra, sua pedra rolar morro abaixo. Quem carrega a mochila deixa que a pedra role mais vezes por puro cansaço, esgotamento, fadiga.

Ao mesmo tempo, o TDAH que me faz deixar com que minha pedra role morro abaixo por desatenção ou outro motivo qualquer é o mesmo que me faz descer o morro e retomar minha caminhada rumo ao topo sem grandes sofrimentos, sem autoflagelação. Simplesmente retomo o trabalho de empurrar a pedra.

Ninguém é mais resiliente que um TDAH. Não por escolha, mas por imposição do transtorno. O que na realidade não importa — importa que seguiremos em frente.

Gostem ou não.




Se você suspeita que seus sintomas de TDAH podem ter origem neurológica adquirida, procure um neurologista especializado. Para informações científicas atualizadas sobre TDAH, acesse o site da ABDA — Associação Brasileira do Déficit de Atenção.




LEIA TAMBÉM:


12 Sintomas do TDAH em Adultos: Relato Real de Quem Convive com o Transtorno — Os sintomas que descrevo ter vindo da lesão e do Gardenal são os mesmos que listei neste relato de mais de 15 anos vivendo com o transtorno.

A Ritalina e Seus Efeitos: O Que Aprendi em Anos de Tratamento — Depois de 19 anos de Gardenal, a Ritalina representou uma mudança completamente diferente no meu tratamento. Relato minha experiência com a troca de medicação.

Afinal, o que é ser TDAH? — A Trilogia — As três reflexões que escrevi sobre a essência do TDAH: o ciclo da dor, a intensidade humana e a obstinação de recomeçar.

Praticar o TDAH: O Dia em que Parei de Me Vigiar e Paguei o Preço — A conclusão de que o TDAH precisa ser vivenciado e experienciado. Uma ideia que ganha nova profundidade quando se descobre a origem neurológica do transtorno.

Estatuto do TDAH: Manifesto pela Liberdade de Ser Quem Somos — Os 13 direitos que todo portador de TDAH deveria ter. Uma homenagem ao poema de Thiago de Mello adaptada à realidade do transtorno.


FAQ — PERGUNTAS FREQUENTES


P: O que é TDAH adquirido?

R: Diferente do TDAH de origem predominantemente genética, o TDAH adquirido se desenvolve após lesões cerebrais, traumatismos cranianos ou exposição prolongada a medicações durante o período de formação do cérebro. Os sintomas são clinicamente semelhantes ao TDAH genético e incluem déficit de atenção, problemas de memória de trabalho e dificuldades de processamento. A ciência reconhece que déficits atencionais podem ter múltiplas origens neurológicas.

P: Fenobarbital (Gardenal) usado na infância pode causar TDAH?

R: O uso prolongado de fenobarbital durante a infância e adolescência — período crítico de desenvolvimento cerebral — pode causar déficits cognitivos que incluem comprometimento de memória, atenção e velocidade de processamento. Esses efeitos se sobrepõem significativamente aos sintomas do TDAH. Em meu caso, tomei Gardenal por 19 anos consecutivos, dos 4 aos 23 anos, em doses que chegaram a 200mg diárias.

P: Uma lesão no lobo temporal pode gerar sintomas de TDAH?

R: Sim. O lobo temporal é fundamental para memória de trabalho, processamento de informações e atenção sustentada. Lesões nessa área, especialmente durante o desenvolvimento cerebral, podem produzir déficits atencionais que são clinicamente semelhantes — e podem ser indistinguíveis — do TDAH genético.

P: Se meu TDAH tem causa adquirida, minha experiência é menos válida?

R: De forma alguma. A dor, os sintomas, os ciclos de erro e recomeço são idênticos. A origem neurológica muda o diagnóstico etiológico, mas não muda a vivência, o sofrimento ou a necessidade de tratamento. TDAH adquirido e TDAH genético podem ter impacto idêntico na vida da pessoa.

P: O tratamento do TDAH adquirido é diferente do TDAH genético?

R: O tratamento é semelhante — medicação estimulante, psicoeducação, terapia e estratégias comportamentais. A diferença está na compreensão da origem, o que pode fortalecer o compromisso com o tratamento e aliviar sentimentos de culpa.

P: Como descobrir se meu TDAH pode ter origem adquirida?

R: Se você teve lesões cerebrais, traumatismos cranianos, uso prolongado de medicações neurológicas na infância ou qualquer evento que possa ter afetado o desenvolvimento cerebral, converse com um neurologista. Exames de imagem e avaliação neuropsicológica podem ajudar a mapear a origem dos sintomas.

Alexandre Schubert

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem