O ALÍVIO DO DIAGNÓSTICO
Ao ser diagnosticado com TDAH aos cinquenta anos, o sentimento que tive foi de alívio. Muita coisa da minha estava logicamente explicada. Naquele momento da minha vida eu me sentia um cretino, um canalha, um absoluto incompetente sem nenhum caráter. Após o diagnóstico enxerguei meu passado com outros olhos, os olhos de que possuo uma patologia que influi em meu comportamento. Mergulhei de cabeça neste blog. Cada texto funcionava como uma sessão de terapia, sob a supervisão de minha médica, Dra Valéria Modesto, fiz uso de Ritlina LA, Ritalina e Venvanse. Mudei minha vida radicalmente e segui em frente. Escrevi livros infantis, criei e fechei empresas, tive relacionamentos... O TDAH sempre fez parte dessa jornada. Passei a analisar quase tudo sob a ótica da influência do transtorno, decisões, sentimentos, escolhas, enfim, sempre tentava enxergar se aquele passo era dado sob a influência do TDAH.
A Virada Inesperada: O Thetahealing e a Primeira Dúvida
Em 2019 submeti-me a uma "terapia alternativa" chamada Thetahealing. Uma tal "terapia energética" que, confesso, não teve absolutamente nenhum efeito, mas, no meio da tal "sessão" - que era coletiva - me veio uma ideia na cabeça: NÃO ESTAREI SUBMETENDO DEMAIS MINHA VIDA AO TDAH ? Essa ideia começou a tomar conta da minha mente e, aos poucos, fui me desligando do TDAH. Optei por deixar a vida me levar. Mantive o tratamento com a Ritalina, mas praticamente abandonei o blog, parei de ler sobre o assunto e, principalmente, de falar sobre TDAH.
O Silêncio do Blog e o Período de Abandono (2019-2024)
Sem dúvida o blog foi o que mais sentiu, de 2019 a 2024 postei menos de vinte textos somados. Dois posts em um ano... Um abandono completo. Em vários momentos pensei em fechar o blog definitivamente. Não via como continuar falando sobre o mesmo assunto por tantos anos seguidos. Cheguei a imaginar o post de encerramento que se chamaria: O TDAH VENCEU! Por várias vezes deixei de pagar a renovação do site, a última vez ele ficou cinco meses fora do ar. Em 2025 me aposentei e, com tempo livre, comecei a revisar esses últimos anos e percebi o erro que foi abandonar o blog e consequentemente o TDAH. Ao deixar de escrever, deixei de pensar no TDAH, ao deixar de pensar deixei de estar alerta. Sem estar alerta, permiti que o TDAH se assenhoreasse de mim. E cometi muitos erros, muitos e graves.
A Constatação Dolorosa: A Recaída e a Necessidade de Vigilância
Hoje, relendo o texto de 2019, percebi o tamanho daquele erro de abandonar o TDAH. Abandonei também minhas defesas e retrocedi ao início do tratamento. Os mesmos erros, as mesmas desatenções, as mesmas procrastinações. E os mesmos resultados, obviamente.
TDAH é doença física, mas estar alerta, estar atento, possibilita reconhecer os caminhos nefastos para os quais as falhas cerebrais nos empurram e corrigi-los por vontade própria. É possível, é viável, mas para isso precisamos praticar o TDAH. Certa vez uma pessoa me disse algo que nunca esqueci: A Fé precisa ser praticada. É isso! O TDAH PRECISA SER PRATICADO! Precisa ser vivenciado, experienciado. Não se trata de armadura, mas de conhecimento. E conhecimento liberta.
Leia Também
Rompendo a Cadeia do TDAH: Quando o diagnóstico pode ser uma armadura. Esse é o texto original de 2019 onde erroneamente deixei de 'praticar meu TDAH'.Afinal, o que é ser TDAH? Manifesto da Intensidade Humana. Uma crônica poética em fluxo de consciência que define a experiência TDAH como um ato contínuo de criar, resistir e sentir intensamente, para além de qualquer rótulo.
A Armadilha da Autossabotagem no TDAH Adulto. Análise sobre os mecanismos psicológicos que levam pessoas com TDAH a boicotarem o próprio tratamento, da interrupção medicamentosa à procrastinação crônica.
Este texto aborda a complexa relação entre identidade e diagnóstico. Para aprofundar-se na psicoeducação e evitar que o transtorno se torne uma "armadura invisível", acesse os materiais oficiais da ABDA — Associação Brasileira do Déficit de Atenção, referência em informação científica sobre TDAH.
FAQ — Perguntas Frequentes
O que significa "praticar o TDAH", como mencionado no texto?
Praticar o TDAH, no contexto do relato, significa manter uma vigilância ativa e cotidiana sobre os próprios padrões de pensamento e comportamento. A ciência chama isso de psicoeducação contínua: o processo de conhecer os mecanismos do transtorno para identificar os gatilhos das desatenções e impulsividades e, assim, criar estratégias compensatórias conscientes. É transformar o conhecimento passivo em ação preventiva diária.
Por que o abandono do blog e da escrita levou a uma recaída nos sintomas?
A escrita funcionava como uma ferramenta de auto monitoramento. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), padrão-ouro no tratamento do TDAH adulto, baseia-se justamente na identificação e registro de pensamentos e ações para modificá-los. Ao abandonar a escrita, o autor perdeu seu instrumento pessoal de alerta, permitindo que comportamentos automáticos e desadaptativos — as "falhas cerebrais" que ele menciona — voltassem a operar sem oposição.
