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| SER TDAH É TER TODO O UNIVERSO EM SUA CABEÇA, AO MESMO TEMPO. |
Afinal, o que é ser TDAH?
A Trilogia que Definiu 15 Anos de Escrita
Por que esta trilogia existe
Fui diagnosticado com TDAH aos cinquenta anos. A primeira coisa que fiz foi escrever. Não um artigo — uma tentativa de dar nome ao que vivia.
Nasci em Juiz de Fora. Passei a vida me achando preguiçoso e irresponsável. Escrever virou minha forma de entender — e de me perdoar.
Estes três textos nasceram assim. Cada um de uma necessidade diferente. Mas juntos contam uma história:
A queda. A essência. O recomeço.
Se você chegou até aqui, talvez esteja procurando um espelho.
Leia na ordem. A sequência importa.
ATO 1
O Ciclo da Dor e do Arrependimento
(Janeiro de 2011)
Ser TDAH é andar em círculos, e mesmo sabendo disso, continuar andando em círculos.
É entrar deliberadamente num labirinto, sem uma marcação, sem um barbantinho que seja, para lhe mostrar o caminho de volta.
Saber que está no caminho errado, mas continuar impelido por uma força que te manda arriscar.
É começar pelo prazer de começar. Conquistar pelo prazer da conquista. Mas não conseguir saborear a conquista ou a continuidade do que começou.
É amar o efêmero, sabendo de sua volatilidade e da importância do duradouro.
É deixar escapar o duradouro e fingir desprezá-lo. Mas ele volta e te martela a cabeça lembrando-o do que abriu mão. E agora, o gosto do efêmero já se foi. Restou a culpa, o arrependimento que dói. Mas não o suficiente para que você não repita o erro. E você troca novamente o duradouro pelo fugaz. E a dor volta. E você não aprende.
Repetir os mesmos erros. Não reconhecendo-os quando os reencontra ao longo da vida.
E depois que os comete, é que compara e descobre que errou de novo, o mesmo erro. E obteve o mesmo resultado.
É agir e se arrepender. Mas agora é tarde. Está feito. E seguir em frente. Nada aconteceu, você vai se reerguer. E ter raça para conseguir. Só para agir sem pensar, de novo. Se arrepender de novo. E ter de se reerguer, de novo.
É culpar a si mesmo por tantos insucessos. Por tantos comportamentos insanos, autodestrutivos.
É se perguntar: Meu Deus, por que faço isso com a minha vida? E não obter resposta. Só o silêncio e a certeza interior de que nada mudou, nem vai mudar.
É sózinho, jurar a si próprio que vai agir de forma diferente. Somente para descobrir que falhou de novo. Como das outras vezes.
É agir de forma perigosa, inconsequente, irracional, temerária, sabendo que a vida é repleta de curvas " Tamburello"; e que elas não aceitam erros. E você morre nela, mas morre aos poucos, com muita, muita dor.
É espalhar a dor aos que te cercam, mesmo que não seja essa sua intenção. É agir corretamente durante anos, somente para jogar tudo fora no final. Trocar o perene pelo volátil. E repetir os mesmos erros.
E você se questiona. E se fecha. E erra de novo. E a culpa aumenta. A irritabilidade cresce. E você aposta, outra vez. E perde de novo. Parecia tudo tão certo! Parecia, mas você não se atentou aos detalhes. E se perdeu neles.
E você se questiona, de novo. E se fecha um pouco mais. E vê seus amigos, aqueles que nunca foram muito brilhantes, mas que possuem uma vida estável, tranquila. Parece que tudo dá certo para eles.
E você nesse turbilhão que parece não ter fim.
E você começa de novo. Agora vai ser diferente!
Não vai. Você erra outra vez. O mesmo erro. Da mesma forma.
O mundo desaba! Perplexo você acompanha a derrocada de sua vida. Atônito! Impotente!
Você se recolhe e se questiona: Eu sei o que preciso fazer, mas não consigo.
Faltam forças, falta direção, falta vontade, falta tudo.
E a culpa é sua! Você errou pela enésima vez. O mesmo enésimo erro.
E agora, o que eu faço?
Já não sou mais aquele jovem promissor.
Já não tenho aquele vigor físico, meus conhecimentos já estão um pouco mofados, minha aparência já não é tão boa.
Um desânimo enorme se apossa de você.
Mas você não se entrega. Sua cabeça fervilha de idéias, novos negócios, novas atitudes, novos caminhos, novas pessoas, nova vida.
Você se ergue, sacode a poeira e decide agir. E a dúvida te assalta. São tantas idéias, tão boas. Que caminho seguir? E o tempo passa. E você ali paralisado. Sem conseguir se decidir por qual deles caminhar.
E o tempo passa
E as oportunidades passam.
E a vida passa.
E passou por você como num filme. Exatamente assim. Um filme ruim, cheio de más atuações, falhas técnicas, péssima imagem. Você viu todos os erros, sabia exatamente o que fazer para corrigi-los; mas não podia. Não é você o autor do filme.
E a vida passou...
Releio em 2026 e reconheço cada linha. Mas agora sei que a dor tinha uma origem que não conhecia — uma lesão no temporal esquerdo e dezenove anos de Gardenal. Saber não diminui a dor. Mas diminui a culpa. Mais sobre isso: "Meu TDAH tem endereço: temporal esquerdo"
ATO 2
O Manifesto da Intensidade Humana
(Março de 2011)
Ser TDAH é criar
é recriar,
é renovar,
é inovar,
é ousar,
é arriscar,
é reerguer,
é resistir,
é ressurgir.
Ser TDAH é paixão,
é febre,
é busca,
é luta,
é fúria,
é alma.
Ser TDAH é risco,
é medo,
é coragem,
é confronto,
é revolução,
é superação.
Ser TDAH é ilusão,
é abstrato,
é fato,
é dúvida,
é símbolo,
é rótulo,
é título,
é humano.
Demasiado Humano
Das duas palavras finais — "Demasiado Humano" — nasceu a ideia de que o TDAH não é um defeito, mas uma intensificação do que já é humano. Essa intensidade afeta tudo: trabalho, projetos, amor. Mais sobre o amor: "TDAH, Amor e Relacionamentos"
ATO 3
A Obstinação de Recomeçar
(Agosto de 2012)
A frase final — "decidir entrar na caverna de novo" — define o TDAH como nenhuma definição clínica consegue. Não por coragem. Por incapacidade de aceitar que o caminho acabou. Mais sobre essa ideia: "Praticar o TDAH"
Escrevi entre 2011 e 2012. Desde então, fechei empresas, tive relacionamentos, me aposentei e descobri que meu TDAH pode ter origem neurológica documentável.
A essência continua a mesma.
Se esta é a primeira vez que me lê, comece por aqui.
Leia Também
Meu TDAH tem endereço: temporal esquerdo— A descoberta que mudou como me enxergo
12 Sintomas do TDAH em Adultos— Os doze pontos com exemplos reais
Praticar o TDAH — O TDAH precisa ser vivenciado, não combatido
TDAH, Amor e Relacionamentos - (página especial) — Como o TDAH afeta quem amamos
Ritalina e TDAH - (página especial) — Mais de dez anos com a medicação
FAQ - Perguntas Frequentes:
O que é esta trilogia?
Três textos de 2011-2012 sobre a experiência de viver com TDAH. Queda, intensidade e recomeço.
TDAH realmente vive esses ciclos?
Sim. A Cegueira Temporal impede que o cérebro retenha o aprendizado emocional dos erros. Cada repetição parece nova.
O TDAH é só dor?
Não. O segundo texto descreve a intensidade — paixão, criatividade, entrega. O problema não é a intensidade. É a dificuldade de modulá-la.
Isso é escrito por alguém com diagnóstico real?
Sim. Diagnóstico aos cinquenta anos. Tratamento com medicação desde então. Recentemente descobri possíveis origens neurológicas: [link TDAH Adquirido].
Onde encontro ciência sobre TDAH?
ABDA — Associação Brasileira do Déficit de Atenção. Meus textos são relatos pessoais.
