quarta-feira, 10 de abril de 2013

O TDAH E OS COMPROMISSOS IMPOSSÍVEIS







A inspiração desse post veio do blog mais efêmero da história da internet: o blog da minha amiga Fernanda. Durou apenas uns poucos dias, mas o suficiente para gerar esse post.
Em seu post de estréia e despedida, Fernanda ( que é veterinária ) narra um episódio em que combinou um horário com uma cliente contando com a chegada de seu marido da faculdade; que nesse dia estava de carona.
Vocês já podem imaginar o resultado, o marido que dependia de carona atrasou-se e tudo acabou em discussão.
Obviamente, depois de tudo acontecido Fernanda viu que poderia ter agido de outra forma.
Um dos sintomas do TDAH é a incapacidade de administrar o tempo. Sempre achamos que ainda dá pra fazermos isso ou aquilo antes de sairmos. Mas nesse caso específico ainda é pior; marcamos um compromisso numa hora imprópria e contando com fatos que não podemos controlar.
Quantas vezes me desesperei por marcar compromissos em que teria de me deslocar pelo trânsito caótico da minha cidade. Saía que nem um louco avançando sinais e brigando com outros motoristas para tentar chegar apenas um pouco atrasado, por que atrasado eu já estava desde que marcara o horário.
Na verdade o que nos faz agir dessa forma é o medo; o medo de perder a cliente; o medo de contrariar a esposa/namorada/ marido; o medo de ficar mal com as pessoas.
Outro dos sintomas típicos do TDAH pode interferir nessa incapacidade de negociar adequadamente os prazos: o sentimento de inferioridade. Essa necessidade de agradar e atender o nosso interlocutor, ainda que nos prejudique ou nos crie situações estressantes, imagino que advenha desse sentimentos de sermos inferiores. Ao aceitarmos o horário proposto pela pessoa a satisfazemos plenamente, mas mandamos às favas nossa tranquilidade, nosso conforto e nosso bem estar. E aí montamos engenharias complicadíssimas  e estratégias de execução duvidosa para podermos cumprir o compromisso.
Lembro-me certa vez de marcar um compromisso com um cliente grande para dali a vinte minutos a uma distância que, se tudo corresse bem eu levaria no mínimo os tais vinte minutos. Mas nunca corre tudo bem. Juiz de Fora é cortada por uma linha de trem; o trem passou justamente na hora em que eu estava indo para o compromisso. Espertamente decidi dar a volta para não esperar uns cinco ou seis minutos, caí numa blitz da PM; trânsito lento se arrastando e eu desesperado. Saí da blitz a mil por hora e decidi ligar para o cliente e avisar que eu ainda levaria uns cinco ou dez minutos para chegar - mentira, eu mal saíra da minha loja - quando levei o celular ao ouvido, materializou-se diante de mim um guarda de trânsito que apitou para que eu parasse e me sapecou uma multa por dirigir falando ao celular, além de um sermão que me custou mais uns dez minutos.
Cheguei ao compromisso uns cinquenta minutos depois que saí da loja e para minha alegria e satisfação o cliente ainda não havia chegado. Esperei ainda uns dez minutos e ele chegou sorridente sem sequer mencionar o seu atraso; se eu tivesse chegado pontualmente teria esperado por ele cerca de quarenta minutos.
Para coroar todo o meu estresse, a tal reunião com o cliente foi uma idiotice que poderia ter sido resolvida por telefone e eu voltei pra minha loja bufando de raiva e cerca de cento e vinte reais mais pobre, por conta da multa que havia tomado minutos antes.
E não aprendi. Repeti essa insanidade muitas vezes, e às vezes ainda me esqueço e marco algo de difícil execução. Mas já aprendi a avisar dos percalços com antecedência e remarcar se necessário.
Pois bem , Fernanda, você não é a única a criar situações de conflito e estresse nesse mundo TDAH. Parece que nosso transtorno se compraz em nos torturar e tornar nossa vida mais áspera, incômoda e desagradável.
Se não conseguimos desagradar aos clientes e as pessoas que nos cercam, tentemos ao menos desagradar ao TDAH, assumindo compromissos que possamos cumprir sem nos machucar ou machucar a quem amamos.