sábado, 4 de junho de 2011

TRATE O TDAH; APESAR DA SUA FAMÍLIA.



Recebo muitos comentários, vários deles por email, comentando os sintomas de cada um e muitas vezes desabafando sobre suas dificuldades com o TDAH. Na maioria dos casos eles reclamam da falta de apoio da família, da dificuldade de manter o tratamento sozinho. Tenho oferecido minha solidariedade, meu apoio, mas nada disso substitui o carinho e a atenção dos familiares. Eu poderia transformar esse post numa tribuna para criticar aquelas famílias que não apóiam ou ignoram os portadores, deixando-os absolutamente sós nessa luta contra uma mente confusa e em constante ebulição. Mas do que isso iria adiantar?
Na quase totalidade dos casos, a crítica gera uma reação de defesa, o criticado se fecha e busca se defender, se justificar por suas ações e nada muda. Portanto, decidi tentar uma abordagem diferente, como manter seu tratamento APESAR da sua família.
Em primeiro lugar devemos definir o que é apoio familiar. Apoiar é reconhecer a existência do TDAH. Monitorar, ainda que de longe, a manutenção do tratamento. Sabemos que qualquer rotina de longo prazo é dificílima para um TDAH, o tratamento não é diferente. Respeitar o portador, evitando apelidos e críticas calcadas no transtorno, nas deficiências típicas do TDAH. Não tratar o portador como uma pessoa diferente, incapaz, mas sim como uma pessoa normal, que possui uma doença controlável sob tratamento, que se mantido, só tende a melhorar a vida do portador e de toda a sua família.
Agora, vamos a nós.
Boa parte dos emails que recebo são de pessoas novas, muito novas, na faixa de vinte e poucos anos. Nessa idade os sintomas do TDAH se confundem com a adolescência, com a rebeldia da idade e a família tende a tratá-lo como um aborrecente elevado ao quadrado, ao cubo, em alguns casos a n. Creio que cabe a nós  dar a correta dimensão do que sentimos  e precisamos; claro que cada família é de uma forma, reage de um jeito, mas poucas coisas são tão eficientes quanto o diálogo, a conversa, o jogo aberto. Ainda que você tenha vergonha, seja passivo ou tímido, pense no seu sofrimento, crie coragem e converse com seus pais, cônjuges, irmãos. Em primeiro lugar deixe claro sua insatisfação com apelidos e brincadeiras se estas os incomodarem. Não atenda se te chamarem de uma forma pejorativa, ainda que aparentemente carinhosa. ‘Doidinha NÃO! Eu sou portadora de TDAH! Isso não me diminui, pelo contrário, se levarmos para o lado da criatividade, das artes, damos um banho nos tais ‘normais’, que não conseguem pensar fora da caixa em que foram criados’.
Não briguem, isso só piora as coisas. Se o diálogo for difícil, escreva. Mas deixe claro que aquele comportamento adotado pela família aumenta o seu sofrimento. Não confundam atenção com PENA, não precisamos de pena. O que é importante na família é o respeito, a aceitação e o monitoramento do tratamento.
Não parta do princípio de que não dá pra conversar com seus pais antes de tentar. Mas quando falo em conversar, é conversar mesmo, não acusar ou agredir, lembre-se, isso gera uma reação de defesa e a conversa empaca. Abra o seu coração e mostre-lhes os seus sentimentos, suas inseguranças, suas dúvidas, seus medos. Não cobre ou acuse, exponha o que você sente, os conflitos que o TDAH cria dentro de você, o apoio virá de forma natural.
Bem, você tentou, e nada mudou. Sua família continua ignorando seu tratamento. O máximo que fazem é comprar o remédio ou pagar a consulta. O que fazer?
Nada! Pagar o plano de saúde e os medicamentos já é uma forma de apoio. Use-a. E  vá viver sua vida. Não se apegue a isso. Por mais que o apoio da família seja importante, quem sofre é você, e é você que quer se livrar dessa tortura.
Esse é o maior estímulo ao  tratamento; o sofrimento pelo qual você passa quando está sem o remédio. Lembre-se dos constrangimentos que você  passou, as burrices que cometeu, o sofrimento que causou aos outros, mas principalmente a você mesmo. Se você não está sentindo os efeitos da ritalina ( ou de qualquer outro medicamento que tome) volte no seu médico, peça que mude a dosagem, a forma de tomá-lo. Procure ajuda com suas próprias pernas, não espere que caia do céu.
Cuidado! Você - e todos nós portadores- tem um grande inimigo: a auto sabotagem. Você irá arrumar várias desculpas para não se tratar; elas vão desde a falta de tempo para  ir ao médico até a chuva que tá muito forte, o remédio que te deixa trêmulo ou irritado demais. Policie-se, quanto mais racional e lógica for sua razão para não se tratar, maiores serão os motivos para manter o tratamento. Lembre-se, você não quer mais sofrer, você quer outra vida. Você merece outra vida. Ninguém nasceu para sofrer ou para ter TDAH. TDAH é um ‘defeito’ de fabricação, que graças a DEUS, possui um recall. Portanto, cuide-se. Parafraseando Caetano Veloso, TDAH é para brilhar e não para viver sofrendo.
Se sua família não entende, não aceita, procure a ABDA, seu médico, sua coach, seu psicólogo, me procure, procure outros blogueiros com TDAH, apoio não vai lhe faltar. Claro, nenhum de nós substituirá sua família. Mas ela estará aí, perto de você e será testemunha de sua mudança, de seus progressos, acompanhará a melhora de seu vocabulário, a redução nas explosões de mau humor, o fim da procrastinação...
Sua família pode não ajudar em seu tratamento, mas certamente estará presente para aplaudir seus progressos e suas mudanças, e essa será sua ‘vingança’ ; eles estavam errados.
Prove o sabor de uma vida nova, experimente tratar-se com regularidade. A rotina é um saco? Claro que é, mas seu sofrimento com a doença é uma rotina. Você sofre rotineiramente os efeitos da falta de tratamento. Quebre essa rotina também.