quinta-feira, 12 de setembro de 2013

TDAH - OS MALABARISTAS DA VIDA









Parado no sinal de trânsito, observo um jovem que faz malabarismos em troca de algumas moedas
Bolas coloridas giram em suas mãos, não com a maestria que se espera de um malabarista profissional, mas com a insegurança dos que lutam pela sobrevivência nesse país cruel e indiferente.
Meus olhos acompanham as bolinhas e meu pensamento viaja na louca velocidade do TDAH: cada bola daquela que gira em círculos desiguais e inseguros, simboliza um aspecto da minha personalidade. A impulsividade pode ser a laranja; a azul, a desatenção; a preta, a fúria que a duras penas consegui dominar; a amarela, a personalidade sonhadora; a vermelha, essa representa a paixão exacerbada; a branca a inconsequência.
Já não enxergo o garoto do sinal, ali estou eu, um malabarista da vida, numa esquina qualquer da minha existência equilibrando emoções que não domino, tentando mantê-las alinhadas e seguras em minhas mãos.
Apesar do meu esforço minhas mãos tremem, o ruído das ruas me incomoda e me faz perder a atenção; a bolinha preta passa a milímetros da paixão exacerbada. Meu Deus, penso, isso é perigosíssimo; a fúria e a paixão juntas. Então a impulsividade esbarra levemente na desatenção, foi tão de leve que parece que não surtirá nenhum efeito. Ledo engano; o círculo se desfaz entortando para fora. O laranja impulsividade choca-se com a bolinha branca da inconsequência; juntas inconsequência e impulsividade perdem velocidade e são alcançadas pela bolinha vermelha da paixão incandescente. Suo frio e tento desesperadamente controlar as bolinhas desgovernadas. Acelero meus movimentos na vã tentativa de impedir que se choquem com a fúria que anda bem controlada em uma das mãos. Mas já é tarde, os sonhos da bola amarela se chocam com a impulsividade, a inconsequência e a paixão. E começam, uma a uma, a cair ao chão. Impotente olho-as saltando ao redor dos meus pés. Na minha mão apenas a bola preta. Nesse instante a bolinha azul da desatenção caiu sobre meu pé e correu pra longe, onde eu não poderia alcançá-la rapidamente.
Meu olhos enchem-se de lágrimas, a mão crispa-se sobre a bolinha preta, mas um estranho alento tomou meu coração: a fúria ainda está sob meu controle. De resto, agacho-me num movimento milhares de vezes repetidos ao longo da vida e recomeço a juntar as bolinhas da minha personalidade espalhadas no asfalto.
Meu Deus, falo pra mim mesmo, quantas vezes mais terei de juntar os cacos da minha vida?
A bolinha azul da desatenção sumiu. Não me recordo sequer pra que lado ela rolou.
Olho ao redor... Em vão. A bolinha azul sumiu.
Trago a mente vazia e no peito uma sensação estranha de que jamais serei um exímio malabarista da vida.

ESSE POST É DEDICADO AO LEITOR DIEGO BUENO QUE CUNHOU A EXPRESSÃO: MALABARISTA DA VIDA, AO FALAR DAS CARACTERÍSTICAS DO TDAH EM NOSSAS VIDAS NUM COMENTÁRIO POSTADO NO DIA 8 DE SETEMBRO ÚLTIMO.
DIEGO É PSICÓLOGO, PROFESSOR, TDAH E VEM ENRIQUECENDO NOSSO BLOG COM SEUS COMENTÁRIOS BRILHANTES.

OBRIGADO POR SUA COLABORAÇÃO.