quarta-feira, 1 de abril de 2015

O TDAH E OS PROJETOS ABANDONADOS




Um comentário no blog dizia que deixar projetos inconclusos consome energia, desgasta...
Deve desgastar mesmo, principalmente se a pessoa tem consciência de que o deixou sem conclusão.
Não com um TDAH. E aí reside a principal confusão que um não TDAH faz ao tentar nos ajudar. Não temos consciência de que abandonamos os projetos, simplesmente eles são substituídos por novos sonhos, por novos projetos, por novas sensações...
O projeto é sabotado por uma série de comportamentos erráticos que tomamos ao longo de sua construção.
O abandonamos por que cansamos dele, por que enjoamos, por que o legal é projetar e não concluir. O sonho é  mais importante do que a obra. Muitas vezes elaborar o projeto já sacia o desejo por ele, não é necessário concluí-lo.
O que sabota um projeto é a infinidade de caminhos mentais que se abrem durante sua elaboração. A cada passo, novas emoções se nos oferecem, são novas janelas, com novas e interessantes paisagens; que por sua vez, se abrem para novas janelas, que se abrem para novas janelas... E o projeto original foi apenas o  mote para tantas sensações; já foi esquecido, morreu, caiu no limbo.
O TDAH nos guia pelos labirintos da mente, mas ele também não conhece o caminho. Mas ainda que saibamos disso, não conseguimos nos desvencilhar dele.
O que nos resta é inverter essa relação; deixarmos de ser guiados pelo TDAH e passarmos a guiá-lo por entre os corredores da mente humana.
Não sabemos se encontraremos a saída, mas sabemos que, pelo menos,  assumimos o controle dessa busca.

23 comentários:

  1. Esse infeliz desse tda roubou minha vida e meus sonhos... Estou tão cansada.. Só penso em desistir de tudo. Ele me domina e eu odeio essa sensação de incapacidade. Tô pirando. Renata.

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    1. Oi Renata,

      Aos 51 anos de idade convivendo com esta praga do TDAH, eu concordo em QUASE tudo que vc disse.

      Digo isso porque, à despeito desta maldita doença, e por conta de alguma coisa que não sei o que foi, consegui ter e manter um relacionamento conjugal; ter uma atividade profissional e criar dois filhos.

      Tudo, claro, dentro de um clima de muita, mas muita mesma, instabilidade.

      Uma coisa que melhorou muito o meu desânimo e a minha depressão foi a medicação. Quando comecei a tomar o CONCERTA (CONCERTA = RITALINA) foi um verdadeiro divisor de águas. Não cura a praga do TDAH; não elimina a maioria dos sintomas; mas, é uma ajuda substancial para que nós fiquemos produtivos e, melhor de tudo, que sejamos suportável para nós mesmos.

      No mais, grande abraço, força e ¨pau na medicação¨.

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  2. Esse post foi fantástico! Comecei meu tratamento segunda... 10mg de Ritalina LA. Depois de anos lutando sozinho contra isso, vou me tratar.
    Super animado. Ta dando super certo.
    Muito feliz por ter encontrado esse blog. Ta abrindo meus olhos para coisas que eu fazia sem perceber (e com 31 anos você pode imaginar quantas coisas eu deixei pelo caminho...).
    Muito obrigado.
    Marconi

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  3. A HISTORINHA

    D. Lineuzinha, esposa e mãe de TDAH, recebe a ligação do filho (22 anos) que está morando e fazendo faculda-de em outro estado. Após 40 minutos de conversa, ela desliga e vai falar com o marido TDAH:

    - Mô, era nosso filho no telefone. Conversei um tempão com ele. Fiquei surpresa e emocionada, as lágrimas chegaram a rolar pelos olhos.

    - Porque? qual a bronca desta vez?

    - Não é bronca nenhuma, não, você já vai logo pensando no pior …

    - Pai TDAH, sabe o potencial inesgotável de broncas que um filho TDAH pode praticar … mas deixa isto pra lá, afinal, fale da tal conversa, mas fale na versão curta pois a minha atenção já está indo embora.

    D. Lineuzinha, siciliana-leonina, começa a sentir o sangue subindo com a resposta desinteressada dada pelo marido, mas lembra da conversa que teve com o amado filho e amolece o coração. Ela, então, resolve solta o porrete que já estava pegando e prossegue na conversa:

    - Primeiro, fiquei surpresa com o fato de que ele sustentou uma conversa de quase 40 minutos, interagindo nos assuntos, começando e terminando as frases de modo lógico, até usou palavras ¨difíceis¨, tipo: ¨respectivamente¨, ¨consequência¨, ¨hipocrisia¨ … uma verdadeira conversa de gente madura. Fiquei super orgulhosa. E tem mais …

    - Meu deus, esta é a versão curta? e tem mais? cadê meu CONCERTA? tá difícil continuar a prestar atenção …. conta logo mulher.

    D. Lineuzinha volta a acariciar o porrete, mas, decidida a dar as boas notícias até o fim, põe de lado o ¨Adestrador de Marido TDAH¨ e prossegue:

    - A melhor parte foi aquela em que ele me emocionou. Pois ele começou a dizer que reconhecia e era muito grato por tudo o que agente fez e faz por ele; pelo apoio que nós sempre lhe demos; que sabe o quanto agente se sacrifica para conseguir manter ele na faculdade e morando em outro estado; pelo fato da gente não pressionar ele além da conta, mesmo quando ele perde matérias na faculdade; enfim, se derramou de agradecimentos e palavras de carinho. Me disse que me ama muito e mandou dizer a vc que lhe ama muito também. Nesta hora ele começou a embargar a voz de tanta emoção e eu, então, nem consegui falar, as lágrimas brotaram aos montes …

    D. Lineuzinha faz uma pausa, pois voltou a se emocionar e as lagrimas caem mais uma vez. Quando ela se recu-pera, olha para o marido e vê que ele já não estava mais na sala, pelo menos não em espírito, pois a mente dele, bem sabia ela, deveria estar em qualquer outro lugar do universo, menos no que ela estava falando.

    Aí não teve jeito, revoltada com o ¨descaso¨, D. Lineuzinha agarra o ¨Adestrador de Marido TDAH¨ e começa a agitar ele no ar. O Marido TDAH, já com o lombo calejado de tanto ¨adestramento¨, e ajudado pelos dois com-primidos de CONCERTA que já havia tomado, resolve interagir. Afinal, enfrentar D. Lineuzinha quando ela está de sangue quente é suicídio … na certa.

    - Calma, mulher, calma. Me responda primeiro uma coisa.

    - O que é?

    - Ele voltou a tomar o CONCERTA de modo regular?

    - Voltou sim, já faz uns 15 dias. Ele agora toma logo quando acorda.

    - Então, é isso …

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  4. O marido TDAH, entendendo que com esta frase ¨Então é isto¨, tinha respondido tudo, volta a sua atenção para algo mais importante, tipo como seria namorar em plutão.

    Enquanto isto, D. Lineuzinha fica esperando a conclusão da frase, quando percebe que ela não vem, dá logo uma cutucada na cabeça do marido com o ¨Adestrador de Marido TDAH¨ e fala:

    - É isso o que? Fala logo. E não me venha com esta conversa de ¨versão curta¨, desembucha tudo.

    Com CONCERTA já fazendo efeito, o marido TDAH se sente muito bem para ¨desembuchar¨, aí ele limpa o sangue escorrendo da cabeça e fala:

    - Com relação ao fato de que ele está muito mais ¨fluente¨, mais ¨maduro¨, sustentando diálogos longos, com começo meio e fim, já não deveria ser surpresa para você, pois você está cansada de ver esta diferença em mim e nele quando estamos tomando a medicação. No caso dele, eu fico revoltado é quando ele para de tomar a medi-cação, pois não entendo como ele próprio não vê estes benefícios para ele.

    - … é verdade. É que às vezes esqueço deste tal TDAH. Mas, fora isto, ele estava muito carinhoso também.

    - Então, é isto, não lhe falei. É o CONCERTA agindo.

    - Como assim, ¨o CONCERTA¨? Tudo seu agora é o TDAH ou o CONCERTA. O que o CONCERTA tem há ver com as declarações de amor dele?

    - O CONCERTA, minha linda, principalmente no início, me fez ficar muito emotivo, e deve está fazendo a mesma coisa nele. No meu caso, eu até já ficava esperando, era sempre por volta de 8:00hs e 1400hs. Eu, do nada, danava a pensar nas pessoas e a ligar para dizer o quanto eu as amavas. Lembra não, eu ligava para vc e derramava palavras de amor eterno? Teve até uma vez que eu liguei para nosso filho dizendo que o amava e ele depois foi dizer a vc que achava que eu esta ¨bebendo¨ lembra disto? Outras vezes eu ligava para os amigos para falar que estava com saudades deles, acho até que eles acharam que eu estava boiolando.

    D. Lineuzinha reflete sobre as palavras do marido. Ela lembra realmente que isto acontecia, mas lembra também que o marido nunca mais teve estes tais ¨Ataques emotivos¨, de lhe ligar do nada e falar palavras de ¨amor eterno¨. Seu coração vai ficando cada vez mais apertado, já agora ao imaginar que o mesmo irá acontecer com seu filho TDAH, e que talvez ele um dia também deixe de lhe dizer o quanto lhe ama.

    Mas o pior foi que a mente da D. Lineuzinha começou a ser invadida por um questionamento: Será, então, que o marido e o filho dela realmente a amam, ou as declarações são meros ¨efeitos colaterais¨ da medicação, meras reações químicas sem nenhum valor profundo?

    Eis que o Marido de D. Lineuzinha, que é TDAH, mas é também muito inteligente, intuitivo, sagaz, lindo, maravilhoso, etc.., olha para o semblante dela e, percebendo a sua tristeza, esclarece:

    - Veja bem, amor, - enquanto ele fala a palavra ¨amor¨ de forma melosa, ele vai afastando o ¨Adestrador de Marido TDAH¨ para longe, que ele é TDAH mas não é besta - não pense que o meu amor e o do nosso filho por vc não é sincero, fruto de uma ¨viagem¨ química, ou uma fantasia criada pela medicação, não.

    Prossegue o marido TDAH, já muito embalado pelo efeito do CONCERTA:

    - Nós realmente te amamos profundamente, apenas que, sem a medicação, simplesmente não conseguimos verbalizar os nossos sentimentos. A medicação nada cria, nada inventa, ela simplesmente permite ao TDAH sair de sua concha mental e expor os seus pensamentos, sejam eles bons ou ruins. O nosso filho realmente nos ama, tomando ou não o CONCERTA, apenas que, tomando a medicação, ele irá conseguir verbalizar isto.

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  5. PARTE FINAL E PICANTE - Tirem as crianças da sala.

    Percebendo que D. Lineuzinha vai ficando cada vez mais feliz com a explicação, o marido TDAH, com inegável astúcia, rapidamente planeja um ¨grand finale¨ para a conversa, e, então, dá o bote final:

    - Veja o meu caso, por exemplo, é fato que não tenho mais lhe declarado o meu amor por você com frequência, isto se deve à medicação que já está diminuindo o seu efeito, mas tenha certeza do meu grande amor e paixão por você, que vc é e sempre será o meu eterno amor, vc é linda, maravilhosa, magra, muito magra mesmo, usa sapatos lindos, com bolsas estonteantes, isto sem falar no seu cabelo, blá, blá, blá, …

    … e por aí seguiu a conversa do marido TDAH, derretendo por completo o coração de sua Lineuzinha, razão pela qual conseguiu sucesso na sua fogosa estratégia em conseguir ter uma noite de tórrida volúpia …. sem contar o fato de encerrar aquela conversa que já estava comprida demais ...

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  6. êpa, eu já ia me esquecendo o motivo do texto acima, lá vai:

    MORAL DA HISTÓRIA

    Esta história toda para lhe dizer, Alexandre, que você é, e sempre foi um caro brilhante, realmente brilhante, ao traduzir em poucas palavras todo o nosso ser TDAH. - coisa que obviamente não consigo fazer -

    Mas, voltando a tomar a medicação, você realmente consegue registrar isto com muito mais velocidade, profundidade e competência.

    Que vc continue assim, tomando a medicação e, com seus textos e este blog, nos dando este prazer e alento de poder contar com com um espaço no qual podemos interagir com os nossos iguais (e com os chatos que aparecem de vez em quando, faz parte também),

    OBS: Bem, isto é para ser um elogio, caso não tenha ficado claro.

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    1. E eu ainda acho que o Alexandre deveria criar alguma história com um personagem TDA-H que clarifique tudo o que ele já sabe até então. E inclusive fazer essa história com calma (sim, mesmo sendo TDA-H), revisando-a de vez em quando, anotando todas as ideias que vierem a qualquer momento e dando um jeito de encaixá-las. Revisando a história como um todo (TDA-H's são bons em visualizações holísticas, se é que o termo existe), amadurecendo-a, e propondo a alguém que faça um filme!

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  7. Oi Alexandre! Estou tomando Ritalina há dois meses, e até então senti muitas melhoras (não só na concentração, mas como o Walter mesmo exemplificou no texto acima, tenho tido muito mais facildade em interagir com as pessoas e externar meus pensamentos e opiniões - e até passei a me interessar novamente por coisas antes esquecidas!). Mas percebo que, quando estou desgastada emocionalmente e fisicamente (por exemplo, fui mal em uma prova difícil esses dias, me desanimei, e mesmo com o medicamento, não consegui sair dos meus pensamentos e me vi obrigada a voltar pra casa porque não conseguia acompanhar simplesmente nada no dia). Isso é normal, ou a Ritalina deveria fazer efeito mesmo assim? E também percebo que de vez em quando começo a me sentir fraca, minhas mãos começam a ficar trêmulas durante o efeito do remédio, além de que tive uma crise de ansiedade há umas semanas atrás, o que nunca havia me ocorrido. Pode me falar alguma coisa sobre? Obrigada, boa noite!

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    1. Você é hipertensa?

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    2. Não sou, inclusive sempre tive problemas com pressão baixa...

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  8. Eu abandono tudo que eu começo, sem pensar nas consequências, sem pensar nos outros. Abandono até amizades.
    Quando começo algo novo, fazendo planos, quem me conhece de verdade já fala " Leeeeeeeembra disso, isso e mais aquilo que você também começou e depois saiu pela tangente? Você vai fazer tudo de novo. Nem começa!!" Eu prometo que, dessa vez, tudo será diferente, que vou me dedicar mais, blá, blá blá.. E repito tudo de novo.

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    1. Nossa, lendo seu post percebi que também faço isso constantemente: abandonar amizades.

      Nunca tinha parado para pensar nisso. Isso é muito triste.

      Como fui diagnosticada a pouco tempo com TDAH, hoje percebo que isso se deve, em grande parte, pela doença.

      Como esse transtorno é nocivo!

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  9. Ai ai... adorei o texto Alexandre e o seu tb, Walter. Não vejo a hora de poder conhecer a sensação de estar medicada corretamente. Enquanto aos meus projetos... tantos que ficaram para trás. Enfim... é isso.
    Abraço.
    Paula

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  11. Depois de tanto pesquisar sobre o tdah,Tenho certeza de que tenho este problema,mas encontrar no sus um médico que é especializado em diagnóstico de tdah parece Ser impossível e enquanto isso vivo olhando a vida passar , sofrendo com depressão , críticas da minha família .ninguém me entende nem eu .isso dói muito .é com lágrimas que estou digitando esse desabafo .se eu tivesse dinheiro seria mais fácil prcurar um médico,mas não tenho.dependo de pessoas que só vê o meu passado de fracassos e me acham um caso perdido.é triste mas eu estou me sentindo assim também , um caso perdido





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    1. Ôh querida, sei que precisamos de médicos, mas não podemos esquecer do nosso Médico maior, Deus! Que nossa fé em Deus ou força maior que vc acredite, nunca se apague. Lembre que não estás só. Se fortaleça, fortaleça sua fé!
      Lembre que podemos descer até o fundo do poço, mas depois só poderemos subir. Então suba!!!! Já desci várias vezes, mas por mim, e por outras pessoas que me amam, eu subo.
      Não somos casos perdidos! Lembre-se que quem te causa essa sensação é o tda. Vc não é e nunca será um caso perdido. Vamos ter uma visão panorâmica da situação, vejamos em nossa volta o que possuímos e vamos agradecer, pois dos males, não é o pior. Acredite!
      Deus te abençoe!
      Abraço.
      Paula

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    2. Você poderia juntar um pouco de dinheiro para ter apenas algumas consultas com um médico especialista. Talvez explicando a sua situação, ele até te dê algum desconto, fechando algum pacote de algumas consultas. Não saberia te dizer quantas seriam as necessárias.

      O fato é que, se o médico é especialista, ele tem pelo menos alguma noção do sofrimento que passamos. Portanto há mais chance de ele considerar o tal desconto.

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    3. Obrigado pela força paula ! As vezes passo aqui pelo blog leio algumas coisas e me sinto melhor ,pois todos nós aqui temos algo em comum .

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    4. Oi anonimo !Obrigado pela sugestão .

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  12. comecei o tratamento uns 4 dias atrás... parece que hj não fez efeito .. fui estudar e não me lembrava de muita coisa. È normal isso ? tomo ritalina 10 mg 2 x ao dia.. tenho algumas duvidas.. alguem pra mim ajudar?

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  13. Alexandre Schubert - RITALINA MATA5 de abril de 2015 19:06

    http://www.cchr.pt/videos/psychiatry-an-industry-of-death/inventing-mental-illness.html

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