segunda-feira, 6 de abril de 2015

O TDAH COMO ESCUDO






Desculpe-me, eu não posso pegar peso; tenho hérnia de disco.
Não obrigado, sou diabético, não posso comer doce.
Perdoe-me, amigo velho, mas não frequento mais bares. Sou alcólico e já estou a dois anos sem beber, entrar em uma bar seria uma tentação desnecessária.
Desde que infartei não assisto mais jogos de futebol. Você se lembra de como eu ficava nervoso, gritava, esbravejava? Pois é, uma final de campeonato pode me matar...
Todos são argumentos válidos, sólidos, incontestáveis.
Por que os nossos não podem ser?
Perdoe-me, agi por impulso, o TDAH agiu em meu lugar.
Hoje tive um dia muito improdutivo; mesmo sob tratamento não consegui me concentrar...
Chefe, você poderia me transferir para um ambiente mais tranquilo, menos barulhento? Esse maldito TDAH; fico muito disperso nesses ambientes barulhentos...
São argumentos válidos, sólidos, incontestáveis.
Mas todos nos criticam por 'USAR O TDAH' como justificativa.
Mas é justificativa!
Se eu tenho uma doença que deixa meu cérebro inconstante, meu comportamento imprevisível, minha memória prejudicada,  EU TENHO O DIREITO DE USAR A MINHA DOENÇA COMO JUSTIFICATIVA SIM!
A verdade é que nos envergonhamos de sermos TDAH. Eu inclusive. Falo sobre minha doença abertamente aqui no blog; mas na empresa onde trabalho ninguém sabe. Ou quase ninguém.
Por que?
Por que ninguém quer ser taxado de doido!
Ninguém quer ser doente mental!
E todos nós temos medo de perdermos os empregos, os clientes, os pacientes, os amigos...
Nós enfrentamos a vida de igual pra igual, mas com menos armas para o combate.
Sou péssimo em memória, péssimo em atenção, tenho enormes dificuldades em manter-me motivado, minha atenção é facilmente dispersada por ruídos e imagens. E ainda não há remédio que cure isso tudo. Existem paliativos que minoram algumas dessas características, mas nada muito significativo.
Preciso do triplo de energia pra superar as decepções normais de um emprego, de um relacionamento, de uma escola, por exemplo. Do nada meu ânimo se derrete e tenho vontade de largar tudo e fugir pra casa, deitar e dormir ad eternum. Sabedor de que isso é proveniente da doença, preciso reunir forças que nem sei se tenho e me impulsionar pra fora do poço do desânimo sozinho.
E sozinho - E EM SILÊNCIO - tenho que enfrentar todas os desafios da minha vida com menos armas, com menos qualidades, com menos requisitos.
E nem posso usar minha doença como escudo pois vão me taxar de aproveitador, de espertalhão...
Nossos parentes, nossos médicos, nós mesmos, precisamos criar coragem e sair desse gueto em que nos enfiamos e esfregar na cara da sociedade a nossa doença e as deficiências que ela nos trás.
Sei que tudo o que escrevi aqui não terá efeito prático imediato, mas joguei uma semente que poderá florescer em algum lugar, alguma mente corajosa que enfrente a sociedade hipócrita que finge não nos enxergar.
Quem sabe um terrorista da felicidade sabote essa hipocrisia e a bandeira do TDAH possa ser desfraldada sem vergonha!