domingo, 4 de março de 2012

O TDAH E O DOM DA RECUPERAÇÃO




Os portadores de TDAH são conhecidos pela má memória, principalmente nas coisas diárias, na vida prática.
Eu tenho essa memória péssima no dia a dia mas ela pode ser prodigiosa em outros aspectos; lembro-me de letras de músicas de trinta anos atrás, de detalhes de propagandas que via na TV preto e branca da minha infância, sou excelente fisionomista e, se eu me concentrar, sou capaz de buscar nomes inteiros de pessoas com quem convivi há décadas e nunca mais vi.
Mas existe uma outra espécie de memória que me impressiona muito.
Uma espécie de desprendimento do passado, seja ele bom ou ruim. Não o nego ou tento esquecer, ele simplesmente se acomoda em algum canto da mente e para de me incomodar. Certa feita, conversando com meu advogado ele disse usar meu exemplo a todos os que atravessam problemas financeiros graves como eu.
Segundo ele eu não me abati nem física nem psicologicamente, sigo minha vida como se nada tivesse acontecido.
Esse é o ponto! Isso é normal? Um cara de 50 anos perde tudo e continua a viver como se nada tivesse acontecido? Será essa uma característica negativa do TDAH que me salvou nesse momento difícil ?
Não vou negar que às vezes me sinto lisonjeado com pessoas que citam minha força de personalidade para superar esse momento. Será força de caráter, uma absurda flexibilidade diante da vida, desprendimento ou simples falta de responsabilidade, de noção da realidade?
Creio que já abordei esse tema em mais de um post, não é um tema que me preocupe profundamente, afinal foi um benefício na minha vida e não desejaria que fosse diferente. Mas se é uma característica do TDAH, o seguir adiante sem olhar para trás, isso nos transforma em sobreviventes de altíssima qualidade. Nos livra daquelas culpas escravizadoras, de nos auto martirizarmos por erros do passado.
Claro que não é uma questão de falta de reconhecimento de erros ou de não assumirmos as responsabilidades pelos nossos atos - isso, creio, já é quase um psicopata - mas temos um dom do renascimento, de não nos subjugarmos ao presente desfavorável. Um maravilhoso dom da reconstrução, do reerguimento, da superação.
Nada nessa vida é perfeito, muito menos no TDAH, essa característica benéfica deve ser a mesma que nos impede de aprender com os erros, de repeti-los várias vezes ao longo da vida.
Mas, não nos prendamos à parte negativa. Se tudo na vida tem mais de um lado, olhemos o mais favorável, sempre.
Até por que as pessoas negativas são muito chatas.