quinta-feira, 8 de março de 2012

TDAH, UMA BATALHA ENTRE ANJOS E DEMÔNIOS





Mais um post surgido dos comentários dos leitores do blog.
Em dois comentários diferentes, dois leitores me levaram a pensar no mesmo tema: o auto conhecimento.
Afinal de contas, o que é isso?
Isso serve pra alguma coisa?
Sempre relacionei auto conhecimento com um chinês de longas barbas, túnica branca e morador de uma erma gruta no interior da China. E sinceramente, nunca achei que isso tivesse qualquer utilidade prática.
Mas aí veio o diagnóstico de TDAH e eu descobri um sujeito que é meu xará, tem a minha cara e por enorme coincidência enfrenta os mesmos problemas que eu.
Eu me descobri. Passei a prestar atenção em mim, em minhas reações, em meus comportamentos e isso aos poucos vai esculpindo uma imagem de mim mesmo que eu não conhecia. Estou aprendendo a conhecer meus limites, a reconhecer minhas virtudes e a descobrir características de personalidade que eu desconhecia.
Quando você passa a conhecer-se melhor, você passa também a enxergar o TDAH agindo, você não se reconhece naquele comportamento, aquela forma de agir ou pensar é uma forma sabotadora, é um comportamento  externo.
Num desses comentários discutíamos a possibilidade de 'domar' o TDAH sem o medicamento e minha resposta foi exatamente essa: eu me conheço o bastante para saber que não tenho disciplina suficiente para tratar-me sem a ação do medicamento. Um leitor concordou comigo; são características fortes do TDAH  a indisciplina e a inconstância, exatamente o oposto do proposto pelo comentário que originou toda a discussão, nele a leitora afirma conseguir reconhecer os comportamentos do TDAH e neutralizá-los sem o apoio medicamentoso.
Esse seria o primeiro passo para sabotar meu tratamento. Pelas minhas característica (que eu aprendi a enxergar depois de velho) eu não teria disciplina e constância para agir dessa forma, portanto nem tento.
E não é apenas no tratamento do TDAH, sejamos práticos, pra que vou me matricular numa academia de ginástica ou num curso de inglês ? Não tenho disciplina pra isso. Se eu tivesse aplicado tudo o que gastei com matrículas em academias e cursos de línguas e informática eu compraria um carro zero.
Preciso estar em outro estágio do meu tratamento e de motivação para encarar esse tipo de tarefa.
Em outro comentário a leitora diz que temos um diabinho e um anjinho nos induzindo a agir dessa ou daquela forma. De novo o auto conhecimento. Esse comportamento é meu? Esse destruidor sou eu? É isso que eu desejo para minha vida daqui pra frente?
Ceder ao anjo ou ao demônio depende muito de você saber quem é e o que quer.
Eu, sinceramente, já abandonei a fase do 'foda-se', depois eu vejo o que dá.
Já me atirei de abismos suficientes para não querer repetir esses comportamentos. Feridas sobre feridas doem mais e demoram mais tempo para cicatrizar.
Portanto, quando me dá aquela vontade louca de arrasar tudo, de romper com tudo, eu paro e penso: o que eu quero pra minha vida?
Em última análise nossa vida é isso, uma grande batalhe entre anjos e demônios, no TDAH essa luta é anabolizada, principalmente para o lado do demônio. Existe uma tendência a optarmos pelo lado destruidor, o lado que parece acabar com o problema mais rapidamente, mas que acaba apenas ferindo o monstro que fica adormecido por um tempo e quando ressurge está de forças renovadas, maior e mais forte do que antes.; ou então, somos a vítima de nosso demônio e enfiamos em nossa própria carne o tridente fumegante do mal.

15 comentários:

  1. Gostei muito desse post ...
    é o que acontece comigo diariamente e me surpreedi pra caramba porque acontece comigo e eu não acho palavras para expressar isso me entende?
    Quando você falou sobre isso me fez refletir sobre esse comportamentos que nos DDA temos ....
    é uma luta muito complicada, as pessoas "normais" não tem noção pelo o que a gente passa, as dificuldades que nós temos....
    Pois é.... Adorei seu post ! ;D Obrigado

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  2. Sim, tem razão.
    É uma batalha diária, e ainda tem gente que duvida da existência do TDAH ou nos chama de preguiçosos e sem limites. Isso me dá muita raiva. Só nós sabemos as lutas
    internas que travamos a todo momento. Qualquer decisão, qualquer pressão pode nos levar a comportamentos de auto destruição e auto flagelação.
    Que luta!
    Obrigado a você pela participação.
    Um abraço
    Alexandre

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    1. Pena que vc removeu seu comentário, ele virou um post. ou melhor dois posts. O segundo ainda estou decidindo se vou publicar.
      Obrigado por suas palavras de elogio e incentivo.
      Um abraço e obrigado
      Alexandre

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  4. Às vezes já contei até 10 para conter o impulso e no número 03 já mandei tudo pra pqp. E o controle? Pro beleleu...

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    1. É triste né?
      Ninguém imagina a batalha interna por que passamos. Uma onda de irritação sobe pelo corpo como um tsunâmi e não conseguimos controlá-lo.
      Eu tento, Deus sabe que eu tento, mas tem hora que é incontrolável.
      Por isso JAMAIS terei uma arma.
      um abraço
      Alexandre

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    2. Estou desempregado... outra vez. O patrão que me contratou por não entender nada da minha função, que desempenho com mestria (modéstia às favas), decidiu me ensinar de como devia fazer... mandei para a pqp na hora... fiquei lá um mês.

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    3. Oi Jorge, bom dia!
      Aprendi uma coisa, amigo, cale-se por dois segundos antes de dizer algo. Esses dois segundos podem fazer a diferença entre manter ou perder seu emprego; destruir ou não um relacionamento. Claro, nem sempre conseguimos nos conter, mas somente nós nos prejudicamos. Pense bem, Jorge, por melhor que você seja em seu trabalho, sempre existirão outras pessoas boas de serviço e com um humor mais estável. Muitas vezes os patrões preferem uma pessoa mais tranquila à uma genial e muito rebelde. Não sei se você gosta de esportes, mas até nesse meio os chamados BAD BOYS estão em extinção.
      Por mais que a mídia fale sobre pessoas diferentes, que pensem fora da caixa, criativas, o que os patrões querem mesmo são funcionários dóceis e previsíveis.
      Pense amigo, o que é melhor: manter seu emprego e sua renda à custa de ouvir o que não quer; ou passar a vida a procurar novos empregos, rebelar-se, ser demitido e voltar a procurar?
      Só você pode decidir, mas pense a longo prazo, pense em sua vida como um todo e escolha seu caminho.
      Um abraço
      Alexandre

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  5. Já fiz tantas asneiras por ter agido por impulso. Pedi demissão de empregos, não poupei palavras para criticar clientes e colegas de trabalho, tudo apoiado pelo "Lado negro da foça". Não é fácil controlar este impeto.

    Terminei relacionamentos sem medir qualquer consequência e muitas e muitas outras atitudes impensadas.

    Ainda não tomo ritalina, mas quero começar este tratamento. Será que esta impetuosidade vai acabar ou diminuir?

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    1. A Ritalina não faz milagres, mas ajuda para que eles aconteçam. Além dela, passamos a nos policiar mais, a pensar mais. Eu tenho tentado, nem sempre com sucesso, pensar antes de falar e agir. No meu caso são 50 anos de TDAH contra apenas dois de tratamento, é difícil pra caramba, mas sinto que já evoluí, caminhei bastante. Não podemos imaginar que seremos perfeitos, ninguém é, nem os não portadores, mas temos de aprender a nos controlar. E isso é bastante possível.
      Um abraço
      Alexandre

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  6. quem é realmente TDAH não existe conseguir controlar os sintomas sem o medicamento...ou seja a pessoa não é TDAH.....amei a tua frase :Eu, sinceramente, já abandonei a fase do 'foda-se', depois eu vejo o que dá.
    Já me atirei de abismos suficientes para não querer repetir esses comportamentos. Feridas sobre feridas doem mais e demoram mais tempo para cicatrizar.
    Portanto, quando me dá aquela vontade louca de arrasar tudo, de romper com tudo, eu paro e penso: o que eu quero pra minha vida?....

    parabens alexandre...bjos

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    1. Oi Aninha, obrigado!
      Eu acho que é impossível ficar sem remédio. É uma doença orgânica, não é um problema de personalidade. É claro que algumas medidas ajudam, como caminhar ajuda contra a hipertensão, mas sem remédio é muito complicado.
      Bjs e um Feliz Natal
      Alexandre

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  7. De tempos em tempos eu volto nesse post pra reler. À medida que vou lendo, meus olhos vão destacando frases, elas ficam maiores e em negrito. rs e vou repetindo dentro da minha cabeça: "SIM SIM SIM!!! ISSO MESMO! Alguém leu isso daqui? Não fui eu quem escreveu, mas está aqui, pessoas também sentem isso! São sintomas! E SIM! Eu agora aprendi a identificar melhor o que sou,o que quero e pra que vim, e sei brecar com mais eficiência aquela pessoa... que eu nunca quis ser...
    Excelente texto. Daqui um tempo eu volto. rs
    Grande abraço!
    Ana.

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    1. Legal, Ana, seu comentário me fez reler o post e também encontrei coisas que havia esquecido, foram sepultadas pelo dia a dia. Adotarei essa prática agora, reler meus posts como uma forma de revolver o lodo que vai se acumulando em minha alma.
      Obrigado, Ana, seus comentários foram muito importantes pra mim, espero revê-la ano que vem.
      Abraços agradecidos e um
      FELIZ ANO NOVOOOO!!!
      Alexandre

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  8. A Ritalina no meu caso controlou muito minha impulsividade. Tenho como hiperatividade e impulsividade maior característica do meu TDAH. Ao começar a tomar a medicação percebi que a reação era de ouvir, racionalizar e depois verbalizar. Obviamente, entrei em um processo de auto conhecimento para tentar melhor em todos os aspectos. Pessoas do meu círculo social começaram a notar o meu comportamento diferente e até comecei a receber elogios. Tinha uma fama de briguento, sem limites, e que não respeitava a hierarquia dentro da empresa. Hoje, sou muito mais conhecido como uma pessoa tranquila, sempre disposta a ajudar e contribuir.

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