domingo, 14 de agosto de 2011

DESIMPORTÂNCIAS




Existe um velho samba de Adoniran Barbosa cuja letra diz mais ou menos o seguinte:
Tentou contra a existência
num humilde barracão
Joana de tal
por causa de um tal João.
Depois de medicada
a notícia carece de exatidão,
Joana é mais
uma mulata triste
que errou;
errou na dose.
errou no amor,
Joana errou de João.
Ninguém ouviu,
ninguém sentiu
a dor que era o seu mal,
a dor da gente não sai no jornal.

Esse belo samba me veio à mente quando comecei a pensar neste post. Passando os olhos pelos livros à venda em uma livraria, vi um livro que me despertou a atenção, não pelo livro em si, mas por uma frase que vinha como subtítulo e esclarecia que a obra era sobre a vida de uma mulher que perdera tudo, e que assumiu uma nova identidade e reconstruiu sua vida.
Que legal né?
Você se livra dos problemas mudando a sua identidade, começando uma vida nova, literalmente.
Como é desimportante a nossa vida, como são desimportantes nossos problemas.
Picuinhas de família que destroem a harmonia, problemas mesquinhos de dinheiro, dificuldades de saúde, coisas miúdas que nos enredam dificultando nossos pensamentos, tolhendo nossas ações.
E a vida vai passando lentamente, pastosa e densa, e não conseguimos mudar de identidade, mudar de vida; somos obrigados a conviver com nossos problemas e com dezenas, às vezes, centenas de pessoas que preferiríamos não conviver; muitas vezes com trabalhos que odiamos em moradias que não queremos viver .
A vida é isso, saindo da ficção, as vidas são sucessões de erros e acertos nas escolhas que fazemos ou deixamos de fazer. Ninguém, absolutamente ninguém enxerga ou dá importância à nossa dor. Muito pelo contrário, somos criticados e avaliados por pessoas que , mesmo próximas, são incapazes de ver ou reconhecer nossa dor.
A crítica, o palpite, são expostos sem piedade, ou sem cuidado ou respeito pelo ser humano alvo dessas palavras.
Assim somos todos nós, nos arvoramos no direito de se imiscuir na vida alheia sem enxergar o sentimento que gerou esta ou aquela opção ou atitude de vida.
Há dias uma jovem de 19 anos foi presa em Juiz de Fora por matar seu filho recém nascido. Ela estava em um hospital para cuidar-se de dores no abdômen e, sequer sabia que estava grávida. Quando foi ao banheiro, 'caiu' um ser de seu interior. Desesperada ela colocou seu filho do lado de fora da janela do banheiro e apresentou-se ensanguentada aos médicos que prontamente a atenderam.
A criança caiu da janela e morreu.
Que monstro!
Moradora de uma roça perto de Juiz de Fora, a jovem morava de favor e afirmou não saber que estava grávida. Tentei imaginar o desespero dessa moça, a falta de experiência, o medo de enfrentar a família, de ser mandada de volta pra roça com a 'mancha da desonra'. Tomou uma atitude impensada, tresloucada, que só piorou sua vida.
Quantas vezes, premidos pela dor e o desespero, tomamos atitudes que nos arrependemos?
E ninguém se importa, a vida não se importa; nossa dor não serve de atenuante ou justificativa.
Criaturas desimportantes, com vidas desimportantes lutando contra problemas desimportantes.
 E consequências muitas vezes desastrosas e doloridas.