quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A MORTE DE STEVE JOBS E O TDAH



Steve Jobs morreu!
O maior gênio da tecnologia atual perdeu a guerra para uma doença antiga, largamente conhecida, mas até agora imune à todas as tentativas de cura engendradas pelos homens.
Mas o que tem a morte, ou a vida, de Steve Jobs com o TDAH ? Principalmente com o meu TDAH, que é afinal o motivo desse blog?
A morte especificamente, nada. Mas uma de muitas de suas frases divulgadas largamente pela imprensa tem tudo a ver:
“Lembrar que estarei morto logo é a ferramenta mais importante que eu já encontrei para me ajudar a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase tudo – todas as expectativas externas, todo orgulho, todo medo de falhar ou vergonha – essas coisas caem por terra ao encararem a morte, deixando apenas o que é realmente importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que encontrei para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.”
Genial, fantástica. Um álibi perfeito para comportamentos inovadores, e arriscados.
Jogar com a vida, com a desculpa da morte. Desculpa?
Não sei se trata-se de desculpa. A morte é real, paira sobre todos nós como uma sombra que, se nos entristece e amedronta, também nos dá o sentido de urgência e o afã de completarmos nossa tarefa de vida. No livro 'O Aleph", Jorge Luís Borges descreve num conto maravilhoso a 'monotonia' da imortalidade. Um general romano transforma a busca pela fonte da vida eterna no mote de sua vida, ao encontrá-la, descobre que é a certeza da morte que move a vida. Não há urgência ou motivação aonde o tempo é infinito. Um homem caído em um buraco há mais de 50 anos não é retirado de lá por que não faz diferença; sair hoje, amanhã ou daqui há 100 anos não muda em nada, ele é eterno. Jamais irá morrer, sua vida não tem fim.
Desesperado o general romano - já imortal - passa vários séculos buscando o antídoto da vida eterna. Até que um dia, descendo de um navio (se a memória não me trai ) o general corta o braço em um galho e vê com alegria e alívio seu sangue brotar do arranhão. Feliz, o secular general cai na vida motivado pela consciência de que, agora, sua vida é finita e se ele não aproveitá-la ela passará muito, mas muito rápido.
E daí?
Pra que tanta conversa?
A morte é um tema que sempre fez parte da minha vida. Ou de meus pensamentos, ou sentimentos.
Sempre enfrentei uma luta interna entre viver, enquanto estou vivo, e todas as regras e convenções que cercam a vida da classe média brasileira, principalmente a classe média cristã, obrigada que é à renúncia constante; seja do prazer, seja da alegria, seja da riqueza, seja do ócio. A vida cristã nos obriga ao sofrimento, à penúria e à dor como único caminho possível para alcançar a felicidade eterna.
Como adequar a ânsia de viver a minha vida, os sentimentos que me habitam, com a moral cristã, ou pior, com as expectativas estabelecidas pela sociedade em que vivo?
São caminhos conflitantes e excludentes; ou quase isso.
A família, os amigos e a sociedade, criam expectativas sobre nossas vidas, sobre o caminho 'normal ' que devemos seguir. Sair desse caminho, dessa expectativa, transforma o 'transgressor' num pária; num sujeito mal visto, cuja presença gera comentários e críticas em baixo tom e pelas costas.
Enfim, a morte de Steve Jobs tem tudo a ver comigo e com a minha vida.
A frase que ilustra o início desse post teve e terá profunda influência em minhas próximas decisões. Afinal, é a minha vida, e não a das pessoas que criticam-me, que está em jogo.
Lembrar-me-ei disso em meus próximos passos.