sábado, 28 de janeiro de 2012

NÃO HÁ MILAGRE NO TRATAMENTO DO TDAH




Estive relendo alguns emails e comentários que recebo e algo chamou-me a atenção: boa parte das pessoas que me contatam, mencionam que o/a companheiro/a não quer tratar-se. Isso é visto como um impedimento à felicidade que nós, que nos tratamos, vivemos. Não sei se é minha maneira de escrever ou se as pessoas interpretam dessa maneira, mas não podemos cair na tentação de um comportamento maniqueísta, o céu e o inferno; tudo de ruim ou tudo de bom. Nada na vida é assim. O tratamento não transforma o Lobo Mau em Chapeuzinho Vermelho; até por que, não existe um Lobo Mau e muito menos Chapeuzinho Vermelho.
A ritalina não é uma varinha de condão que elimina todos os nossos problemas da noite para o dia. Sozinha, então, vale menos ainda. A ritalina tem o dom de aumentar nossa capacidade de concentração, de reduzir nossos episódios de dispersão, aumenta a clareza com  que vemos os fatos e muitas outras coisas positivas mas, como todo medicamento não é perfeito nem isento de efeitos colaterais. Sua eficiência é muito maior se acompanhada de apoio psicológico, no meu caso optei pelo coaching e gostei demais. Mas eu iniciei meu tratamento aos 50 anos, é dificílimo quebrar tantas convicções, sentimentos e comportamentos cristalizados.
Quanto mais cedo se dá o diagnóstico e o início do tratamento, mais eficiente e rápido são seus resultados. A criança é uma personalidade em construção, uma página em branco.
Nós adultos somos o oposto, uma enorme soma de comportamentos, preconceitos, vaidades e erros que formam uma barreira às vezes intransponível.
Em geral o homem adulto não quer tratar-se. Entram nesse não querer toda a auto suficiência masculina - não tive essa auto suficiência em relação ao tratamento do TDAH, mas ajo como a maioria dos homens em relação aos outros tratamentos médicos necessários - soma-se a isso o preconceito com a tarja preta da ritalina, remédio de doido e outras besteiras típicas do desconhecimento. A visão que se tem dos tais remédios de tarja preta é que ficaremos como que lobotomizados, aquelas criaturas idiotizadas, robotizadas, babando pelos cantos da casa, sem tomar banho ou trocar de roupa por dias seguidos. A ritalina não provoca nada nem parecido. Lembro aqui que estou falando da MINHA EXPERIÊNCIA. Pois bem, tomo ritalina religiosamente há um ano. Não senti nenhuma mudança significativa em meu comportamento externo, digamos assim. Ninguém notou nenhuma diferença em minhas relações habituais. Trabalho normalmente, dirijo normalmente, vivo normalmente como todas as outras pessoas. Não fica escrito na testa de ninguém que essa pessoa toma ritalina. É impossível saber quem toma ou não, a menos que a pessoa revele o uso a quem a cerca. E aí entra outra questão que aflige aos adultos recém diagnosticados como portadores de TDAH: e agora, vou ter de contar pra todo mundo que tenho TDAH! E eu pergunto: pra quê? Com qual objetivo? Quem sai alardeando aos quatro ventos a condição de portador ou que se submete a um tratamento com remédio controlado, está procurando ser 'o coitadinho' ou ser 'o diferente', 'o doidão' da turma, do trabalho, etc. Ninguém precisa saber. Claro que isso não inclui as pessoas próximas que podem auxiliá-lo no tratamento ou mesmo aquelas pessoas que sofrem com o comportamento do portador de TDAH.
Aí reside o primeiro e difícil passo de um tratamento de TDAH; deparar-se com uma doença. Muitos dos portadores adultos já criaram teorias sobre suas derrotas na vida, sobre seus esquecimentos e suas explosões de ira. Mesmo arcando com os prejuízos ( ou dividindo-os com familiares e amigos) com o tempo  criamos teorias em que, na grande maioria dos casos, somos vítimas de perseguições, faltas de sorte, falta de amigos no poder, um sem fim de desculpas que nos enganam e nos fazem sentir menos culpados por nossos próprios desastres. Ao ver-se diante de um diagnóstico positivo, toda nossa perspectiva de vida muda. Em muitos casos é mais confortante ser vítima do que doente, principalmente doido.
Se você der a sorte de ser tratado por um bom profissional de medicina, vai saber na primeira consulta de que não terá vida fácil. A ritalina não faz milagres, o coaching não faz milagres. Você faz o milagre, você enfrenta, você muda a sua vida. Aí vem a grande questão: jogo por terra todas as minhas teorias vitimizantes para trocá-la pelo quê? Por uma incógnita. Como minha mulher vai encarar isso? Serei mais cobrado pelas pessoas que me cercam? Perderei minha aura de coitadinho e sofredor? Poderei continuar jogando a culpa no azar? Na dúvida, recusam-se ao tratamento. E as parceiras, as queixas partem principalmente das esposas/namoradas/companheiras, ficam numa luta eterna em favor do tratamento que irá mudar radicalmente seu relacionamento com o portador.
Aí entra novo erro. Que eu também cometi. A ritalina não muda sua vida de uma hora para outra, ela dá instrumentos para que VOCÊ mude sua vida. E olha, é difícil pra caramba. A face mais visível da ação do medicamento é o aumento da concentração, mas existem coisas que somente nós podemos fazer como domar as explosões e as procrastinações. Fui extremamente feliz com minha esposa, minha médica, minha coaching, mas ainda assim, volta e meia caio nas mesmas armadilhas do TDAH.
Mal comparando, estamos empurrando um carro morro acima; com a ritalina estamos meio que vitaminados, o apoio psicológico nos dá ânimo pra continuar empurrando, mas o TDAH está ali, firme e forte.
O desafio está em ficar alerta para os comportamentos típicos do TDAH ( e isso o coaching, a médica e a ritalina são grandes instrumentos de auxílio) e agir para neutralizá-los.

Não somos felizes por que nos tratamos, somos felizes primeiro por que estamos vivos e isso já é motivo suficiente e segundo, por que temos o privilégio de podermos fazer um tratamento desconhecido da maioria das pessoas. Somos felizes por que podemos agir em nosso próprio benefício, por que podemos assumir o controle de nossa vida. Mas a felicidade não pressupõe facilidade, felicidade pressupõe vitória sobre as limitações, superação de obstáculos, conquistas diárias só possíveis com o auxílio das pessoas que nos cercam e amam.
Isto é viver!