segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FELIZ ANO NOVO!!!



Muito se fala no final do ano, muito se promete, muito se mente, muito se engana, ao fim de cada ano.
A partir da segunda quinzena de dezembro um frenesi de bondade assalta as pessoas e a mídia. Todos disparam belíssimas mensagens de amor, paz e prosperidade. Os sorrisos extrapolam os lábios e dançam sobre os rostos numa demonstração de felicidade inigualável e inimitável.
E tome compras!
E mais compras!
Engordamos todos; numa única noite comemos o que não comemos numa semana 'normal'. Um simples jantar de família se transforma numa orgia alimentar com quatro ou cinco tipos de carne, um sem fim de acompanhamentos e sobremesas regadas a rios de bebida.
Relegado a um segundo plano, esquecido em um canto qualquer da sala, o menino Jesus é obrigado a ouvir piadas de mau gosto, gargalhadas falsas e o pior, é obrigado a ouvir pela enésima vez as mesmas brincadeiras sobre a barriga de um, a careca de outro, ou qualquer outro defeito aparente dos participantes da 'festa'.
Enfim o grande momento: o amigo oculto - ou secreto. Como em um velório, todos passam a ser boníssimos: minha amiga é uma pessoa maravilhooosaaa.
Esqueceu de mencionar que na hora de comprar o presente pensou: hum, como a fulana engordou; vou comprar XG. kkkkkk
E chega a noite do reveillon! As caixas de mensagens ficam lotadas de baboseiras. É hora de repensar, de fazer um balanço, de pensar nas atitudes...
Ai, ai!
E tome comilança!
E tome bebedeira!
E o novo ano começa; começa com ressaca, com dor de cabeça, com culpa, com um monte de contas para pagar.
E começa com um monte de velhas promessas não cumpridas.
EU PROMETO NÃO PROCRASTINAR. Bem, talvez uma única vez esse ano. Ou quem sabe uma por mês. Tenho tanta coisa pra resolver...
EU PROMETO NÃO PROCRASTINAR, após as férias. Acho que assim tá bom.
EU PROMETO CONTROLAR MEUS ATAQUES DE FÚRIA!
Mas será que eu tenho assim tantos ataques de fúria? Será que não é exagero da minha família? Afinal todo mundo tem um momento ou outro de irritação. Que saco também! Essa porcaria dessa família fica me enchendo de culpa, me obrigando a virar um carneirinho. Que merda! Vontade de matar todo mundo!
EU PROMETO NÃO ESQUECER MEUS COMPROMISSOS. Ô vidinha, sô! É tanta conta, tanto compromisso, tanta data, que ainda tenho que lembrar de aniversário, datas comemorativas, pagar conta em dia, meu Deus! Quem consegue isso? Nem lembrar de jogar na mega sena eu me lembro...
Bom, mas isso eu não vou me esquecer...
A partir desse ano eu vou jogar na mega sena toda a semana. Imagine se eu acerto sozinho. 30 MILHÕES! Caraca! Bom eu ajudaria minha família, até mesmo aqueles que não gostam muito de mim; passaria uns dois anos viajando. Pô, com trinta milhões eu só iria comprar à vista, nunca mais iria atrasar minhas contas.
PROMETO NUNCA MAIS PERDER O FOCO!!!!!
Será que nunca vão inventar uma bomba de ritalina? Daquele tipo que fica na cintura do cara, igual a de insulina. Vai procrastinar? Entra uma carga de ritalina no sangue e você sai realizando como um foguete. Vai perder a cabeça? Shiit!!! Ruído da ritalina entrando no sangue. Uma dose de ritalina e você fica bonzinho, bonzinho.
Nós TDAHs teríamos dois cérebros: um na cabeça e um auxiliar na cintura, que de tempos em tempos injetava uma dose de ânimo e concentração.
- Meu filho, que bagunça é essa no seu quarto? Cadê seu remédio?
- Ihhh, mãe! Você não me lembrou de recarregar a bomba de ritalina!
- Meu Deus! Não é possível! Tudo eu tenho que lembrar! Ninguém tem pena da mãe, tudo é nas costas da burra de carga aqui! Mãe isso, mãe aquilo, mãe....

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Essa frase de Carlos Drummond de Andrade, tão batida e desvalorizada, é a síntese do Ano Novo. O Ano Novo somos nós. De nada valem a roupa branca, o champagne, a comidaria e as promessas se não quisermos mudança. O novo somos nós. O mundo somos nós. A vida somos nós. Nós somos os únicos responsáveis por nossas vidas.
De nada valem promessas vazias, da boca pra fora; precisamos querer mudar; precisamos encontrar motivação pra querer mudar; precisamos querer superar essa dor contínua e recorrente que a vida atual nos proporciona.
Precisamos querer parar de atuar nesse filme velho e repetitivo que é nossa vida.
FELIZ VIDA NOVA!


Abaixo reproduzo a crônica completa do Drummond de onde extraí a citação, vale a pena:













Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.