domingo, 1 de abril de 2012

O TDAH E O DÉFICIT DE INTELIGÊNCIA





Na infância essas coisas são ditas de forma velada, quando a criança não está presente: 'acho que esse menino tem um problema de aprendizado'; 'coitado, ele se esforça mas não há meio de aprender'. Isso tudo falado entre adultos, em voz baixa, achando que a criança não sabe ou não percebe que estão falando dela.
A condescendência é outra inimiga do tratamento correto e eficiente e colabora com a falsa ideia de falta de inteligência. Com 'pena' da dificuldade dos filhos, os pais não cobram ou não dão o suporte correto. Fazem as tarefas escolares pelos filhos, não buscam a postura correta das escolas e o TDAH vai crescendo na vida da criança.
O desconhecimento do TDAH no Brasil é outro aliado da doença e das falsas crenças que ele provoca, as escolas optam por ignorá-lo, alguns médicos também, e o transtorno vai se espalhando e distribuindo seu prejuízo democraticamente entre a população.
A ignorância disseminou entre a população (incluindo aí muitos dos portadores) que o portador de TDAH é burro, tem dificuldade de aprender por ter déficit de inteligência. Isso é mentira!
Não somos burros, somos desatentos! Não aprendemos por que não conseguimos prestar atenção naquelas aulas monótonas, narcotizantes e intermináveis.
Ontem , na reunião do grupo Mente Confiante, um médico de sucesso e pai de um portador, falava sobre isso; o que nos prende a atenção é o que nos emociona. Somos seres emocionais; muito mais do que racionais. E é verdade; sempre fui excelente aluno naquilo que me interessou: história, geografia, literatura, sociologia, filosofia. São assuntos que amo, que viajo neles quando os estou estudando. Física e matemática são matérias que odeio, que desde a mais tenra infância aterrorizam meu sono.
Enquanto o médico falava viajei (claro né, rsrs) em minha vida e comecei a pensar em como me adaptei e gostei de trabalhar com assistência técnica de aparelhos celulares. Parece algo estranho, meio sem sentido, um portador de TDAH que trabalha com mão de obra de algo tão pequeno, tão minucioso.
Mas ontem estive pensando: em primeiro lugar cada aparelho é um desafio; em segundo lugar ocupa minhas mãos, exige um certo movimento; em terceiro, solucionar um defeito gera um sentimento de vitória gostoso, a derrota transforma-se em novos desafios, novos conhecimentos; em quarto lugar, adoro tecnologia, amo novidades, e isso, tenho a toda hora em minhas mãos. Aliado a isso tudo, tem a internet que amo e que é uma fonte inesgotável de informações (que adoro), de pesquisa e descobertas. Por incrível que pareça, encontrei emoção num 'simples' conserto de celular. Às vezes rio de mim mesmo quando percebo a expectativa que fico ao ligar um aparelho que apresentou um grau de dificuldade incomum. O aparelho funcionar equivale a um gol, uma grande vitória. Isso faz com que o dia a dia seja muito mais do que
parece. Instintivamente a Jaque enxergou que eu me daria bem nisso, eu mesmo não enxergava a possibilidade de adaptar-me a essa profissão. Entrei meio que provisoriamente e estou adorando.
Muita gente pode se achar incapaz de fazer um trabalho como esse, mas nunca por falta de inteligência.
Mas por não extrair emoção disso, não enxergar da mesma forma que eu.
Participei de um programa da TV Brasil sobre TDAH e nele havia um entrevistado que, formado em jornalismo, se descobrira fazendo pequenos doces trabalhados, com mini desenhos e enfeites minúsculos. Quando vi pensei: credo, eu jamais faria isso na minha vida. Pois é, quanta gente fala isso da minha opção de vida. Os docinhos trabalhados despertam a emoção daquele jornalista, são arte pura na sua visão, dão sentido aos seus sentimentos.
Sou burro por não saber ou não conseguir fazer aquilo?
Sou burro por não haver formado em Direito?
Quanta gente chega pra mim e diz: eu não consigo aprender a mexer com esse celular. Sou burro pra tecnologia. O que a pessoa quis dizer foi: não gosto de tecnologia, não me interesso por celulares.
Essa é a chave da vida do portador; temos que nos dedicar àquilo que desperta nossa emoção.
Fazer por fazer, pra seguir o exemplo ou a vontade de outras pessoas é fracasso na certa.
Einstein foi considerado burro nos primeiros anos da escola regular, e mudou o mundo!
Mudou o mundo por que pensou a física de maneira diferente, quebrou padrões e tabus.
Ele tinha TDAH? Não sei, mas detonou seus críticos quando encontrou seu caminho,
o que o emocionou, o que deu sentido a sua vida.

Então, chega dessa conversa de que TDAH é burro.
Eu não sou! E exijo que me respeitem!