quinta-feira, 12 de abril de 2012

TDAH- IMAGINAÇÃO FÉRTIL E ADUBADA.


 Já disse anteriormente que venho descendo a pé para o trabalho. Aqui cabe uma pequena explicação: quando digo descendo é por que moro em Minas Gerais, nas montanhas de Minas. Estamos sempre descendo ou subindo. No meu caso descendo em direção ao centro da cidade.
Cena 1 - Parte do caminho é num trecho pouco habitado com muita vegetação, quase uma mata. Pois bem, há alguns dias em uma parte dessa vegetação exalava um cheiro horrível. Não sei se lixo ou algum animal morto, mas o cheiro era terrível. Logo disparou a fábrica de sonhos. Um pé humano acinzentado apareceu dentro da vegetação. Na hora passei a mão no celular e liguei para a polícia. Mas, pensei eu enquanto apertava o passo e prendia a respiração para transpor o mau cheiro, se eu ligar pra polícia do meu celular  vão identificar meu número e eu terei de ficar aqui pra prestar depoimento. Vou chegar atrasado na loja e eu tenho tanto serviço...
Aí lembro-me de que tudo aquilo não existe, é só imaginação. Sorrio e penso: isso dá um post.
Cena 2 - Tenho de ir ao banco pagar umas contas e deixo a funcionária sozinha, naquele dia ela comentou estar um pouco indisposta. Caminhei uns duzentos metros e comecei a pensar na moça sozinha na loja, se ela começa a passar mal, cai lá no chão, sem ninguém pra ajudar. Ela só será socorrida quando entrar um cliente e encontrá-la caída... Tive de rir, e muito. Nem cheguei a contar isso pra ela, vai saber pelo blog.
Cena 3 - Dia cinzento, quase frio. Aquele ventinho no corpo enquanto caminho rumo ao trabalho me leva a uma madrugada gelada, um nevoeiro denso cobre a cidade dificultando a visibilidade. Um sujeito de andar estranho atravessa a ponte em meio ao nevoeiro, no bolso carrega um revólver cuja dureza do aço gelado incomoda sua perna defeituosa. O indivíduo decide suicidar-se por não aguentar mais ser alvo de chacotas por seu andar estranho, fruto de um acidente gravíssimo que destruíra parte de seu quadril. Pra encurtar a conversa, o suicida acaba por tornar-se assassino após ter seu objetivo de matar-se interrompido por um cara, que aleijado como ele, encontrara na exploração de sua deficiência uma fonte de renda e tenta demove-lo da ideia de suicídio com esse argumento. Após matar o deficiente nosso suicida encontra sua razão de viver. O sentimento de onipotência em relação à sua vítima cria naquele momento o embrião de um seria killer. Trágico, né. Pois é, isso brota enquanto caminho ouvindo música, atravessando ruas, cumprimentando pessoas que, como eu, são habitués dessas caminhadas nesse mesmo trecho e horário.
Cena 4 - Diariamente concebo uma carta a ser endereçada ao jornal local  denunciando o péssimo estado das calçadas do município, a precariedade vergonhosa e humilhante do transporte público, etc, etc, etc. Tal carta jamais sairá da minha mente, mas mesmo sabendo disso ela alimenta essa ira santa contra a municipalidade.
Não é intencional, não controlo, não premedito e não consigo barrar. Na verdade até me divirto agora que sei de onde vem e por que vem.
Sempre me lembro do Calvin & Harold, uma tirinha onde o garoto conversa com seu tigre de pelúcia como se ele vivesse e por onde passa tudo o que o cerca subitamente ganha vida em sua fertilíssima imaginação.
Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.