terça-feira, 18 de março de 2014

O TDAH ADVINHADOR






Fiquei sem Ritalina esses dias. Duas semanas a zero.
Cerca de uns dez dias antes do carnaval pedi a minha médica que me desse uma receita de Ritalina; como sua agenda estava lotada, ela me propôs que eu pegasse a receita na semana anterior ao carnaval e agendássemos a consulta para quando ela retornasse das férias. Sim, ela iria emendar o carnaval.
Como até a semana do carnaval eu estava trabalhando em um bairro distante do centro da cidade, invariavelmente eu chegava ao centro e o consultório já estava fechado (isso eu depreendi pelo horário, nunca fui até lá ou liguei pra confirmar). Na quinta feira, ante véspera de carnaval eu vi que não conseguiria buscar a receita no horário comercial, e mandei um whatsapp pra minha médica pedindo-a que deixasse a receita na portaria do prédio que eu passaria num horário maluco qualquer e a pegaria. Detalhe, eu já estava sem Ritalina desde a a sexta feira da semana anterior. Pois bem, minha médica não respondeu ao whatsapp, nem sim , nem não. Logo, inferi que ela não havia deixado a receita na portaria do prédio. E não fui conferir.
Passei o carnaval inteiro sem Ritalina (mas tudo bem, não costumo tomar em feriados e domingos) e na quarta feira de cinzas retomei o trabalho.Duas semanas sem Ritalina. Que tortura! Do meu Facebook via minha médica na praia com a família; inclusive com sua secretária que eu tinha esperança de que fosse trabalhar e me entregar a receita. Ai meu Deus! Tive ganas de mandar mensagem no Face, no Whatsapp, perguntando se minha receita estava na portaria, mas um misto de vergonha por atrapalhar as férias e certeza de que não estava lá, me impediram de fazê-lo. Curti várias fotos de ambas na praia, quando o que eu queria mesmo é que elas estivessem trabalhando e me dessem minha receita que estava trancada no consultório. Não sei se o fato de vê-las na maior alegria na praia, enquanto minha felicidade estava trancada naquele consultório escuro e silencioso, piorou meu estado de ânimo. Eu estava um farrapo. Me arrastei a semana inteira, enquanto aguardava ansioso a segunda feira redentora. A segunda finalmente chegou, mas abarrotado de serviço não consegui ir buscar a receita; na terça liguei, ninguém atendeu; entrei em pânico: a doutora vai tirar um mês de férias, pensei apavorado. Liguei N vezes e nada. Na quarta feira não resisti, mandei novo whatsapp para a doutora Valéria: por favor, minha receita, vocês ainda estão em férias? Preciso da Ritinha desesperadamente...  kkkkkk fiz bastante drama. A resposta veio como uma bomba: uai, você não pegou sua receita na portaria? Está lá desde antes do carnaval. Fiquei alguns segundos aparvalhado. Não sabia se ria ou se chorava, se xingava ou fazia graça. E a dra. Valéria ainda me deu um tapa de luvas: Você sabe que eu não deixaria você sem receita.
A inevitável vontade enfiar a cabeça na parede. Mas logo foi substituída por esse post. Com a devida autorização da dra. Valéria.
Pois é, temos o péssimo hábito de tentar advinhar as coisas, as situações, os pensamentos e ações das pessoas. E não somos advinhos. Resultado? Nos estrepamos. Mas um dia aprendemos.Ou não.
Lembrei-me de um caso ocorrido a cerca de 20 anos atrás. Eu fazia um curso à noite e ao voltar para casa, imaginei minha que minha esposa poderia ter enchido a banheira de hidromassagem, e viajei naquilo. Cheguei em casa pronto para um banho de hidro a dois e tal, e ela estava dormindo. Que raiva!
Ao acordar e me deparar naquele mau humor, ela perguntou o óbvio: por que você não me avisou? Eu teria enchido a banheira! Não posso advinhar!
Pois deveria, pensei! E dormimos brigados aquela noite.
Pois é, imaginamos, criamos, advinhamos e, normalmente, erramos.
Ah, meu estado de ânimo estava de tal forma abalado que escrevi um mini post desesperançado e entregue que transcrevo abaixo. Até ficou bonitinho, mas além de deprê, era infundado. Ou inveja da praia da Dra. Valéria e da Wal.

Não quero estar onde estou.
Não quero fazer o que faço.
Não quero ser quem eu sou.
Armo-me de um sorriso raso,
De uma coragem de papel,
De uma alma emprestada,
E sigo a vida...
Mas preciso de uma escora;
Sozinho, não dou conta.
A Ritalina mantém essa frágil estrutura de pé.
Ah, mas quando falta, quando acaba...
Passo meus dias andando às tontas entre os escombros,
Tentando reconhecer num daqueles pedaços, um pedaço de vida que me faça sentido, um pedaço de vida que me faça seguir, um pedaço de vida que me faça vivo.
Mas basta retomar, para que o imenso quebra cabeça se refaça, e eu possa seguir minha vida...
Minha?
Não sei; mas a vida possível...

Até quando?