quinta-feira, 27 de março de 2014

O TDAH E A EXPLOSÃO INCONSEQUENTE






De repente, uma estranha onda começa a subir por nosso corpo.
A cabeça lateja, martelada por incessantes perguntas: quem é ele pra me dizer isso? Quem ela acha que é pra me desafiar dessa forma? Cretino! Tá pensando que sabe mais do que eu?
Conter as palavras parece impossível.Ondas de impropérios batem contra os dentes tentando romper o silêncio que a boca fechada tenta manter.
As imagens vão perdendo a nitidez toldadas por uma cortina vermelha...
O cérebro parece que vai explodir: Quem ele pensa que é para interferir assim na minha vida? Que regrinha ridícula é essa que inventaram agora? Querem me tolher?
O coração acelera os batimentos e sobe pela garganta empurrando as palavras que tentam romper o silêncio.
Por trás da cortina vermelha seu patrão/esposa/irmão/mãe/pai/namorado continua falando incessantemente, já não podemos entender direito suas palavras, mas sabemos que doem como facas na alma.
Estranhas associações tomam conta do cérebro. Fatos e palavras de agora parecem se conectar com algo dito ou feito a anos, meses ou horas. Como o monstro do Lago Ness, a nova situação emerge aos poucos do fundo de nossas mentes pressionadas e torturadas. A silhueta gigantesca e cinza domina todos os pensamentos. As associações de passado e presente incharam o problema, pintando-lhe com as cores negras do ódio.
O prazer colérico da descoberta daquela bizarra associação - passado/presente- enche-nos de força e coragem: Então é isso! Desnudei sua alma e suas reais intenções!
Novas agressões verbais ganham força na boca, empurradas pelo coração que quer saltar do peito; enquanto que, por de trás da cortina vermelha da ira o monstro dança provocativamente.
Aquilo é o fim! Provocação tem limite!Tenho que me defender! Tenho que defender minha dignidade!
A boca mantida fechada com muito custo, abre-se, deixando passar uma torrente de ofensas germinadas no adubo de uma mente torturada e confusa. Reduzimos nosso 'oponente' a pó. Transformamos o monstro que dançava sob a cortina vermelha, naquilo que ele realmente é: um verme! Um mísero verme!
A enorme torrente reduz a pressão interna de nossas mentes; a cortina vermelha desanuvia-se aos poucos, o coração se acalma e retomamos a visão. Diante de nós uma pessoa estupefata, ofendida, incrédula, destruída, muitas vezes aos prantos.
Como um raio, nossa mente se ilumina e a razão volta.
Perdi meu emprego! Perdi minha mulher! Acabou-se o namoro!
Um torpor, uma enorme fraqueza, uma culpa gigantesca, toma conta de nossa alma.
O desespero da perda! A consciência da asneira que se acabou de cometer...
Começa a desesperadora tarefa de consertar o que se destruiu a poucos segundos.
Toda a nossa força, a força dos desesperados, nos lança na ensandecida tarefa de reparar os danos, muitas vezes irreparáveis.
Por quê?
Não sabemos lidar com pressões. Não sabemos reagir friamente quando nos sentimos acuados. Não sabemos lidar com críticas.
Claro, nem todos são iguais. Mas quase...
Muitas vezes consegui impedir as explosões conversando internamente comigo mesmo e me avisando: essa raiva toda é do TDAH. Esse desespero não é real, é da doença.
Mas nem sempre consigo. O tsunami das emoções rompe a barreira da sensatez e da racionalidade, levando de roldão tudo o que está diante de mim. Imediatamente a minha 'Cruz Vermelha' do arrependimento entra em ação para tentar salvar o que for possível dos estragos. Mas sempre fica aquela marca na alma de quem foi alvo de tamanha ira.
A luta é diária, é incessante, é árdua, é infinita. Mas ou nos mantemos alerta e em luta constante, ou acabaremos nossos dias sozinhos e corroídos pelo remorso.