domingo, 9 de março de 2014

O TDAH E A BORRASCA QUE SE APROXIMA






Moro em Juiz de Fora; uma ótima cidade de péssimo clima. Costumamos dizer que em Juiz de Fora fazem as quatro estações do ano no mesmo dia. As vezes, fazem quatro estações de manhã e quatro à tarde. Juro, não é exagero. Aqui você sai de casa com sol, até um calorzinho; dali a pouco chove, gela. A chuva passa, mas deixa de lembrança uma fina garoa capaz de molhar os ossos e a alma; como bom juizforano, armo-me de vários agasalhos, só para tirá-los daí a uma hora pois o sol volta e o tempo esquenta de novo.E assim vivem todos os moradores de Juiz de Fora, sempre temos um agasalho e/ou guarda chuva à mão, mesmo que o céu esteja absolutamente azul, sem nenhuma nuvem. Mas pode chover.
Assim sou eu. Posso estar feliz alegre e satisfeito; de repente, uma enorme chuva de melancolia e mau humor cai sobre mim. Por quê? Só Deus para saber. Uma música, uma palavra, uma imagem, um ruído...
O céu azul tolda-se de nuvens baixas e logo, logo, os raios e trovões também podem surgir. E pelo mesmo motivo da melancolia, nenhum. Um súbito mau humor quase assassino; uma enorme vontade de comandar, pessoalmente, um holocausto que dizime toda a humanidade.
Mas, de repente, não mais que de repente, o sol rompe a camada de nuvens que parecia intransponível e brilha absoluto no céu azul. Um calor eufórico me assalta e um enorme amor pela sofrida humanidade se apodera da minha vida. Por quê? Só Deus para saber. Uma música, uma palavra, uma imagem, um ruído...
Assim como acostumei-me a morar em Juiz de Fora, adaptei-me a essa absurda variação de humor.Cheguei a tomar sertralina, mas parei. Passei a policiar-me, controlar meu humor; quando percebo que caminho ( ou que já atingi) os extremos me pergunto: por que esse humor? O que aconteceu de concreto para ficar dessa maneira? Se não existe explicação concreta, dou logo um jeito de 'reposicionar' meu humor. Digo pra mim mesmo: sai dessa, não aconteceu nada pra você estar desse jeito.
Fácil né? Não, difícil. Muito difícil. Primeiro tive de descobrir meu TDAH e saber que sou sua vítima de suas mazelas acopladas; depois daquele período tomando sertralina, e de meses de auto prospecção é que consegui perceber que essa variação de humor é artificial, não é consequência de um fato concreto, simplesmente minha cabeça é assim.
É incrível como meu estado de espírito se altera de um segundo para o outro...
Da mais genuína alegria pra uma  letárgica tristeza num estalo.
Uma sensação de torpor, de abandono, de nada, é substituída por uma felicidade canina; de um momento para o outro.
A serenidade de uma alma em eterna paz é rompida pelo grito lancinante de um desespero irremediável num piscar de olhos.
Mas a doença é ladina, matreira, muitas das vezes ela chega tão suavemente, tão delicadamente, que quando percebo meu ânimo está ao nível do solo, rastejante. Aí sim, percebo a sinuca em que me meti e retomo o caminho da normalidade.
A volta quase sempre é fácil e tranquila. Não me lembro se foi assim desde o começo, mas hoje o mais difícil é perceber que caí no buraco e não sair dele.Na verdade, ele é raso, pois é falso, mas é tão raso que às vezes custo a perceber que caí outra vez.
A solução?
Agasalho num braço, guarda chuva no outro e muita disposição pra enfrentar as borrascas que virão, com certeza.