quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O MEDO DO DESCONTROLE




Existem algumas coisas difíceis de serem explicadas. Durante toda a minha vida, mesmo na adolescência, sempre evitei bebidas, drogas, armas e jogo. No fundo de minha alma sempre tive muito medo de não conseguir me controlar. A bebida, graças a Deus, nunca foi um prazer pra mim; até hoje qualquer bebida, de qualquer tipo, me causa desconforto e todas me provocam um estranho arrepio pelo corpo. Jamais insisti ou tentei superar essa  rejeição física à bebida. Sempre temi chegar ao fundo do poço, de beber até cair.
Meus amigos mais antigos lembram-se de que eu sempre fui aquele que acompanhava os tontos até em casa, mais tarde dirigia para aqueles sem condições para isso. Até experimentei alguns tipos de bebida e, claro, ao contrário da maioria odeio cerveja. Na adolescência, desfilei em escolas de samba, fantasiei-me de mulher em blocos de embalo, pulei carnaval em clubes da cidade; sempre de cara limpa. Lembro-me perfeitamente de uma senhora que ficava no caixa do bar do clube Bom Pastor, onde eu pulava carnaval, ela sempre dizia que eu era seu folião preferido; talvez eu fosse o único adolescente sóbrio daquele salão.
Se cheguei a experimentar algumas bebidas, com relação ao jogo eu era ainda mais radical. Nunca joguei a dinheiro, nem mesmo centavos. O máximo que eu concordava era jogar com grãos de feijão ou coisas equivalentes. Sempre temi perder tudo no jogo, viciar-me até ao mais baixo nível.
Sempre temi as armas. Com um temperamento explosivo, instável e, acima de tudo, incontrolável, disparar uma arma sem pensar seria fácil demais. Nunca cogitei ter uma arma, nem ontem, nem hoje, nem nunca.
Na minha adolescência as drogas tinham um certo glamour, um charme. Era meio que coisa de gente que se rebelava contra o sistema, os pais, a ditadura, etc, etc...
Existia até mesmo um perfume com um aroma muito parecido ao da maconha: patchouli. Não sei se é assim que se escreve, mas lembro-me do cheiro e da embalagem perfeitamente.
Fiz algumas incursões pelas drogas leves, maconha, uns chás que se usavam na época. Mas também o medo do descontrole, o receio de me afundar nas drogas me fez desistir da experiência.
Sempre tive em meu íntimo uma noção da passionalidade da minha personalidade; sempre tive consciência de que tudo aquilo que me dava prazer me absorvia completamente. Assim foi com as namoradas, o cigarro - desse só consegui me livrar em 1998, após 24 anos de fumacê explícito - a leitura, o sexo, e todos os prazeres que se apresentaram na minha vida.
Sei lá que mecanismo em minha mente fez o medo ser maior do que a compulsão por esses vícios. Outras características do TDAH não consegui controlar, mas enfim, ninguém é perfeito.
Nem eu sou um TDAH perfeito. Como profissional do TDAH também cometi minhas falhas. Graças a Deus, senão provavelmente hoje eu estaria na cadeia ou no cemitério.