sexta-feira, 18 de março de 2011

O TDAH E A SOLIDARIEDADE

              Detalhe da obra 'Guernica' de Pablo Picasso.
              O painel retrata o horror da guerra civil espanhola.
              A cidade de Guernica foi bombardeada em 1937.
                            

A primeira vez que me lembro desse sentimento, eu deveria ter uns doze ou treze anos. Fui ao cinema com dois de meus primos, assistíamos a um filme sobre a saga de um menino que tentava sobreviver sozinho no deserto. O avião em que viajava com os pais caiu, matando todo mundo, menos ele. A partir de então esse garoto começou a sofrer mais do que 'charuto em boca de bêbado' (como diz meu pai). A comida acabou, a água acabou, sua pele começou a se encher de feridas, seus lábios racharam, os olhos infeccionaram e ele saiu  andando a esmo pelo deserto, tentando escapar da morte iminente. Nesse instante ele é picado por um escorpião. Aquilo foi a gota d'água!
Levantei-me da poltrona e deixei o filme pela metade. Mesmo sabendo que o final seria, provavelmente, bom. E de fato foi. Mas tenho um limite muito baixo para conviver com  o sofrimento humano.
Não suporto ver ou ler nada cujo sofrimento da personagem parece não ter fim, ou que a pessoa é submetida a humilhação, injustiça ou degradação pública...
Nunca terminei de ler o livro ' A fogueira das vaidades ', a história nem é tão absurda assim, um magnata de Wall Street se envolve num acidente que acaba com sua vida de milionário. Mas a execração pública é algo que me incomoda. Não suporto acompanhar a decadência 'eterna', o sofrimento que parece não ter fim, ou que a cada capítulo ou cena se agrava, piora, torna-se mais e mais intenso.
Transportando para a vida real, no site da Dra. Marilene Costa (http://dramarilenecosta.site.med.br), o item 10 do teste de TDAH diz exatamente o seguinte: Dificuldade em expressar solidariedade pelos outros. Não sei se concordo com esse item. Creio que talvez não seja dificuldade em expressar a solidariedade e sim,  de exercer a solidariedade, em conviver com as vítimas, ou de conviver com a diferença. Jamais me furtei a ajudar as pessoas que necessitem ou em momentos de desastre. Doei dinheiro, roupas, alimentos, mas não teria capacidade de trabalhar junto aos desabrigados, aos doentes, aos acidentados. Realmente, não sei conviver com essas situações.
Admiro, do fundo do coração, quem consegue trabalhar nesses ambientes, com pessoas altamente necessitadas. Eu, infelizmente não consigo; o que não considero um defeito, mas uma característica de personalidade que pode ou não ter influência do TDAH.
Expressar a solidariedade é para muitos. Quase todos. 
Exercer a solidariedade é para poucos. Muito poucos.
E eu, não estou entre esses poucos.