terça-feira, 15 de março de 2011

O TDAH NO FIO DA NAVALHA



Ontem passei por uma rua que há muito tempo não passava.
Recordei-me de uma situação que ilustra muito bem o risco que o TDAH se expõe gratuitamente.
Esta rua é bastante longa e sinuosa, numa de suas muitas curvas, do lado direito da pista existe uma tampa de bueiro, redonda, de ferro, quase encostada ao meio fio. Bem próxima do meio fio; talvez sobre um palmo ou pouco mais do que isso de rua até a guia do passeio. Dessa tampa de ferro, saía um gancho de cor escura no seu lado direito, quase no meio fio. Um lugar muito improvável de que um carro passasse. Mas eu passava.

Conscientemente. Sempre achei que aquele gancho fosse de plástico, mas nunca tive certeza. Mas gostava de passar com o carro sobre a tampa, bem próximo daquele gancho, como a desafiá-lo. Muitas das vezes eu nem me dava conta desse comportamento. Quando eu percebia já havia passado perigosamente próximo do tal 'gancho' escuro. Em alguns momentos eu me pegava indo em direção a ele e desviava, tirava daquele risco desnecessário. Era um estranho prazer de correr aquele risco. E se o 'gancho' fosse de metal? Em certos momentos arrisquei tanto que esperei ouvir o pneu estourando. Como não estourava, uma sensação de alívio, relaxamento invadia meu corpo. Mas na próxima vez, arriscava de novo.
Um risco consciente. Eu sabia que poderia cortar o pneu, me dar prejuízo. Mas pagava pra ver.
Este é um exemplo prático de um comportamento habitual dos portadores de TDAH. A necessidade de adrenalina, o prazer em correr riscos. Quantas vezes tomei atitudes com um sentimento de que daria tudo errado? Mas, e se desse certo? Essa dúvida, a ansiedade que ela gera, a expectativa pelo resultado, a tensão daquele momento.
Sempre vivi no fio da navalha. Muitas vezes aproximei-me de situações limite, arriscadíssimas, apenas para experimentá-las. Quando adolescente, tive uma namorada amante do risco tanto quanto eu. Em muitas oportunidades, transamos em períodos de ovulação arriscados, apenas pelo risco. Sabíamos que era muito arriscado naqueles dias, mas falávamos um pro outro: foda-se! Graças a Deus nunca deu errado. O prazer da adrenalina, o prazer imediato sobrepondo a razão.
A união de duas característica perigosíssimas: a paixão pelo risco e a supervalorização do prazer imediato.
Quantas vezes me expus ao julgamento alheio pelo prazer do risco, da novidade, da mudança.
Quantas vezes segui o caminho inverso pelo prazer do embate, do confronto.
Quantos vezes saltei de abismos, caminhei na corda bamba, atravessei neblinas, enfrentei tempestades, por nada! Ou quase nada!

Haja ritalina, coaching e terapia.