quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ADOLESCÊNCIA, O TDAH SE MANIFESTA.











Cheguei  à adolescência como a maioria dos garotos:
sonhador, cabelos longos, indisciplinado, indeciso em relação ao futuro, bagunceiro...
Nada muito diferente dos outros.
E este parece ser um dos problemas do TDAH, na adolescência a maioria dos jovens estão em plenas transformação. São bagunceiros, rebeldes, indisciplinados, resistente às regras. 
Uma das minhas características mais marcantes era a de me apaixonar quase que diariamente por uma menina diferente.
Aos 16 tive minha primeira grande e eterna paixão. Que veio acompanhada de falhas de memória graves.
Conheci-a num baile de carnaval. Posso vê-la vestida de índia, loirinha de olhos verdes, miudinha. Uma graça! Passamos o carnaval juntos. Mas, ela tinha carinha  de criança e me disse que cursava bioquímica na UFJF. Não acreditei, e como bom folião menti também. Falei que tinha 18 anos e havia sido reprovado no vestibular.

O problema começou por que o relacionamento transbordou para além do carnaval. E comecei a ver que tudo o que ela dissera era verdade. E tudo o que eu havia dito era mentira. Comecei a me torturar na tentativa de decidir se contava a verdade ou não.
A minha memória, ou a falta dela, resolveu a questão. Certo dia, deixei na varanda de sua casa minha carteira "marroquina" ela pegou e me pediu para olhá-la. Claro que me esqueci que a verdade estava ali dentro. Em segundos ela estava com minha carteira de estudante nas mãos. Oitava série, dezesseis anos. Além de mentiroso, eu estava atrasado nos estudos.
Foi um custo convencê-la a não terminar o namoro. Tive de usar todo o meu poder de convencimento, que não é pouco. Especialmente se estou motivado a fazê-lo.
O namoro continuou, e ela assumiu para mim um papel de Mônica, personagem daquela música do Legião Eduardo e Mônica. Me apresentou ao Pasquim, me falava das grandes questões de política e principalmente de política estudantil.
Aí, pisei na bola de novo.
Esqueci seu aniversário!
Havíamos tido uma briga na semana anterior e estávamos meio abalados. Ainda assim ela me convidou para a comemoração que seria no domingo. Lá, reatamos e combinamos de jantar juntos na segunda, data real de seu aniversário. No dia seguinte, fui prá escola e de lá para o futebol. Cheguei em casa mais de 21 hs. Minha mãe me disse que ela havia ligado "milhares de vezes". Nem assim eu me lembrei de que havia marcado de jantarmos juntos. Ela atendeu o telefone assim " muito obrigado pela atenção". Aí caiu a ficha!
Saí de casa voando prá tentar apagar o incêndio.
Lembro-me de suas primeiras palavras:
" estou me sentindo ridícula diante de você".
Ela acabou comigo naquela noite. E o pior, sem levantar a voz, sem perder a linha. Foi uma tragédia.
Mas eu iria repetir isso. Com outra namorada.
Meus episódios de esquecimento iam se multiplicando e se tornando folclóricos. Objetos, horários, compromissos.
Meu esquecimento rivalizava com minha capacidade de abandonar as coisas pela metade.
Curso de inglês lembro-me de três, mas tenho a sensação de haver outros. Voltei a lutar Judô, mas não foi longe. Academia de ginástica, incontáveis. A informática estava surgindo, matriculei-me num curso de cobol. Fui a duas aulas. Fiz até um curso de eletricista instalador, jamais foi adiante. Trabalhei num farmácia, numa sapataria...
Segundo meu pai, o que eu fazia bem era fumar. Fumava que era uma beleza. E conversar. Quantas vezes varei a noite com amigos batendo papo.
Meu pai conta um caso que ele adora:
A madrugada já ia alta e nada do Alexandre chegar em casa. Preocupado, meu pai resolver sair atrás de mim. Sei lá por que, ele resolveu sair a pé.
Ele conta que caminhava pela av Rio Branco quando ouviu minha voz. Foi em direção a ele e se deparou com uma cena no mínimo inusitada. 
Era época pré carnaval, naquele tempo os desfiles de escolas de samba aconteciam na av Rio Branco - a principal da cidade - e os funcionários da prefeitura montavam a decoração de madrugada.
Meu pai me encontrou ajudando os funcionários da prefeitura na montagem da decoração de carnaval. Nem brigar comigo ele brigou. Ele começou a rir e me perguntou se eu sabia que horas eram. Eu não fazia a menor idéia. E me surpreendi muito de descobrir que eram mais de três da manhã.
Fiquei ali, batendo papo, ajudando os caras, e a vida passou.
Eu simplesmente não podia encontrar algo ou alguém que me chamasse a atenção. É uma incapacidade absoluta de "andar em linha reta". Vou indo, de repente algo me chama a atenção. É o que basta para que eu me desvie do objetivo inicial, que muitas vezes se apaga para sempre.
Os esquecimentos iam se acumulando e se agravando. Certa vez, meu pais me pediu que pagasse o aluguel da loja que ele ocupava no centro de Juiz de Fora. Era o último dia sem multa. Pois bem, da loja que ele ocupava na Galeria Constança Valadares até o prédio ocupado pelo advogado não dava 500 metros. Creio que nem isso. De uma esquina a outra. Subo o calçadão com o cheque no bolso. Encontro uma amigas e pronto. Apagou-se o aluguel. Prá minha sorte, mais de uma hora depois, uma funcionária do escritório sobe o calçadão. Ao vê-la, lembrei-me de minha missão. Saí em desabalada carreira e peguei o escritório fechado. Por pura sorte, Dr. Aloísio voltou para pegar um documento ou coisa que o valha e deu de cara comigo, desesperado. Assumi minha culpa e ele recebeu o aluguel sem problemas.
Mas era assim. Sempre no fio da navalha.
Experimentei maconha. Não sei bem por que, em mim seu efeito era ao contrário das outras pessoas. Foi minha salvação. A maconha me deprimia, me desinteressava por tudo. Eu ficava num alheiamento, num torpor insuportável. Acabei largando aquilo de lado. Correr o risco de ser preso, descoberto pelo meu pai ( não sei qual seria o pior ), pra ficar daquele jeito? Meio idiotizado! Nem pelas meninas eu me interessava. Preferi as meninas.
Tentei o teatro, larguei.
Fui modelo. Fiz alguns desfiles, mas aquilo era muito chato. Tinha que ficar ensaiando demais. E o pior, era de graça. Ganhávamos umas roupinhas, algumas meninas e alguma fama. Larguei.
Eu sempre tive dificuldade com coisas muito longas, demoradas.
Gosto de filmes, mas no cinema é muito ruim. Você não pode levantar, ir ao banheiro, tomar uma água. Prefiro a televisão. Por mais grandioso e espetacular que o cinema possa ser.

Compromissos muito longos, que exigem minha presença várias vezes por semana ou por mês, são muito difíceis de cumprir. Cursos curtos, sei lá, uma semana, até um mês ainda vai. Se passou disso começa a complicar.

Isso começa a ficar mais claro na adolescência. Como já estava grande demais para ser levado à escola, comecei a matar aula, na maioria das vezes para fazer nada. Ficar à toa. Achava aquilo tudo um saco!
Outra característica que sempre me acompanhou foram comportamentos arriscados, ou inconsequentes. Eu simplesmente corria o risco de...
A namorada fazia as contas e estava na dúvida se era um bom dia para transar. E daí, vamos correr o risco. O importante era o prazer imediato. O agora sem pensar em consequências.
Muitas vezes traí as namoradas ( ou esposas) com mulheres muito inferiores fisicamente, ou que pouco me atraíam, mas o prazer de estar com outra mulher pagava o risco de ser descoberto.
Após uma série de inconsequências sem maiores problemas, uma teria de dar errado. E deu!
A namorada estava grávida. 
Aos 21 anos decidi casar e assumir a criança.
Era o fim da adolescência, e o começo dos problemas mais graves.