quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

NA LUTA CONTRA O TDAH, ME SINTO NAS CORDAS.









Há pouco mais de um mês fui diagnosticado como portador de TDAH. Naquele momento foi um alívio. Encontrei a razão de meu comportamento autodestrutivo, minha procrastinação, meu esquecimento, minha impulsividade...
Acreditei que ao tomar o remédio, uma nova vida se abriria diante de mim. Uma estrada florida rumo à paz interior e à vida que aos vinte anos eu acreditei que teria. Ledo engano, comecei a fazer uma restrospectiva de minha vida, ao mesmo tempo em que comecei a prestar atenção ao meu comportamento. Confesso que estou decepcionado. Os erros do passado, mesmo com o salvo conduto da TDAH, têm me torturado. Nunca havia dissecado meu comportamento desta forma. O que descobri, não gostei. A pessoa que emergiu deste passado me assustou. Não havia prestado atenção ao resultado de minha conduta ao longo da vida. Simplesmente vivia. Esse passado tem sido muito doloroso.

Mas não é só isso. Tenho percebido em mim todos os comportamentos típicos do TDAH, e que não os abandonei. Ontem foi um dia típico. Adiei várias coisas que me propus fazer, e elas ficaram me martelando a cabeça. Depois tive que mentir às pessoas envolvidas para limpar minha barra afinal, havia descumprido meus compromissos.
Tenho tido sérias dúvidas em relação à eficiência da Ritalina, ou se não há alguma comorbidade, ou sei lá o quê.
Estou me sentindo aquele boxeador que, depois de acreditar estar vencendo a luta, se vê acuado pelo adversário, só se defendendo apoiado às cordas que cercam o ringue. Preciso urgentemente sair da defensiva, virar este jogo. 
Talvez tenha subestimado o adversário. Depois de 50 anos enraizado em minha alma, o TDAH deve ter se fortalecido, lançado seus tentáculos em todos os recônditos da minha mente. Extraí-lo agora vai ser um bocado complicado.
Lembrei-me de uma frase de Clarice Lispector: " Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
Pois é, serei eu um edifício alicerçado sobre o TDAH ? Não, não pode ser isso. Não posso crer que jamais conseguirei me ver livre desses sintomas.
Não suporto mais a procrastinação e a tortura mental que ela trás em seu bojo.
Não suporto mais a impulsividade e as consequências nefastas que ela acarreta.
Não posso me render ao meu esquecimento crônico, e rir-me dele como um idiota a rir de sua própria desgraça.
Não posso sucumbir à paralisia provocada pela indecisão diante da enxurrada de novas idéias, dos múltiplos caminhos (verdadeiros ou delirantes) que abro diante de mim.
Não quero mais conviver com as emoções provocadas pela montanha russa amorosa que assola minha vida há décadas.
Não posso ficar inerte diante da possibilidade de continuar machucando as pessoas que me cercam, que me amam, mas que são obrigadas a conviver com esse vulcão de sentimentos.
Não posso me permitir continuar a malbaratar o dinheiro (que não tenho) da mesma forma como fiz nos últimos 50 anos.
Tenho de arrancar as raízes dessa planta nefasta, venenosa, que tomou conta de minha mente. Vai ser muito mais difícil do que eu imaginava.
Mas não posso desistir.
Não vou desistir.