quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

VIVER COM TDAH: UMA VIDA À DERIVA









A primeira atividade (ou projeto) que não concluí creio que foi o Lobinho. Não sei se ainda existe, Lobinho é uma espécie de Escoteiro infantil. Reuníamos todos uniformizados no Granbery e fazíamos passeios, aprendíamos noções de primeiros socorros, higiene, disciplina e coisas do gênero. Meu pai comprou todo o uniforme e acessórios exigidos e lá fui eu. Era um grupo chamado Caiuás, referência a uma tribo indígena. Aprendi a amarrar os sapatos sozinho, cantávamos músicas e hinos , tínhamos noções de sobrevivência na selva - bem primárias, claro - enfim, era um encontro semanal ansiosamente aguardado. Durou pouco, muito pouco. Hoje não sei precisar quanto tempo fiquei no Lobinho. Creio que menos de um ano. Aquilo era muito chato. Tudo tinha fila, ordem, disciplina, enfim, dei no pé.

Depois disso vieram o Judô, que ainda durou muito, uns três ou quatro anos, mas com idas e vindas em várias academias diferentes; violão - pouquíssimo tempo - minha irmã mais velha toca muito bem; handebol; natação; e sei lá mais quantas atividades entrei e abandonei.
Todas elas são atividades benéficas, porém nada de fundamental na vida. O problema foi levar essa inconstância para a idade adulta e as atividades profissionais.
Curso de inglês tentei várias vezes, inclusive depois de casado. Minha segunda esposa morou nos EUA e fala fluentemente. Ela tentou me ensinar, matriculei-me em uma infinidade de cursos. Jamais completei, sequer, um ano.
Sempre havia algo mais gostoso de fazer. Uma namorada, uma viagem, uma festa, um show, e o curso ia caindo no esquecimento. Matriculei-me em tantas coisas que outro dia aconteceu um fato interessante. Minha mãe me deu algumas coisas minhas que ela guardava, e dentre elas uma carteira de estudante de 1982. Nesse ano eu me casei pela primeira vez. Na foto da carteira eu estava de terno e gravata, ou seja, já era um adulto, já trabalhava na financeira. Não tenho a menor lembrança de, um dia sequer, ter estudado naquele curso. Em 1981 eu passei no vestibular de direito, por que eu teria uma carteira de estudante datada de 1982 em um curso pré-vestibular? Creio que jamais vou me lembrar.
Como já disse, passei no vestibular de direito em 1981. Confesso que não foi minha primeira opção, nem a segunda, ou a terceira. Trabalhava desde 1979 e só teria disponibilidade de estudar à noite. Naquela época em Juiz de Fora as opções eram Administração, Psicologia, Pedagogia e Direito. Entenderam minha escolha? Eu bem poderia colocar a culpa na falta de opção, ou de vocação, mas na verdade, eu não sabia o queria fazer. Durante minha infância, tive uma pequena vontade ser médico (creio que quase todo mundo teve um dia) mas nessa época não sabia muito bem o que queria; e com minhas qualidades eu teria sido um excelente advogado. Se tivesse formado. Abandonei o curso no meio do terceiro ano. Recém casado com um mulher fogosa e com um corpo escultural, troquei as carteiras da faculdade pelos prazeres do meu leito nupcial. Prometi retomar no ano seguinte. Não retomei e, a partir daí, criei ou surgiu em mim uma insatisfação com o curso. Não havia sido minha escolha; eu queria mesmo era fazer História. Mudei-me para o Rio de Janeiro em 1985 e lá matriculei-me num pré vestibular para fazer História. Nem cheguei a prestar o vestibular. Abandonei o curso em dois ou três meses. Em Belo Horizonte lá estava eu, outra vez, matriculado em um curso pré vestibular. Dessa vez durou mais tempo, eu paquerava a professora de química, mas ainda assim não cheguei ao vestibular. Conheci minha segunda esposa e desinteressei-me pela química.
Eu sempre criava razões plausíveis para os abandonos. A vida de alguma forma agia para que eu largasse aquilo que estava fazendo. Mas eu jurava que retomaria. Retomei muitas vezes, e gastei dinheiro, comprei livros, apostilas, mensalidades, infinitas matrículas. Para nada.
Minha segunda esposa convenceu-me a retomar o direito. Faltava pouco para formar. Vim a Juiz de Fora, consegui minha transferência e matriculei-me (já estou com vergonha de escrever isso) na faculdade Milton Campos. Aos trancos e barrancos completei o sexto período ( fiquei devendo a matéria de processo civil por frequência), e jamais voltei lá ou retomei o curso. Faltavam quatro períodos para a conclusão.
Em Lavras, fui aprovado no vestibular de Filosofia. Estava adorando o curso, problemas financeiros me levaram a abandoná-lo e nunca mais retomei.
Quando montei a loja, as coisas começaram a se agravar. A empresa cresceu, ficou muito complexa e difícil de administrar. Eu não estava preparado para isso. Fiz alguns cursos de capacitação no Sebrae - entre eles o Empretec - iniciei vários projetos de reestruturação da empresa. Jamais deixaram de ser projetos. Fiz reuniões com os funcionários, apresentei os projetos, sempre muito bem feitos, visualmente bonitos, muito bem fundamentados. Mas nunca viraram realidade. Após sua implantação, eles exigiam acompanhamento constante, checagem e correções de rumo, mão de ferro para mudar a cabeça e o comportamento das pessoas envolvidas. Isso não aconteceu. Eu já tinha outra coisa na cabeça, acompanhar, checar, monitorar era um saco. Eu gosto é de criar. Mesmo com três lojas para administrar, eu não podia ver uma loja para alugar que ficava imaginando qual negócio seria interessante naquele ponto. Criei também, a exemplo do curso de História, um sonho inatingível de ser dono de uma livraria. Isto de alguma forma me servia de desculpas para o fracasso de administrar uma loja de tintas. Uma livraria é algo lúdico, intelectual, uma certa aura de superioridade. Mas, administrar uma livraria exige o mesmo esforço, determinação e dedicação, do que qualquer outro tipo de empresa comercial. Era apenas uma forma de fugir da realidade.
Mesmo dentro de uma loja de tintas, criei projetos interessantes que nunca sairam do papel. Os síndicos de edifícios são muito importantes como clientes. Um edifício exige manutenção constante, consome tinta. Criei um curso voltado para o síndico, como se relacionar com os profissionais que prestam serviços para o prédio. Como evitar problemas e dissabores. Ficou ótimo, mas só no papel.
Criei projetos para atrair arquitetos e decoradores; para fazer parceria com a prefeitura em um bairro distante que tive uma filial; uma loja de tintas itinerante que frequentaria feiras e exposições nas redondezas. Nada disso saiu do papel. São projetos originais, inovadores. Não sei se salvariam a loja do fracasso, mas certamente teriam trazido mais clientes e mais vendas. Mas, criar os projetos é um prazer indescritível, executá-los exige uma dedicação, uma disciplina e um acompanhamento insuportáveis. Quando precisam de minha atenção, meu acompanhamento, já estou longe. Uma nova correnteza me levou para outro lugar. Aquele projeto recém implantado, ou boiará sozinho, ou naufragará como a grande maioria.