quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O TDAH É MUITO MAIS DO QUE MEMÓRIA RUIM.



O esquecimento é a face mais visível do meu TDAH. E é escandalosamente visível. Quando comentei com minha ex-esposa sobre o diagnóstico e o início do tratamento, creio que ela fixou-se no esquecimento. Ontem, falei para ela sobre o blog e dei-lhe o endereço. Em poucos minutos ela me retornou impressionada. Vivemos cerca de dois anos juntos e ela afirmou não reconhecer a pessoa que está retratada neste blog. Ela acreditava que as tais falhas de memória em que esqueço absolutamente o que eu disse na véspera, eram na verdade uma brincadeira ou uma forma de desconversar ou ainda, uma forma de escapar do que havia dito. Jamais imaginou que pudesse ser assim.
Ninguém que está de fora imagina como é ter TDAH.

Ter de acordar toda manhã e se preparar para o embate diário contra o esquecimento e a impulsividade.
Abrir os olhos e lembrar-se do que adiou na véspera e que deveria ter sido feito. Arregimentar forças para enfrentar aquilo que sua mente não quer enfrentar.
O corpo fica pesado, a cabeça nublada. Eu ensaiava fazer aquilo dezenas de vezes por dia. Remoía aquilo por horas e terminava o dia sem ter feito.
Ou quem sabe, enfrentar um desânimo mortal, sabe-se lá surgido de onde, que te domina por completo. Uma vontade enorme de largar tudo e sair andando indefinidamente. Hoje, na verdade estou assim. Algumas lembranças me derrubaram o ânimo e pronto. Me arrastei durante toda a tarde. As vezes paro, penso no que pode ter causado tamanha tristeza e não encontro. Só podem ser  as tais lembranças.
Todo este estado de espírito pode mudar 180 graus ao receber um pequeno estímulo positivo. Ou enxergar o que estava diante dos próprios olhos e que eu não havia visto.
Experimento um sentimento muito estranho com relação a planejamento.
Contam uma estória sobre o craque Garrincha que espelha bem meu pensamento sobre o planejamento: No intervalo de um jogo o técnico da seleção brasileira reuniu o time e explicou como deveriam jogar para vencer a partida. Ao final da explanação, Garrincha perguntou: " O senhor já combinou isso tudo com o adversário?". É isso que penso de um planejamento. Uma série de projeções que você não combinou com ninguém. Não acertou nada com o Imprevisto, nem com a Força Maior, nem mesmo com o Governo, ou a Concorrência, ou com quem quer que faça parte dessa vida e que pode por tudo a perder de uma hora pra outra.
Um exemplo: Tive algumas lojas de tintas. Encomendei uma pesquisa para me orientar onde abrir uma nova filial. Num bairro  ou no centro da cidade. Contratei um renomado instituto local que me deu como resposta que o  consumidor queria uma loja no centro, com estacionamento, confortável e com variado estoque de produtos Coral. Abri uma loja na Avenida dos Andradas. Para quem não é de Juiz de Fora, esta  avenida tem um dos maiores volumes de tráfego da cidade. Uma quantidade de gente absurda passa na porta do imóvel que aluguei.
A loja tinha estacionamento próprio, área reservada com café expresso, revistas especializadas, jornal do dia. O estoque priorizava os produtos Coral, líder de mercado na cidade.
A loja ficou linda, num prédio histórico.
Foi um fracasso!
Outra questão: vamos elencar as prioridades. Um dia me ensinaram a fazer um mapa: primeiro o urgente, depois o importante, a seguir o necessário, e assim por diante.
Sentei-me diante de uma folha em branco e em cinco minutos eu desisti. Não consegui priorizar as prioridades. Olhando, tudo era urgente ou importante.
E a tensão que surge de repente ao descobrir que esqueceu, ou pode ter esquecido, de enviar aquele documento, ou pagar aquela conta. É um sobressalto terrível. O coração dispara, bate dentro da cabeça, dezenas de dedos acusadores aparecem diante de mim. Será que errei de novo, falhei outra vez!
Se descubro que esqueci um sentimento acachapante paralisa meu corpo.
O sabor de derrota volta à boca.
Imagina o que pode ser um dia vivido desta forma. Acabamos acostumando por achar que não tem outro jeito. É o nosso destino.
Como disse Chico Buarque, "quando nasci veio um anjo safado, um chato dum Querubim, que decretou que eu tava predestinado a ser errado assim. Já de saída minha estrada entortou, mas vou até o fim ".
Sou um cara brincalhão, gozador, costumo fazer piada até com minha própria desatenção. Isto deve fazer com que as pessoas não vejam isso como um problema. Outros, talvez, enxerguem apenas  um boa vida, um bonachão,  que leva tudo na gozação.
Acho que era assim que ela me enxergava. Ou ainda enxerga.


PS.:
Sendo bem honesto, eu criei essa imagem.
Até eu mesmo me assutei ao saber que eu não era assim.
Ou melhor, que eu posso ser de outra maneira.
Também terei de aprender a me enxergar diferente.
Mas com certeza, será menos difícil do que é hoje.