TDAH NÃO É DESCULPA, É SEQUESTRO: PARE DE MINIMIZAR NOSSA LUTA

Imagem artística da dificuldade do TDAH com o tempo

                                       Foto do site Maísa Lanzarin Psicóloga -maisalanzarin.com.br


Nota de 2026: Reli este desabafo e a dor do "esquecimento patológico" ainda ressoa. Hoje, o mundo está mais barulhento e as pessoas continuam dizendo que "também são um pouco TDAH". Não, não são. Ter um lapso de memória é humano; viver em um labirinto de memórias falsas e certezas que nos traem é TDAH. Este post é para quem está cansado de ser silenciado com frases motivacionais vazias.

Mesmo dentro de nossas casas é comum tentarem minimizar a importância ou a gravidade do TDAH e seus efeitos. O mais comum de se ouvir é: eu também sou esquecido! Desculpe, mas você não pode opinar se o seu esquecimento não é patológico. Você é esquecido, desatento, impulsivo, procrastinador, emocionalmente instável, não aprende com os próprios erros, anti social, sem noção de tempo? 

Se um dos sintomas mais visíveis do TDAH é o esquecimento, somado a todos os outros transforma-se em algo pernicioso, desgastante e, muitas vezes, desesperador. Estamos emaranhados em uma teia de comportamentos prejudiciais, incuráveis, com poucos recursos médicos e farmacêuticos e ao tentarem minimizar o TDAH o que nos causa é raiva, revolta e irritação. Imagine-se envolto em situações criadas inconscientemente por você próprio e que simplesmente você não sabe como resolver ou impedir que ocorram novamente. Não pense, e todos pensam, que é só prestar atenção, só ter força de vontade... São comportamentos inconscientes sedimentados por toda uma vida e que não sabemos agir de outra forma. 
O TDAH é capaz de criar certezas e fatos que não existem. 
Uma vez, há muitos anos, marquei uma consulta no mesmo cardiologista do meu pai. Eu gostei dele e decidi fazer um check up. Marquei dia e hora, mas não me dei o trabalho de confirmar o endereço pois já havia acompanhado o meu pai numa consulta. Na data e hora marcada cheguei ao prédio e procurei no letreiro qual era o número da sala. Não havia o nome daquele médico no painel. Perguntei ao porteiro que negou que houvesse algum Dr Luiz Eduardo naquele edifício. Inconformado decidi ir ao décimo andar, onde eu suspeitava que fosse o consultório. Nada. Fiquei parado no corredor me lembrando dos detalhes do consultório: a mesa da secretária era de granito escuro salpicado de pintas brancas; acho que o nome do granito é cinza andorinha. Lembro-me de algumas plantas, de dois sofás brancos... Tudo isto só existe na minha cabeça. O tal médico jamais teve consultório naquele prédio.

 Desnecessário dizer que minha teimosia me fez perder a consulta. Como eu iria duvidar de algo que eu me lembrava com tanta clareza? E depois de tanta confusão, não me lembro mais se remarquei, e compareci, a uma nova consulta... Se você passar a duvidar de suas próprias certezas a vida torna-se um inferno. Paralisa completamente. Imagine a insegurança de quem duvida das coisas que se lembra?

Somos sabotados por nossa mente, que é sabotada pelo TDAH. Nossa mente nos rouba a noção de tempo; somos pegos de surpresa pelos fatos que sabíamos que aconteceriam, mas que não conseguimos mensurar temporalmente quando ocorreriam e reagimos tarde demais. Ao sermos surpreendidos pela enésima vez por um acontecimento que sabíamos que iria ocorrer, bate um desespero, uma vontade de abandonar tudo, abandonar a vida... Mas aí entra o esquecimento patológico: os dias passam, outros estímulos chamam nossa atenção e aquele fato grave começa a cair sob a névoa do esquecimento. Ao esquecermos dele, esquecemos a dor e o desespero que ele causou e perdemos a oportunidade de aprender com ele. 

Muitas vezes sob a aparência de calma e tranquilidade, esconde-se uma mente borbulhante assaltada por pensamentos desconexos, sem sentido, e todos ao mesmo tempo. Ao ler algo, ao ouvir instruções, ou qualquer outro tipo de atividade que exija atenção, nossas mentes fervilham de pensamentos aleatórios e perdemos várias partes importantes da informação. Outras vezes na execução de algo maçante ou cansativo simplesmente nossa mente nos cobre com pensamentos negativos e desestimulantes, que nos levam a fazer aquilo de qualquer maneira simplesmente para nos livrarmos de tamanho incômodo. E não venha com argumentos lógicos. O TDAH não tem lógica. O TDAH é a lógica. O TDAH é o sentimento. O TDAH é a ação. Somos feitos de TDAH. Não sabemos como é ser diferente. Não é escolha, é sequestro. 

Claro, o portador de TDAH adulto tem plena consciência do quão difícil deve ser conviver conosco, mas menosprezar, criticar e tentar reduzir sua importância só dificulta o convívio. Precisamos de apoio, de aconchego e de pessoas que nos ajudem a enfrentar esse inimigo oculto e perverso, que se compraz em nos sabotar, em nos colocar em situações ridículas, perigosas e embaraçosas. Nós somos as principais vítimas do TDAH. Portanto, antes de criticar ou menosprezar o TDAH lembre-se de que é um transtorno descrito na medicina há mais de um século, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde e pesquisado e tratado por médicos renomados em todo o mundo. Informe-se abaixo, a Amazon oferece o excelente livro do Dr. Russel Barkley sobre TDAH em adultos. Evite dar sua opinião baseada em ouvir dizer, respeite quem é portador.
Sua opinião desqualificada e desqualificante só piora o nosso sentimento.




Para informações oficiais, diagnóstico e orientações sobre profissionais especializados no Brasil, acesse o portal da ABDA - Associação Brasileira do Déficit de Atenção. Eles são a maior referência nacional em conscientização e apoio para portadores e familiares.



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