terça-feira, 1 de maio de 2012

AS DERRAPAGENS MENTAIS DE UM TDAH









Já disse em outros posts que em tudo na vida tenho gostos muito restritos e até mesmo, digamos, muito particulares. Uma desses gostos é o de dirigir ouvindo rádio, mas como gosto de pouquíssimos estilos musicais, as rádios quase nunca me satisfazem ; acabo optando então por ouvir a rádio AM. Quase não tem música, um blá blá blá sem fim, uma falação boba e sem nenhuma utilidade, na maioria das vezes, que não me exige concentração no que dizem (que poderia tirar minha atenção da direção) e me servem de companhia quando estou só. Se entra alguma música indesejada mudo de estação ou desligo por alguns minutos.
Hoje aconteceu algo interessante e divertido, estava eu dirigindo e sintonizei a rádio Globo AM e naquele instante era apresentado o programa do Padre Marcelo. Não sou católico e nem tenho nenhuma simpatia especial pelo padre Marcelo, mas na hora em que sintonizei ele falava sobre a história da vida de São Cristóvão e as razões pelas quais ele fora escolhido como o padroeiro dos motoristas. Dali há pouco ele começou uma oração em favor dos motoristas de maneira geral e ao final dessa oração iniciou uma música.
Em 99,9% dos casos essas canções religiosas são muito fracas em letras e músicas e essa não era diferente, falava sobre a história de um coxo que pedia esmola e seu encontro com Pedro, que afirmou que não tinha ouro ou prata mas ordenou que o coxo levantasse e andasse em nome de Jesus. Nesse momento, eu que vinha acompanhando a letra da música (bem primária por sinal) emocionei-me imaginando aquela cena: um mendigo aleijado sendo erguido e curado por Deus através de Pedro. E o refrão se repetiu uma ou duas vezes, foi o bastante para o fim do clima. Logo, logo, a imaginação do TDAH entrou em ação e quando o cantor repetiu que Pedro disse ao coxo: levanta e anda em nome de Jesus, eu logo pensei: bonito se ele falou isso e o coxo levantou, saiu correndo e caiu na farra. Imaginei um sujeito em andrajos, imundo, barbado, correndo e gritando de felicidade por estar andando e caindo na vida, esquecendo-se de tudo por que passou e quem o curou.
Essa viagem foi longe e não sei mais como terminou a música ou o programa, dali pulei pro TDAH, deste pra chuva que caía, se eu deveria ou não deixar na loja a máquina de café, etc, etc.
Desnecessário dizer que caí na risada quando percebi a enorme derrapagem mental que tive. Claro que contado aqui não tem graça nenhuma, mas a imagem do mendigo dando no pé na minha cabeça foi muito engraçada. Destruiu o clima que se armava na minha alma, no meu coração. Na hora pensei se havia tomado minha ritalina, e havia; ou seja, nem ela segura totalmente as viagens mentais do TDAH.
E isso abre uma outra questão: se bem administrada, na dosagem apropriada, a ritalina não transforma ninguém em robô. Creio que nos casos em que há essa reclamação existe uma super dosagem ou uma posologia inadequada. Na minha vida, com a minha experiência pessoal, a ritalina não alterou minha personalidade, ela melhorou minha qualidade de vida, minha concentração e em um ano de tratamento com ritalina eu produzi, se não me engano, 188 posts nesse blog, escrevi uma meia dúzia de contos, desenvolvo uma nova profissão e preciso ter pulso firme para controlar minha imaginação.
A ritalina não dopa ninguém, não troque de remédio, troque de posologia, concentração ou de médico.