segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O TDAH E O TERRORISMO





Você seria capaz de matar por uma causa? Por sua crença?
Não sei responder com certeza...
Trabalho a cerca de seis meses com um jovem portador de TDAH diagnosticado e não tratado. Essa convivência tem sido um verdadeiro laboratório para mim pois me reconheço em vários de seus comportamentos. Já iniciei um post sobre isso, mas parei por causa do atentado ao Charlie Hebdo.
Meu colega Jonas é um xiita evangélico e eu já afirmei várias vezes que se ele fosse muçulmano já teria explodido dezenas de pessoas.
Há poucos anos Jonas era um roqueiro Hard, dark, daqueles que frequentam cemitérios, bebem até cair e se divertem agredindo os outros gratuitamente. Seu comportamento destrutivo rendeu-lhe o sugestivo apelido de 'Morte'. Jonas pesava na época quase cento e noventa quilos e, sei lá por quê, decidiu entrar numa academia para emagrecer. Passou a frequentar a academia quatro horas por dia, malhando até quase a completa exaustão. Emagreceu quase cinquenta quilos.
Virou evangélico, abandonou a bebida, os cemitérios e as agressões. Hoje afirma que vai casar-se virgem, só ouve música evangélica, tenta diariamente me converter (inutilmente) e à todos que cruzam seu caminho; duas ou três vezes por semana dorme na Igreja que frequenta e já virou a madrugada ajudando a pintar sua Igreja e a casa do pastor, indo trabalhar insone na manhã seguinte.
Tamanha intensidade e entrega me fez fazer esse paralelo: teria o Jonas coragem de matar por sua Igreja, crença, pastor?
E aí veio a extensão: eu, você, os portadores de TDAH, teríamos coragem de sair explodindo e atirando em quem agredisse nossas verdades?
Quanto mais eu penso, mais acredito que sim, eu poderia fazer isso na minha adolescência. A maturidade nos traz uma tranquilidade, um medo, uma tolerância inexistentes na juventude. Hoje não, talvez eu escrevesse um protesto, participasse de uma passeata (se ela passasse na porta da minha casa, rsrsrs), esbravejasse um bocado, mas nada além disso.
Mas a soma de adolescência, TDAH e fanatismo gera verdadeiras bombas relógios humanas
Somemos à isso essas reportagens tendenciosas, esses pseudo médicos anti TDAH, essa desinformação que grassa em nossas escolas e teremos meu amigo Jonas; diagnosticado com onze, doze anos, tomou Ritalina enquanto sua mãe podia com ele. Adolescente, com quase dois metros de altura e duzentos quilos, abandonou o tratamento pois não se acha doido pra tomar 'Tarja Preta'.
Nossa sociedade cria seus xiitas; preconceitos, teses estapafúrdias, interesses escusos, são ferramentas do desserviço causado pelas pessoas que se opõe ao TDAH e seu tratamento.
A intensidade dos sentimentos e emoções do TDAH é patológica e em muitos casos prejudiciais ao próprio portador.
Quantas vezes enredados em nossas emoções dizemos ou agimos de maneira intempestiva para nos arrependermos em seguida? Se essa ação incluir armas, pode ser tarde demais pra arrependimentos.
Pelo amor de Deus, não estou dizendo que os terroristas são TDAHs, somente fiz uma ligação entre a perigosa equação: TDAH x Adolescência x Fanatismo =  Tragédia. e  o atentado na França.
Também não estou criticando os evangélicos, critico o fanatismo sob qualquer aspecto: religioso, político, amoroso, esportivo...
Eu sempre tive medo de mim mesmo. Jamais bebi bebida alcoólica por medo de chegar ao fundo do poço e jamais tive uma arma; sempre achei que se tivesse uma, poderia criar uma tragédia em uma fração de segundo de irracionalidade.
Hoje, acredito ainda mais nisso!