quarta-feira, 1 de maio de 2013

O TDAH E OS ERROS DO PASSADO

" Como é possível viver uma 'nova' vida com tantos erros GRAVES deixados para trás? Como é possível colocar a cabeça a noite no travesseiro tranquilamente sabendo que fez coisas que doença nenhuma justifica?
TDAH não é motivo para fechar os olhos para os problemas que possa ter causado, muito menos desculpa. Para ser considerado uma nova pessoa, a 'antiga' não pode deixar pendências que prejudiquem a vida de outras pessoas. O novo 'eu' só pode deixar pra trás aquilo que consertar.
O diagnóstico que teoricamente "abre os olhos" é enganoso. Erros que atrapalharam a vida de outras pessoas, não podem ser simplesmente esquecidos, isto está no caráter, e não numa doença."




O comentário acima me fez pensar muito.
Parece que existe um erro de avaliação em relação ao TDAH, ao tratamento e aos portadores.
TDAH é uma doença biológica que altera o comportamento do portador. Não serve de desculpa para nada, simplesmente pode justificar determinados comportamentos. 
Existem portadores de TDAH honestos e desonestos; gordos e magros; pacíficos e violentos; heterossexuais e homossexuais. 
Ser diagnosticado TDAH não apaga o passado de ninguém. Iniciar uma nova vida não significa esquecer o passado, mas construir um novo futuro.
O tratamento do TDAH não nos tornará perfeitos, nos tornará comuns, normais, igual à maioria das pessoas que não tem TDAH. 
Pessoas com ou sem TDAH cometem erros, magoam pessoas, prejudicam pessoas, são magoadas pelas pessoas, são prejudicadas pelas pessoas, amam e odeiam as pessoas. 
Atire a primeira pedra aquele que jamais prejudicou alguém. Com ou sem intenção.
A nova vida que tanto falamos aqui é uma nova vida para os portadores de TDAH. E é mesmo, uma vez que estaremos com o domínio de uma série de comportamentos que nos prejudicaram ao longo de nossas vidas. 
Os comportamentos que tivemos antes do diagnóstico foram de nossa responsabilidade e continuam sendo. Quem cometeu erros não os esquecerá (e nem é esse o objetivo do tratamento), a vida continua, agora sob uma nova ótica. Somente isso.
Ao contrário do que disse o leitor acima, o diagnóstico realmente abre nossos olhos; abre para novas possibilidades de vida; abre para que entendamos muitos de nossos comportamentos (que muitas vezes são inexplicáveis para nós mesmos); abre para que possamos construir uma nova vida.
Em nenhum momento foi dito aqui, por mim ou por qualquer dos leitores que aqui comentaram, que os erros do passado serão ou foram esquecidos. E, ainda em oposição ao que afirmou o leitor, muitos de nossos comportamentos são sim frutos do TDAH e não de falta de caráter como afirma o comentário acima.
Outra coisa que chama atenção nesse comentário: é possível reparar o que foi feito no passado? Se não for, de que adianta ficarmos remoendo e sofrendo por sua causa?
Não se trata de um comportamento frio, mas realista, de bom senso. 
O sentimento de culpa é uma das características dos portadores de TDAH; nos culpamos - com ou sem razão - por inúmeros problemas que podemos ter causado, ou imaginamos que tenhamos causado. 
Cometi inúmeros erros no passado, magoei várias pessoas, mas com mais de cinquenta anos quem não errou? Quem não magoou? Então, não olho mais para o que não posso reparar.
Procuro ser uma pessoa melhor hoje - e nem sei se estou conseguindo - para magoar o mínimo de pessoas possível e, se possível, jamais prejudicar a quem quer que seja. Mas, nem eu nem ninguém pode garantir que esse objetivo será plenamente alcançado, posso garantir que tento, tento muito.
Cada um de nós que foi diagnosticado como portador de TDAH tem o direito de inciar uma nova vida, de construir um novo futuro, de desfrutar de uma vida comum e normal.
Cada pessoa convive com seu passado da maneira que lhe for conveniente, possível e aceitável. O peso desse passado não pode provocar paralisia no presente.