sábado, 14 de dezembro de 2013

O TDAH AUSENTE







Não me acuse de ter Déficit de Atenção.
Nada disso. Eu não me esqueci daquilo que você disse outro dia; eu não estava lá. De nada vale você dizer em que posição eu estava sentado, em qual cadeira da sala, ou como eu segurava a xícara de café; eu não estava lá. Se você não me conhece o bastante para saber que eu estava ausente, você não me conhece. Eu simplesmente não estava lá.
Se o assunto só interessa a você, se só diz respeito a você ou aos seus sentimentos, preste atenção: eu posso viajar. Posso me desgarrar ainda que permaneça diante de você. Quem sabe se você dançar enquanto fala.  Ou dramatizar suas maçantes palavras. Ou eu não estarei ali para ouvir.
E você não pode me acusar de Déficit de Atenção, não se fala pra quem não está presente; talvez seja até falta de educação. De sensibilidade é, com certeza.
Às vezes viajo, vou longe, embalado pela cantilena da sua voz e pelo ritmo incessante de seus lábios; ah como viajo...
Se você me acusa de Déficit de Atenção posso acusar você da mesma coisa: onde você estava que não percebeu que falava para as paredes?
Mas não vou acusar você de nada; apenas ignoro e sigo a vida. Afinal, o que você disse ou tentou dizer não deveria ser nada importante; ou fascinante; ou interessante...
Guardo na memória coisas do arco da velha, coisas aparentemente inúteis, mas que tiveram força suficiente para imprimir sua marca em minh'alma. Muitas coisas de ontem, ou de hoje, evaporaram-se; simplesmente por que não tinham importância.

Mas do que você estava falando mesmo? Desculpe-me, eu me desgarrei de novo...